Ex-banqueiro enviou recurso da Agro Industrial Tabu a Rodrigo Fux. Ministro votou contra a pretensão bilionária de interesse do Banco Master
Mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF) revelam que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, procurou Rodrigo Fux, filho do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux, para tentar reverter uma decisão da Corte e liberar o pagamento de um precatório bilionário. O caso envolvia créditos da empresa Agro Industrial Tabu adquiridos por fundos de investimento com interesse direto do Banco Master, segundo Bela Megale, do jornal O Globo.
De acordo com os registros apreendidos no telefone celular de Vorcaro, em 6 de novembro de 2024 o ex-banqueiro enviou a Rodrigo Fux um arquivo nomeado “SLAT TABU”. O documento tratava de um processo de embargos de declaração da Agro Industrial Tabu, recurso utilizado para sanar erros ou contradições, mas que buscava alterar o resultado de uma decisão que mantinha bloqueada a liberação do crédito.
A movimentação ocorreu a apenas dois dias da inclusão do processo no plenário virtual do STF. Nas conversas, Rodrigo Fux respondeu que iria ler o material enviado e, na manhã seguinte, avisou: “Só conseguirei ver no detalhe no final de semana. Ok? Te aviso.” Vorcaro concordou: “Fechado!”. Em 9 de novembro, já com a votação em andamento, o advogado voltou a procurar o ex-banqueiro, perguntou se ele estaria no Rio de Janeiro e mencionou que viagens e compromissos impediam encontros em São Paulo ou Brasília, concluindo com: “De qualquer forma, temos tempo”.
A disputa judicial remonta a 1990, quando 27 empresas do setor sucroalcooleiro processaram a União por prejuízos decorrentes do tabelamento de preços do açúcar e do álcool nos anos 1980. A Justiça reconheceu o direito à indenização, mas determinou que os cálculos fossem executados individualmente. A parcela sob interesse de Vorcaro tratava exclusivamente da cobrança da Agro Industrial Tabu.
Em setembro de 2023, a então presidente do STF, ministra Rosa Weber, havia suspendido o pagamento do precatório da Tabu por considerar a emissão prematura. O valor atualizado da cobrança alcançava cerca de R$ 5 bilhões. Segundo estimativas da Advocacia-Geral da União (AGU), a extensão dessa tese às outras 26 execuções do setor sucroalcooleiro poderia gerar um impacto fiscal de até R$ 80 bilhões.
Na ocasião da decisão inicial em 2023, o plenário do STF confirmou a suspensão por unanimidade. O ministro Luiz Fux participou daquele julgamento e acompanhou o voto da relatora contra a liberação dos recursos. Até aquele momento, não havia registros de investidas de Vorcaro no processo. A investida sobre o filho do magistrado ocorreu mais de um ano depois, no momento em que o tribunal analisava os embargos de declaração.
O julgamento do recurso foi interrompido diversas vezes. O relator, ministro Luís Roberto Barroso, votou para aceitar os embargos apenas para corrigir o número de um processo citado erroneamente, mantendo a suspensão do valor bilionário. O caso teve pedido de vista do ministro Alexandre de Moraes e posteriormente do ministro Nunes Marques, passando por deliberações em sessões virtuais até a sua conclusão definitiva, ocorrida entre 19 e 26 de junho de 2026.
Na votação final de junho de 2026, o plenário rejeitou por unanimidade o pedido para liberar os valores. O ministro Luiz Fux seguiu o relator e votou contra a pretensão que beneficiaria os interesses do Banco Master. À época desse desfecho no STF, Daniel Vorcaro já estava preso. O ex-banqueiro havia sido detido inicialmente em 17 de novembro de 2025, na véspera da Operação Compliance Zero e da liquidação do Banco Master. Após ser libertado com uso de tornozeleira eletrônica, Vorcaro voltou a ser preso em 4 de março de 2026 sob acusações de ocultação de patrimônio, interferência nas investigações e financiamento de ações de intimidação.
Por meio de nota enviada por sua assessoria de imprensa, Rodrigo Fux afirmou que o escritório foi procurado, mas não advogou no caso e jamais celebrou qualquer contrato ou recebeu pagamentos do Banco Master ou de Daniel Vorcaro. A assessoria declarou ainda que o advogado não apresentou proposta de trabalho, não engajou profissionais no feito e não conversa com o pai sobre processos que tramitam na Corte.
O ministro Luiz Fux também se manifestou por nota, reiterando que em todas as etapas em que participou do julgamento posicionou-se contra a liberação dos valores. O magistrado afirmou que nunca foi abordado sobre o assunto e destacou que a decisão do tribunal contra a pretensão de Vorcaro foi tomada de forma unânime. A defesa de Daniel Vorcaro informou que não comentará o caso.
Fonte: Brasil 247 com informações do jornal O Globo
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