Ex-titular da Educação afirma que não votará no segundo turno, critica aproximação com o Centrão e questiona o sistema eleitoral brasileiro
O ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, que integrou o governo de Jair Bolsonaro (PL), anunciou que não votará no segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro. Apesar de ter mantido proximidade com os filhos do ex-presidente durante sua passagem pelo governo, Weintraub descartou apoiar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mencionando suspeitas de corrupção envolvendo o candidato.
Em declarações à coluna Painel, da Folha de São Paulo, o ex-ministro afirmou que pretende repetir a abstenção registrada no primeiro turno. Atualmente residente nos Estados Unidos, ele justificou sua decisão com uma frase atribuída ao teólogo Charles H. Spurgeon: “Entre dois males, não escolha nenhum”.
A recusa em apoiar Flávio Bolsonaro representa mais um episódio do distanciamento político entre Weintraub e a família do ex-presidente. O economista afirmou que sua ruptura com o bolsonarismo ocorreu ainda em 2020, quando o governo passou a ampliar sua articulação com partidos do Centrão.
“Quando apoiei [Jair] Bolsonaro, não havia suspeitas de corrupção como há agora. Meu rompimento foi em 2020, com a entrada do centrão”, declarou à coluna.
Weintraub também comparou sua posição atual à postura que adotou em eleições anteriores, citando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf. Segundo ele, a decisão de não apoiar candidatos sobre os quais tenha dúvidas relacionadas à honestidade é uma convicção antiga.
“Nunca votei em [Paulo] Maluf ou Lula, por não acreditar que fossem minimamente honestos. Nunca votei em gente assim. Não vou começar a fazer isso depois de velho”, afirmou.
☉ Investigação envolvendo Flávio Bolsonaro
As declarações do ex-ministro ocorrem em meio a uma investigação que envolve Flávio Bolsonaro e a produção do filme Dark Horse, uma cinebiografia sobre Jair Bolsonaro.
O senador é investigado por possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção relacionados ao projeto cinematográfico. Segundo as informações divulgadas pela Folha de S.Paulo, Flávio passou à condição de investigado por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A decisão foi tomada em 22 de julho deste ano, após solicitação da Polícia Federal (PF). A investigação busca esclarecer possíveis irregularidades relacionadas à produção do filme. A existência do inquérito, por si só, não representa comprovação dos crimes investigados.
Weintraub apontou essas suspeitas como um dos motivos para rejeitar a candidatura do senador, mesmo tendo integrado um governo liderado por seu pai.
☉ Ex-ministro também questiona sistema eleitoral
Além das críticas ao candidato do PL, Weintraub apresentou questionamentos sobre o funcionamento das instituições brasileiras e a confiabilidade do processo eleitoral.
O ex-ministro declarou que “o Brasil não é uma democracia plena”, alegando que “não há voto independente como foi determinado pelo acordo de San José da Costa Rica [conhecido como a Convenção Americana sobre Direitos Humanos] ou urnas auditadas conforme a lei que foi aprovada”.
As afirmações refletem a avaliação pessoal do ex-integrante do governo Bolsonaro e não constituem comprovação de irregularidades no sistema eleitoral brasileiro.
Ao justificar sua decisão de permanecer afastado da votação, Weintraub acrescentou: “Não participo de coisa errada”.
A posição reúne críticas tanto à candidatura de Flávio Bolsonaro quanto ao processo eleitoral. O ex-ministro, entretanto, não anunciou apoio a outro candidato e reafirmou que pretende se abster no segundo turno.
☉ Rompimento com Bolsonaro e saída do Ministério da Educação
Abraham Weintraub comandou o Ministério da Educação entre abril de 2019 e junho de 2020, durante o governo Jair Bolsonaro. Sua gestão foi marcada por sucessivos confrontos políticos, especialmente com integrantes do Supremo Tribunal Federal.
Um dos episódios mais controversos ocorreu quando o então ministro fez declarações ofensivas contra integrantes da Corte, afirmando que queria “botar todos esses vagabundos na cadeia, começando no STF”.
A declaração agravou as tensões entre o governo federal e o Judiciário. Weintraub acabou incluído no inquérito conduzido pelo STF que investigava a disseminação de notícias falsas e ataques a ministros do tribunal.
Em junho de 2020, ele deixou o comando do Ministério da Educação, em meio ao agravamento da crise institucional provocada por suas declarações.
Agora, mais de seis anos depois de sua saída do governo, o ex-ministro volta a se distanciar publicamente da família Bolsonaro. Ao associar sua recusa em votar em Flávio às suspeitas investigadas pela Polícia Federal, Weintraub reforça a ruptura política iniciada, segundo seu próprio relato, com a aproximação do governo Bolsonaro aos partidos do Centrão em 2020.
Fonte: Brasil 247 com informações da Folha de S. Paulo

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