Por Paulo Henrique Arantes
Empunhando a espada evangélica que esgrima para eleger Flávio Bolsonaro, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, declara guerra aberta não só ao Governo Federal, mas a todos que prezam pela apuração desenviesada do caso Master. Ao atender à provocação do Novo e determinar o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, ao mesmo tempo que senta em cima das denúncias que envolvem Flávio, Mendonça deixa claro: há uma operação judicial em andamento para colocar o primogênito de Jair no Palácio do Planalto, soltar o ex-presidente condenado e preso, ajoelhar-se diante de Donald Trump e lançar o Brasil em uma nova quadra de obscuridade.
“A princípio, André Mendonça não poderia afastar Andrei Rodrigues, a menos que o chefe da Polícia Federal fosse réu por alguma improbidade grave ou crime, com pena superior a quatro anos. O ministro Mendonça passou por cima do ministro da Justiça (Wellington Lima e Silva), como se este não existisse. Partiu para o tudo ou nada”, avaliou à coluna o advogado Roberto Tardelli, ex-procurador de Justiça.
Andrei Rodrigues não figura formalmente como réu ou indiciado. Afastar o chefe da PF com base em depoimento de Daniel Vorcaro ou em relatórios preliminares constitui punição antecipada e desproporcional. A Polícia Federal é subordinada administrativamente ao Ministério da Justiça e da Segurança Pública, e seu diretor-geral ocupa cargo de confiança por nomeação do presidente da República. Ao afastar o diretor, Mendonça atropelou a prerrogativa do Executivo de chefiar e fiscalizar administrativamente os seus próprios órgãos.
O argumento jurídico que embasa Mendonça é o de que, após as mensagens e os depoimentos que citaram o diretor da PF, a permanência dele no cargo geraria um “risco potencial” de uso das prerrogativas da chefia para embaraçar as apurações, transferir delegados do caso ou acessar relatórios sigilosos. Ora, o que se vê na realidade é Mendonça, ele próprio, embaraçando as investigações ao blindar Flávio Bolsonaro, que simplesmente pediu R$ 131 milhões ao “irmão-tamo-junto-sempre” Daniel Vorcaro. Segue sem ser incomodado, o zero-um.

Já foi dito que André Mendonça é o novo Sérgio Moro. Talvez um tanto pior. Vale rememorar.
Poucas horas após a revista piauí publicar reportagens que complicavam a narrativa de Flávio Bolsonaro sobre repasses de Daniel Vorcaro, Mendonça retirou o sigilo de trechos do processo que expunham mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro investigado. Nítido desvio de foco: a decisão de Mendonça forneceu o combustível retórico que a campanha de Flávio Bolsonaro precisava para inflar as manifestações do 7 de Setembro. O lema “Fora Moraes” ganhou força, tirando a candidatura do PL da defensiva e recolocando a militância nas ruas, a despeito da escassez numérica.
Como afirma a ala não-bolsonarista da PF, Mendonça caminha em “dupla velocidade” nos inquéritos sob sua relatoria, além de arquitetar nulidades no Caso Master. Ao apontar desvios de conduta de Moraes e de delegados da PF, ele cria o ambiente jurídico perfeito para invalidar as provas colhidas pela investigação, blindando Flávio Bolsonaro de eventuais punições criminais que inviabilizariam sua candidatura.
Mendonça pode suspeitar que Rodrigues forneça dados sensíveis sobe Fábio Luís ao Planalto, como pode se revoltar com a produção do relatório sobre suas condutas impróprias entregue a Alexandre de Moraes, mas não pode fiar-se na palavra de Daniel Vorcaro, réu preso, para perseguir o diretor da Polícia Federal.
Fonte: DCM
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