Malu Gaspar resolveu atacar a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), depois que a magistrada impediu a Globo de transformar a ausência de Lula no debate em um espantalho para ser linchado.
Fez isso usando um expediente clássico de seu repertório: recorreu a supostos “ministros”, “ex-ministros” e especialistas ouvidos “reservadamente”. Tudo em off. Como se precisasse: os nomes são André Mendonça, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques. Entre outros. As outras declarações ela pode inventar, já que não têm autor.
Na coluna publicada pelo Globo, Malu afirmou que a decisão de Estela representaria uma “intervenção inédita da Justiça Eleitoral”. Um “ministro do TSE” não identificado teria dito: “Isso é interferência e censura evidente.”
Um ex-ministro do TSE, também sem nome, afirmou: “Não me lembro de momento tão intervencionista do STF e do TSE.”
E outro ex-ministro, igualmente protegido pelo anonimato, teria decretado: “Isso é totalmente inédito e esdrúxulo. Estela conseguiu dar uma decisão pela qual sempre será lembrada.”
O mesmo personagem anônimo ainda teria acrescentado: “É uma decisão totalmente intervencionista e contrária ao que se tem entendido e praticado há anos nos debates da TV.”
O ataque de pelanca é sintomático. A ministra Estela Aranha determinou que a Globo não exibisse de forma destacada a cadeira vazia de Lula e proibiu a dinâmica pela qual os candidatos presentes poderiam formular perguntas ao candidato ausente, sem que ele estivesse ali para responder. Para Estela, a regra poderia criar desequilíbrio entre os participantes.
“A consequência jurídica da ausência é simplesmente que ele perde a oportunidade de participar daquela rodada, enquanto o debate continua segundo as regras previamente acordadas”, escreveu Estela. Segundo ela, não poderiam existir consequências “coercitivas”, pois isso configuraria cerceamento dos direitos políticos do candidato.
É especialmente conveniente que os “ministros” só apareçam quando é para detonar uma ministra — e desapareçam quando chega a hora de assumir publicamente o que disseram. Tem também a tentativa de execração pública de uma mulher, mas isso só vale quando ela é de direita.
A coluna ainda lamenta que as regras foram previamente acordadas pelas campanhas. Mas esse é justamente o ponto submetido à apreciação da Justiça Eleitoral: até que ponto isso pode produzir efeitos sobre uma disputa eleitoral e sobre a imagem de um candidato que decidiu não comparecer? A Globo considera que quebrar normas e apoiar golpes é prerrogativa dela.
A decisão de Estela não cancelou o debate. A Globo cancelou o debate. A ministra não mandou a emissora tirar o programa do ar. Não determinou que os demais candidatos deixassem de participar. Não proibiu a realização do confronto.
Foi Flávio Bolsonaro, que havia exigido que Renan Santos não comparecesse, que melou a noite dos astronautas no Jardim Botânico.
Estela retirou duas ferramentas grotescas: a exploração visual da cadeira vazia e o fato de candidatos dirigirem perguntas a um saco de pancadas.
Num episódio em que tantos preferiram acomodar-se diante do poder de uma emissora, como Cármen Lúcia, Estela teve a coragem de exercer o poder que a Constituição e a Justiça Eleitoral lhe conferiram.
Defendeu uma regra básica de uma democracia — a disputa eleitoral precisa ser equilibrada, e nenhum grupo de comunicação tem o direito de fabricar o circo em que essa disputa acontece.
Fonte: DCM
Nenhum comentário:
Postar um comentário