quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Marcos Coimbra: “Lula faltar ao debate não fará diferença”

 Cientista político diz que eleitorado que decide na reta final acompanha pouco debates e tende a escolher a partir de questões concretas

Luiz Inácio Lula da Silva - Crédito: Ricardo Stuckert/PR

A ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no último debate da TV Globo antes do primeiro turno não deverá produzir impacto relevante sobre seu desempenho nas urnas, segundo avaliação do cientista político e presidente do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra. Para ele, o segmento do eleitorado ainda capaz de alterar o quadro da disputa acompanha pouco a política, decide o voto nos últimos dias e tende a fazer sua escolha a partir de questões concretas do cotidiano, e não do desempenho dos candidatos em confrontos televisivos.

A análise foi apresentada por Coimbra em entrevista à TV 247, na reta final da campanha presidencial. Ao avaliar previamente a decisão de Lula de não comparecer ao debate da Globo, realizado nesta quinta-feira (1º), o cientista político sustentou que o encontro teria maior repercussão entre os eleitores mais interessados em política — justamente aqueles que, a poucos dias da votação, já tendem a ter suas escolhas consolidadas.

“A importância do debate da TV Globo para essas pessoas que decidem a eleição? Zero”, afirmou Coimbra.


A avaliação parte de uma divisão do eleitorado segundo diferentes graus de informação, interesse e envolvimento com a política. Coimbra estima que aproximadamente 40% da sociedade brasileira esteja situada nos níveis de baixa ou nenhuma politização. Outros 30% apresentariam um grau médio e cerca de 30%, um nível elevado de acompanhamento da vida política.

É no primeiro grupo, segundo ele, que estaria uma parcela importante dos eleitores que chegam à semana da eleição sem uma escolha completamente definida. São pessoas que não acompanham diariamente pesquisas, entrevistas, decisões judiciais, movimentos das campanhas ou programas dedicados à disputa eleitoral.

“Quem chega 9 horas da noite, liga a televisão e fica lá uma hora e meia, duas horas ouvindo discussão de políticos com políticos sobre temas políticos?”, questionou.

Na interpretação de Coimbra, um debate realizado durante horas e inteiramente dedicado à política mobiliza principalmente o eleitorado que já acompanha a campanha. Para quem possui baixo interesse pelo assunto, outras informações podem exercer influência maior nos momentos que antecedem a votação.

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“Essas pessoas, porque têm baixo interesse, baixo envolvimento, decidem tarde”, explicou.

Coimbra argumenta que esse eleitor não necessariamente organiza sua escolha a partir de posições ideológicas consolidadas. Informações sobre renda, emprego, programas sociais, preços, benefícios ou medidas anunciadas pelo governo podem adquirir peso maior justamente por apresentarem relação mais imediata com sua vida.

É nesse contexto que o cientista político relativiza o impacto eleitoral da ausência de Lula no debate. Embora a decisão tenha produzido repercussão política e tenha sido explorada pelos adversários durante o encontro, Coimbra considera que isso não significa necessariamente uma alteração relevante do comportamento do eleitorado ainda indeciso.

Para sustentar sua análise, ele recorreu à experiência das eleições presidenciais de 2022. Naquele pleito, as pesquisas divulgadas às vésperas do primeiro turno apontavam uma distância entre Lula e Jair Bolsonaro superior àquela registrada nas urnas.

Lula terminou o primeiro turno de 2022 com 48,43% dos votos válidos, enquanto Bolsonaro obteve 43,20%. Coimbra interpreta a aproximação ocorrida na reta final como resultado, em parte, da definição tardia de eleitores com baixo envolvimento político.

Não foi ideologia, não foi ‘eu sou antipetista, eu sou direitista’. Se isso tudo fosse verdade, ele já teria uma posição tomada e as pesquisas teriam mostrado isso abundantemente”, afirmou.

Segundo Coimbra, Bolsonaro conseguiu naquele momento conquistar eleitores que, pouco antes da votação, não demonstravam uma identificação política consolidada com sua candidatura. Medidas adotadas pelo então governo federal com impacto direto sobre a renda e o consumo teriam contribuído para essa movimentação.

O cientista político considera que esse comportamento ajuda a compreender uma característica importante das disputas eleitorais brasileiras: parte do eleitorado permanece distante da campanha durante meses e somente começa a prestar atenção à escolha presidencial quando a votação está próxima.

“Chega no sábado ou no domingo de manhã, uma parte desse público diz: ‘Eu vou lá votar’. Mas como é que vai escolher? Normalmente é com o que está sendo dito naquele dia, com o que estava sendo dito no dia anterior”, disse.

