Lula foca em legado e Flávio Bolsonaro aposta em segurança pública para atrair eleitores indecisos nos grandes colégios eleitorais
Em uma disputa eleitoral projetada como extremamente acirrada por aliados do presidente Lula (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL), a atenção das campanhas presidenciais voltou-se de forma estratégica para os quatro estados que concentram o maior contingente de eleitores indecisos na mais recente rodada da pesquisa Quaest, informa o jornal O Globo. O topo do ranking de indefinição reúne colégios eleitorais decisivos do país: Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraná registram índices de entrevistados sem candidato definido oscilando entre 16% e 18%. Essa disputa afunilada levou os dois lados a articularem alianças regionais, presença frequente nos palanques locais e discursos desenhados sob medida para responder às exigências desses eleitores.
Para a equipe do candidato do PL, três desses quatro estados coincidem com áreas tratadas como prioritárias desde o início da pré-campanha. A busca pelo eleitor indeciso passa por articular a mensagem política em torno da segurança pública e do custo de vida — apontados por levantamentos internos do partido como os temas centrais de preocupação —, reforçar a exposição durante o horário eleitoral e acionar aliados nos estados para dar capilaridade à candidatura.
⦾ Aposta petista na comparação e no legado
Pelo lado governista, a campanha de Lula enxerga no eleitorado indeciso um segmento suscetível a argumentos pragmáticos. O principal ativo da candidatura petista para conquistar esse público será o confronto direto entre as ações do atual governo e os resultados do mandato de Jair Bolsonaro (PL). A estratégia prevê explorar com mais força essa comparação ao longo do horário eleitoral gratuito na televisão e no rádio para elevar a taxa de rejeição do oponente.
Em solo mineiro, onde o PT possui a candidatura de Patrus Ananias ao governo, a tática repousa na presença constante do presidente. O chefe do Executivo esteve na capital mineira nos dois últimos sábados, incluindo participação no evento “Mulheres com Lula”, realizado ao lado da primeira-dama Janja Lula da Silva e das candidatas ao Senado Marília Campos (PT) e Áurea Carolina (PSOL).
O secretário de comunicação do PT, Éden Valadares, argumenta que o eleitor indeciso tende a pesar fatores racionais ao formar sua escolha, analisando trajetórias e propostas para temas sensíveis como emprego, renda, saúde, educação e segurança. Na visão do dirigente, o conjunto de realizações do atual governo funcionará como o principal argumento na busca por esses votos.
⦾ Segurança e diálogo com modelo internacional
No pilar de segurança pública, Flávio Bolsonaro realizou uma agenda para reforçar o tema ao se reunir com o ministro da Justiça e Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro. O debate buscou referências de combate ao crime organizado no modelo aplicado pelo presidente salvadorenho Nayib Bukele, focado na ampliação do sistema penitenciário. Durante a agenda, o senador declarou que a legislação brasileira é frouxa e defendeu a criação de mais meio milhão de vagas em presídios.
O estado de Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país e com 17% de indecisos, é considerado vital para o PL. Na segunda parada de sua campanha no estado, os levantamentos apontam um empate técnico, no qual o senador registra 31% das intenções de voto contra 30% de Lula. Em Belo Horizonte, o pré-candidato participou de atos com Flávio Roscoe, candidato da legenda ao governo estadual, e esteve ao lado do deputado federal Nikolas Ferreira (PL), tratado pela coordenação da campanha como peça essencial para dialogar com jovens e eleitores conservadores.
O planejamento da campanha prevê que Flávio cumpra mais quatro agendas em Minas Gerais antes do primeiro turno. O diagnóstico interno avalia que há margem de crescimento entre os eleitores que não migram para Lula, mas que tampouco se consideram bolsonaristas convictos. A complexidade do quadro decorre do fato de que o grupo de indecisos reúne desde ex-eleitores de esquerda frustrados com a atual gestão federal até antigos apoiadores de Jair Bolsonaro.
O presidente do PL mineiro, Domingos Sávio, ressaltou a necessidade de no mínimo duas viagens de Flávio ao estado para atrair essa parcela indecisa que, segundo ele, demonstra pouca inclinação a migrar para o petista nesta etapa.
⦾ Palanques estratégicos no Rio e no Sul
No Rio de Janeiro, onde a Quaest indica 16% de eleitores indecisos, a tática de Flávio baseia-se na movimentação ostensiva pelo estado. O candidato inaugurou sua campanha em Copacabana, realizou roteiros pela Baixada Fluminense — com passagens por Nova Iguaçu e Duque de Caxias —, discursou no Maracanãzinho e participou de uma barqueata em Angra dos Reis. O objetivo do PL no Rio é repetir a margem expressiva alcançada por Jair Bolsonaro em pleitos passados para equilibrar eventuais desvantagens no quadro nacional; a pesquisa mais recente aponta cenário de empate técnico no estado, com Flávio atingindo 31% e Lula somando 29%.
Lula esteve no Rio de Janeiro no dia 22 e tem novos compromissos previstos antes da votação em primeiro turno. O presidente apoia o prefeito Eduardo Paes, que aparece à frente de Douglas Ruas (PL), pré-candidato alinhado a Flávio Bolsonaro.
Nos estados da Região Sul, o candidato do PL conta com aliados liderando as corridas locais, a exemplo das candidaturas de Luciano Zucco no Rio Grande do Sul e Sérgio Moro no Paraná. O PT, por sua vez, preferiu fechar alianças com nomes do PDT que enfrentam cenários mais desafiadores nas pesquisas locais: Juliana Brizola no território gaúcho e Requião Filho entre os paranaenses. Flávio planeja agenda em Porto Alegre, estado que concentra o maior percentual de indecisos (18%), onde gravará conteúdos para o horário eleitoral e redes sociais com os candidatos ao Senado Marcel van Hattem (Novo) e Ubiratan Sanderson (PL). Na pesquisa Quaest para o primeiro turno gaúcho, o senador marca 34% contra 28% do atual presidente.
Diante do quadro no Rio Grande do Sul, petistas articulam uma nova visita de Lula antes do primeiro turno para transformar as ações federais na reconstrução do estado em um pilar de apoio, conforme ressalta o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), candidato ao Senado.
No Paraná, onde os indecisos representam 17%, Flávio abre uma vantagem mais ampla, com 41% das intenções de voto frente aos 23% registrados por Lula. A coordenação do PL organiza uma viagem do presidenciável ao estado durante o mês de setembro, enquanto a equipe do PT avalia incluir ao menos uma passagem do presidente pelo território paranaense na reta final.
⦾ Perfis e motivações do eleitorado indefinido
A diversidade de motivações entre os indecisos é exemplificada pela publicitária Jessica Pançardes, de 26 anos, moradora de Conservatória (RJ). Tendo votado em Bolsonaro em 2022 e mantendo afinidade com postulantes do campo conservador, ela considera se abster neste pleito por declarar não enxergar candidatos que traduzam totalmente seus valores na atual cartela de nomes.
Situação semelhante ocorre em outros pontos do país. Em Pernambuco, estado em que 11% dos eleitores não definiram o voto, a advogada Camilla Camelo, de 29 anos, moradora do Recife, relata ter um histórico de votos ligados à esquerda, mas afirma ter se deslocado ao centro e cogita anular o voto pela primeira vez. Ela aponta os reflexos econômicos acumulados nos últimos quatro anos e o nível de endividamento das famílias como fatores de dúvida sobre a renovação do mandato do atual presidente.
Fonte: Brasil 247 com informações do jornal O Globo
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