segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Abertura econômica de Milei fecha 32 mil empresas e aprofunda rejeição ao governo argentino

 Queda do consumo, avanço dos importados e retração industrial aprofundam crise na Argentina, onde desaprovação ao presidente chega a 56%

    Argentina, protesto - Crédito: Sputnik

A política econômica do presidente argentino Javier Milei, marcada pela abertura comercial, austeridade fiscal e redução das restrições às importações, está provocando uma crise em setores importantes da indústria nacional. Desde dezembro de 2023, quando o ultraliberal assumiu o poder, aproximadamente 32,3 mil empresas encerraram suas atividades no país, o equivalente a 6% do total de companhias argentinas. O fechamento de negócios ocorre em meio à queda do consumo, à deterioração da atividade industrial e ao crescimento da rejeição ao governo.

As informações foram divulgadas pela Folha de S.Paulo, com base em dados do centro de estudos Fundar, indicadores econômicos oficiais e entrevistas com empresários argentinos. O levantamento aponta que as empresas fecharam entre dezembro de 2023 e julho de 2026, enquanto a combinação de demanda enfraquecida e concorrência de produtos estrangeiros mais baratos compromete a sobrevivência de fabricantes locais.

A deterioração econômica também se reflete na popularidade presidencial. Pesquisa da consultoria Giacobbe y Asociados mostra que a desaprovação a Milei alcançou 56% em outubro, enquanto apenas 36% dos entrevistados aprovaram sua gestão. O desgaste ocorre a menos de um ano da eleição presidencial de outubro de 2027, quando o presidente deverá tentar a reeleição.


⦾ Indústria argentina perde mercado e empresas reduzem empregos

O setor têxtil está entre os mais atingidos pela abertura comercial promovida pelo governo. Em Buenos Aires, a fabricante Eseka, responsável pelas marcas Cocot e Dufour, enfrenta uma redução de aproximadamente 40% nas vendas desde a chegada de Milei à Presidência.

Embora ainda produza cerca de 3 milhões de peças mensais, entre roupas íntimas, meias e trajes de banho, a empresa acumula dificuldades financeiras. Depois de registrar prejuízo em 2025, reduziu seu quadro de funcionários em aproximadamente 30%. Mais da metade das máquinas circulares utilizadas na fabricação de meias permanece desligada.

“A situação é crítica”, afirmou Ricardo Kuchikian, proprietário da companhia ao lado do irmão, Gustavo.

O empresário atribui as dificuldades à combinação entre retração do mercado consumidor e aumento da concorrência estrangeira. “O consumo caiu de forma muito acentuada nos últimos três anos”, declarou.

A situação da Eseka ilustra os efeitos da política econômica sobre empresas que dependem das vendas domésticas. A abertura às importações, realizada simultaneamente à redução do poder de compra da população, intensificou a competição em um mercado que já enfrenta dificuldades para absorver a produção nacional.

⦾ Consumo recua e economia argentina enfrenta risco de recessão

O enfraquecimento das despesas familiares representa um obstáculo central à recuperação econômica argentina. O consumo das famílias corresponde a aproximadamente dois terços do Produto Interno Bruto (PIB), tornando a atividade nacional particularmente sensível à perda de renda e à redução das compras.

Segundo a empresa de pesquisas Scentia, o consumo registrou queda de 2,7% nos primeiros nove meses de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior. O levantamento considera operações realizadas em supermercados, pequenos estabelecimentos comerciais e plataformas de comércio eletrônico.

A retração ocorre apesar da desaceleração da inflação, que passou de níveis próximos de 200% para aproximadamente 30% sob o governo Milei. Embora a administração tenha conseguido reduzir desequilíbrios macroeconômicos, a melhora desses indicadores ainda não se traduziu em recuperação consistente das condições de vida da população.

A pobreza voltou a atingir quase um terço dos argentinos, após ter recuado em 2025 ao menor patamar em oito anos.

Os indicadores de atividade também reforçam as dificuldades enfrentadas pelo país. Depois de uma contração de 0,6% do PIB no segundo trimestre de 2026, economistas projetam nova queda entre julho e setembro, o que caracterizaria uma recessão técnica, definida por dois trimestres consecutivos de retração econômica.

“A economia argentina está tecnicamente em uma recessão moderada”, avaliou Ricardo Delgado, diretor da consultoria Analytica.