Na avaliação de Coimbra, a condição de Lula como presidente em exercício pode ser relevante justamente nesse momento. Ele argumenta que o eleitor pouco interessado em política tende a observar aquilo que identifica concretamente com o governo, mesmo sem acompanhar detalhadamente suas políticas ou conhecer a atuação de ministros e instituições.

O cientista político citou uma pesquisa realizada pelo Vox Populi na qual, segundo relatou, cerca de 80% dos entrevistados disseram não se considerar bem informados sobre as ações do governo. Ao serem questionados se gostariam de receber mais informações sobre o tema, muitos também demonstraram pouco interesse.

Para Coimbra, esse comportamento precisa ser levado em consideração na interpretação das pesquisas eleitorais e dos acontecimentos da campanha. A parcela mais politizada da sociedade aparece com mais intensidade no debate público, mas não necessariamente representa o comportamento de todo o eleitorado.

A própria disposição para responder pesquisas pode ser afetada por essa diferença, argumentou. Enquanto pessoas interessadas em política estariam mais propensas a participar de entrevistas e responder questionários extensos, eleitores com pouco interesse poderiam simplesmente recusar esse tipo de abordagem.

Essa hipótese também fundamenta suas ressalvas em relação à aparente estabilidade apresentada pelas pesquisas ao longo das últimas semanas. Para Coimbra, a chamada “cristalização” das intenções de voto pode não captar integralmente as decisões tomadas nos últimos dias ou até nas últimas horas anteriores à votação.

Isso não significa, ressaltou, que seja possível prever o resultado de domingo. Coimbra fez questão de separar sua interpretação do comportamento eleitoral de qualquer tentativa de antecipar o resultado das urnas.

“Eu não sou capaz de adivinhar o futuro, mas sou razoavelmente capaz de tentar pelo menos entender o passado”, afirmou.

Sua análise é de que a experiência de 2022 oferece elementos para compreender como segmentos menos envolvidos com a política podem alterar o cenário nos momentos finais. Desta vez, porém, ele considera que Lula dispõe da vantagem de ocupar a Presidência e apresentar ações já em andamento.

Coimbra também citou o desempenho dos governadores que buscaram a reeleição em 2022. Dos 22 que disputaram um novo mandato, lembrou, 20 venceram. Para ele, o dado sugere que a condição de ocupante do cargo pode funcionar como um critério simplificador para parte do eleitorado: se o governante está exercendo a função e sua atuação não provocou rejeição suficiente para produzir uma ruptura, a tendência à continuidade pode ganhar peso.

Essa vantagem, contudo, não torna a mobilização eleitoral dispensável.

Coimbra alertou que uma leitura excessivamente otimista do cenário poderia produzir desmobilização justamente na reta final. Segundo ele, uma eventual vantagem estrutural de quem disputa a reeleição não elimina a importância do comparecimento às urnas nem do trabalho político nos últimos dias.

“Se as pessoas se convencerem de que é bom que Lula ganhe, você vai ter um poderoso componente de motivação”, afirmou.

A preocupação envolve especialmente a abstenção. Como parcelas de menor renda historicamente apresentam dificuldades maiores para comparecer às urnas, Coimbra considera que a mobilização continua sendo um elemento relevante para o resultado.

Para ele, também existe diferença política entre simplesmente vencer uma eleição e conquistar uma margem mais ampla de votos. O tamanho da vitória presidencial, argumentou, pode influenciar o ambiente político no início do próximo mandato e a relação do Executivo com um Congresso que deverá continuar fragmentado.

“Uma bela vitória é muito importante. O pior que seja um pedaço do Congresso brasileiro, a sensação de que o Lula ganhou bem a eleição pode ser muito importante para esses quatro anos que ele terá pela frente”, disse.

Por isso, Coimbra combina duas avaliações. De um lado, considera que a ausência de Lula no debate da Globo não deverá ser determinante porque o público mais exposto ao encontro tende a ser justamente o que já decidiu seu voto. De outro, rejeita a ideia de que a eleição esteja definida e ressalta a importância da mobilização até domingo.

“Se a escolha for ganhar e perder, qualquer vitória é melhor do que uma derrota. Mas, se você tem um componente que te ajuda, aproveita para transformar a vitória numa bela vitória”, afirmou.

A questão central, na análise de Coimbra, está menos no que ocorreu no palco do último debate e mais no comportamento dos milhões de brasileiros que chegaram aos últimos dias da campanha sem acompanhar intensamente a disputa.

É nesse eleitorado, distante das discussões políticas durante a maior parte do ano e sujeito a uma decisão de última hora, que o cientista político identifica uma das principais incógnitas do primeiro turno. Para ele, o voto dessas pessoas poderá ser definido por informações recebidas entre agora e domingo — e por uma avaliação mais imediata das condições de vida e das ações do governo —, independentemente de terem acompanhado ou não o último confronto televisivo entre os candidatos.

Fonte: Brasil 247

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