segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Dólar, baixa oferta e exportação à China devem encarecer carne de boi no Brasil

 Cotação da arroba do boi gordo beira R$ 400 no país impulsionada por dólar alto, embarques para os EUA e compras chinesas

Carne bovina -  Crédito: Divulgação

O custo da arroba do boi gordo no mercado brasileiro caminha para alcançar o teto histórico de R$ 400, impulsionado pela combinação entre forte ritmo de exportações para os Estados Unidos, alta no câmbio e retração na oferta interna de animais para o abate, informa a Reuters.

Em São Paulo, centro de referência para o setor pecuário do maior exportador global de carne bovina, os preços já orbitam os R$ 390 por arroba. A cotação acumula valorização superior a 20% ao longo do ano, sendo que cerca de um terço desse avanço ocorreu apenas durante o mês de outubro, conforme medições do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).

No campo cambial, a apreciação de 9,15% da moeda americana na semana passada injetou dinamismo nas vendas ao exterior. “O principal motivo (da alta da arroba) é a valorização do câmbio, que aumenta a competitividade brasileira no mercado internacional e aumenta também o interesse da indústria em exportar para faturar em dólares. Com as exportações mais atrativas, o boi foi junto”, disse a CEO da consultoria Agrifatto, Lygia Pimentel.


A oscilação do dólar ocorre simultaneamente aos preparativos da China para retomar os embarques brasileiros entre novembro e dezembro, mirando a utilização da cota tarifária preferencial projetada para 2027. Com a cota de 2026 esgotada desde meados do ano, os importadores chineses contarão com um volume de 1,128 milhão de toneladas sob alíquota de 12% — volume excedente a esse limite passa a ser taxado em 55%.

“O mercado está numa expectativa construtiva dessa retomada das compras da China…”, comentou o líder do setor de pecuária da consultoria Datagro, João Figueiredo. De acordo com o consultor, os levantamentos para o indicador de preços de sua instituição — referência na liquidação de contratos da B3 — já apontam contratos isolados firmados em R$ 400 por arroba por frigoríficos voltados ao comércio externo.

Negócios no teto de R$ 400 também foram observados em transações pontuais voltadas ao suprimento doméstico, aquecido pontualmente pelo período festivo de fim de ano. Contudo, Figueiredo ressalta que esse valor impõe limitações à demanda interna. “Neste fim de ano pode sustentar um pouco ainda, mas já está flertando com as máximas…”, disse, observando também que há preocupação com demanda doméstica em 2027, diante de medidas que o governo venha a tomar para um eventual ajuste fiscal.

No aspecto da oferta, a restrição de lotes prontos para abate tende a impedir quedas expressivas nos valores no curto e médio prazo. Segundo o pesquisador Thiago Bernardino de Carvalho, do Cepea/Esalq-USP, o cenário aponta para sustentação dos patamares atuais até o encerramento do ano e durante o primeiro semestre. “A nossa carne realmente vem valorizada e isso reflete no boi”, disse ele, que não acredita também em mudanças no consumo doméstico até o final do ano. “Então o preço não me tem como recuar, dado esse cenário de muito equilíbrio entre oferta e demanda.”

Essa conjuntura de cotações elevadas no campo trará um estreitamento nas margens operacionais ao longo de toda a cadeia produtiva no próximo período. “A partir do consumidor, que vai ter que pagar mais caro pela carne bovina, se quiser comer carne bovina… Então há um ajuste ao longo da cadeia…, o próprio terminador, aquele que compra o bezerro, o boi magro para engordar, ele também encontra preços elevados…”, disse o pesquisador do Cepea, sublinhando que a diferença entre a aquisição do animal e a comercialização da carne atingiu um dos menores níveis desde 2023.

Apesar da pressão inicial sobre a indústria frigorífica, especialistas projetam um reequilíbrio financeiro impulsionado pelo faturamento em moeda estrangeira e pelo volume de vendas aos norte-americanos. “Estamos ampliando as exportações em primeiro lugar para os Estados Unidos, que são o mercado que paga bem”, disse Pimentel, ressaltando a relevância dos Estados Unidos como o segundo maior comprador do produto brasileiro.

Fonte: Brasil 247

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