O economista estima que a contração do terceiro trimestre tenha alcançado aproximadamente 1,5%. Os dados oficiais referentes ao período ainda serão divulgados em novembro.

⦾ Abertura às importações pressiona produção nacional

A liberalização do comércio exterior constitui um dos pilares do programa econômico de Milei. Desde o início do mandato, o governo flexibilizou restrições às importações, controles cambiais e normas que limitavam operações empresariais e financeiras.

As mudanças foram recebidas favoravelmente por investidores, mas provocaram dificuldades para fabricantes argentinos que passaram a disputar mercado com mercadorias estrangeiras de menor preço.

O impacto aparece nos indicadores oficiais de agosto. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (Indec), a produção industrial caiu 3,2% em relação ao mesmo mês de 2025. No comércio atacadista e varejista, a retração chegou a 3,5%, enquanto a construção registrou queda de 2,5%.

Outro exemplo é a Dakuba, empresa familiar dedicada à distribuição de tecidos. Seu diretor, Martin Abigador, relata uma redução expressiva dos negócios desde o início da atual administração.

“Desde o fim de 2023, acredito que as vendas tenham caído 40%”, afirmou.

Abigador atribui parte das perdas à “concorrência agressiva” de produtos importados, principalmente da China.

Para empresários do setor têxtil, o problema não está restrito à competição internacional, mas também à velocidade da abertura comercial em um cenário de consumo deprimido.

Ricardo Kuchikian, da Eseka, teme que a continuidade da atual política econômica provoque danos permanentes à capacidade produtiva argentina. Segundo ele, existe o risco de que “a indústria nacional possa desaparecer”.

⦾ Energia, mineração e agronegócio avançam, mas não compensam perdas

A crise não atinge todos os setores da economia argentina com a mesma intensidade. Atividades ligadas à exportação, especialmente energia, mineração e agricultura, apresentam desempenho mais favorável.

O setor energético se beneficia de investimentos nas reservas de petróleo e gás de xisto, enquanto a mineração recebe impulso da demanda internacional por minerais estratégicos, como o lítio.

Essas atividades representam a parcela mais dinâmica da economia sob o modelo de Milei. Entretanto, sua expansão ainda não conseguiu compensar as perdas registradas na indústria de transformação, no comércio e na construção civil.

A diferença de desempenho entre os setores evidencia uma economia dividida entre atividades exportadoras em crescimento e segmentos dependentes do mercado interno que enfrentam retração.

Ricardo Delgado, da Analytica, considera provável que essa trajetória desigual continue em 2027, com “altos e baixos”. Sua avaliação é que a situação financeira das famílias dificilmente apresentará melhora significativa antes da eleição presidencial.

⦾ Milei rejeita mudanças apesar do aumento da desaprovação

O aprofundamento das dificuldades econômicas amplia a pressão política sobre Javier Milei. Com desaprovação de 56%, o presidente enfrenta o desafio de demonstrar resultados concretos à população antes de disputar um eventual segundo mandato.

A redução da inflação constitui uma das principais conquistas reivindicadas pelo governo. Entretanto, o fechamento de empresas, a diminuição do emprego industrial e a persistência das dificuldades de consumo colocam em questão a capacidade do programa econômico de produzir uma recuperação abrangente.

Apesar dos sinais de enfraquecimento da atividade e do desgaste político, Milei rejeita alterações em sua estratégia. O presidente classificou como “estupidez colossal” as afirmações de que os argentinos não conseguem pagar suas contas.

A posição também foi reafirmada por um porta-voz do governo, que argumentou que a recuperação econômica não ocorre de maneira uniforme entre diferentes setores.

“Este é o programa econômico em que o presidente acredita, e ele não vai mudá-lo”, declarou o representante da administração.

Com a proximidade da eleição de 2027, o governo argentino enfrenta uma contradição central: enquanto apresenta a desaceleração inflacionária e a expansão de setores exportadores como sinais de sucesso, milhares de empresas encerram suas atividades e parte expressiva da população continua submetida à perda de poder de compra.

A continuidade dessa trajetória deverá determinar não apenas o desempenho da economia argentina nos próximos meses, mas também as condições políticas em que Milei buscará renovar seu mandato.

Fonte: Brasil 247 com informações da Folha de S. Paulo

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