sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O mimimi da Globo: empresa protesta por não ter conseguido fazer Lula cair em sua armadilha

 Editorial do jornal O Globo transforma cancelamento do debate em defesa da emissora e critica ausência do presidente, que fez a coisa certa

           O palco vazio da Globo - Crédito: Reprodução

O jornal O Globo publicou nesta sexta-feira (2) um editorial em defesa da decisão da TV Globo de cancelar o último debate presidencial antes do primeiro turno e criticou a ausência do presidente Lula. A argumentação apresentada pelo jornal sustenta que intervenções judiciais de última hora teriam comprometido a liberdade da emissora para organizar o encontro.

O pano de fundo, porém, é outro: Lula decidiu não participar do debate e preferiu conceder uma entrevista ao Flow Podcast, enquanto Flávio Bolsonaro também desistiu horas antes do programa. A Globo acabou cancelando o evento depois de decisões judiciais alterarem aspectos das regras e da composição do encontro.

Em sua manifestação pública na noite de quinta-feira, a Globo afirmou que a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proibiu a manutenção do púlpito vazio identificado com o nome de Lula e a formulação de perguntas ao candidato ausente. Outra decisão, do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a participação de Renan Santos, do Missão. Romeu Zema também havia conquistado judicialmente o direito de participar.

⦾ O púlpito vazio como espetáculo

É justamente o episódio do púlpito que expõe a fragilidade do discurso da Globo. Se o propósito central de um debate eleitoral é, como sustenta a própria emissora, permitir a discussão de ideias e a comparação de projetos, qual seria a contribuição democrática de manter durante todo o programa um púlpito vazio identificado com o nome de Lula?


Mais ainda: por que permitir que candidatos presentes fizessem perguntas a alguém que sabidamente não estava ali para respondê-las?

As regras acertadas previamente realmente previam esse mecanismo. Esse é um fato. A Globo afirma que todos os partidos, inclusive o PT, haviam concordado com elas. Mas regras de um programa televisivo não estão acima do controle da Justiça Eleitoral. A existência de um acordo anterior não elimina o direito de uma campanha questioná-lo judicialmente nem impede que um magistrado determine sua alteração.

O editorial de O Globo apresenta essa intervenção como ameaça à liberdade de imprensa. É uma interpretação possível, defendida também por entidades representativas de empresas jornalísticas. Mas existe outra leitura: impedir que um candidato ausente seja transformado em personagem passivo de ataques sem direito de resposta também pode ser entendido como uma questão de equilíbrio eleitoral.

⦾ Lula escolheu outro palco

Há ainda algo que o protesto da Globo parece ter dificuldade em assimilar: nenhum candidato é obrigado a aceitar que uma emissora privada determine o palco em que deve se comunicar com a sociedade.

Lula recusou o convite e escolheu o Flow Podcast. A decisão foi anunciada antes do debate.

Isso diz muito sobre a transformação profunda pela qual passa a comunicação brasileira.

Durante décadas, participar do debate final da Globo parecia uma espécie de rito obrigatório de passagem para qualquer candidato competitivo à Presidência. A emissora concentrava audiência suficiente para transformar seu estúdio no centro incontornável da eleição.

Esse mundo acabou.

Não porque a Globo tenha deixado de ser importante. Continua sendo um dos maiores grupos de comunicação do País. Mas deixou de deter o monopólio da conversa nacional.

Podcasts, canais digitais, redes sociais e veículos independentes construíram audiências próprias. Um presidente da República pode hoje conversar longamente com milhões de brasileiros sem atravessar a porta dos estúdios da Globo.

Debate ou arena de lacração?

Há também uma discussão necessária sobre o próprio formato dos debates eleitorais.

Em tese, debates deveriam servir para que candidatos apresentassem projetos, confrontassem diagnósticos e explicassem propostas. Na prática, a dinâmica televisiva contemporânea frequentemente estimula frases de efeito, provocações, interrupções e momentos concebidos para viralizar posteriormente nas redes sociais.

Para um presidente em exercício que lidera uma candidatura à reeleição, participar ou não desse ambiente é uma decisão política e eleitoral. Lula optou por não fazê-lo. Flávio Bolsonaro, que estava confirmado, também desistiu na última hora.

Curiosamente, o editorial concentra sua reprovação na ausência de Lula.

A pergunta que merece ser feita é simples: se a preocupação essencial era oferecer aos brasileiros a oportunidade de conhecer propostas, por que o programa não foi realizado com os candidatos que estavam disponíveis?

O fim de uma era

A irritação manifestada pela Globo talvez revele uma realidade mais profunda do que a controvérsia jurídica desta quinta-feira.

A emissora organizou o palco. Estabeleceu suas regras. Preparou o cenário. Mas o principal candidato decidiu falar em outro lugar. O segundo colocado também desistiu. A Justiça alterou aspectos do formato e da composição. E o debate simplesmente deixou de existir.

O episódio simboliza uma redistribuição do poder na comunicação brasileira.

Durante muito tempo, grandes conglomerados midiáticos possuíram capacidade extraordinária de estabelecer a agenda política nacional. Hoje precisam disputar atenção com centenas de outros produtores de informação e conteúdo.

É saudável que seja assim.

A liberdade de imprensa não pertence à Globo, ao Globo, ao Brasil 247 ou a qualquer empresa específica. Ela existe justamente para permitir a pluralidade de vozes.

Por isso, o editorial desta sexta-feira soa menos como uma defesa abstrata da democracia e mais como o protesto de um grupo de comunicação diante da perda de uma prerrogativa que durante décadas pareceu natural: a de estabelecer o palco obrigatório da política brasileira.

Lula simplesmente decidiu que não precisava estar ali.

E talvez seja exatamente isso que a Globo ainda não tenha conseguido aceitar.

Fonte: Brasil 247

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