O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a criticar políticas de Donald Trump nesta terça-feira (22), durante a abertura da 81ª Assembleia-Geral da ONU, em Nova York. Em discurso voltado à defesa da soberania nacional e da democracia, Lula afirmou que o presidente dos Estados Unidos não pode interferir no processo eleitoral brasileiro.
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, afirmou Lula, arrancando aplausos da plateia. A declaração ocorre um dia depois de o petista chamar o líder estadunidense de “imperador” em entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da CNN Internacional.
Após defender que os EUA precisam deixar de interferir em outros países da América Latina, como no sequestro de Nicolás Maduro e nos embargos contra Cuba, o presidente brasileiro defendeu as ações do seu governo contra o crime organizado e afastou a possibilidade de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas, o que abriria espaço para ações estadunidenses.
“Não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado. Esse é o espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos”, disse.
Na entrevista, Lula havia dito que Trump tem o direito de governar os Estados Unidos, mas não de tentar impor sua vontade sobre outros países. “Eu gosto de respeitar e de ser respeitado”, declarou o presidente brasileiro ao comentar a relação bilateral.
A tensão entre Brasília e Washington aumentou nos últimos meses por causa das tarifas de 37,5% impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros e das acusações do governo Lula de interferência externa no processo eleitoral. O presidente também afirmou desconfiar da atuação do secretário de Estado estadunidense, Marco Rubio, em favor da família Bolsonaro.
Lula disse ainda que poderá recorrer à Lei de Reciprocidade Econômica caso os dois países não alcancem um acordo comercial. A medida permitiria ao Brasil responder a restrições impostas por Washington com ações equivalentes.
O discurso desta terça-feira também abordou a defesa do multilateralismo, a reforma do Conselho de Segurança da ONU e a necessidade de preservar a autonomia dos países diante de pressões externas. Lula abriu o Debate Geral, mantendo a tradição de o Brasil ser o primeiro Estado-membro a falar na Assembleia. Trump discursaria logo depois.
O encontro ocorre a poucas semanas das eleições brasileiras de outubro. A possibilidade de interferência estadunidense no pleito passou a ser tratada como tema relevante pelo governo e por especialistas em direito eleitoral, diante das manifestações recentes de integrantes da administração Trump sobre a política brasileira.
Também havia expectativa de um encontro presencial entre Lula e Trump nos bastidores da Assembleia. Os dois não se reúnem desde maio, quando o brasileiro esteve na Casa Branca. Apesar das divergências, o governo brasileiro tem defendido a manutenção de canais diplomáticos e comerciais abertos entre os dois países.
Fonte: DCM
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