segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Deputados investigados no STF ampliam patrimônio em R$ 33,9 milhões

 Os parlamentares aparecem em investigações conduzidas pela Polícia Federal entre 2020 e 2026

Sóstenes Cavalcante - Crédito: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

Nove deputados federais investigados em processos no Supremo Tribunal Federal (STF) registraram, em conjunto, aumento de R$ 33,9 milhões no patrimônio declarado à Justiça Eleitoral entre 2022 e 2026. Levantamento publicado pelo UOL nesta segunda-feira (24), com base nos registros de candidatura apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostra que o maior crescimento foi o do deputado Fernando Coelho Filho (União Brasil-PE), cujos bens aumentaram R$ 13,3 milhões no período.

Os parlamentares aparecem em investigações conduzidas pela Polícia Federal entre 2020 e 2026 envolvendo suspeitas de desvios de emendas parlamentares, irregularidades em licitações e uso da cota parlamentar. Os procedimentos chegam ao Supremo em razão do foro por prerrogativa de função. Como parte dos processos tramita sob sigilo, o levantamento considerou deputados que já tiveram a participação nas apurações tornada pública por operações policiais ou pedidos formulados pela PF.

Integram a relação Carlos Jordy (PL-RJ), Dal Barreto (União Brasil-BA), Elmar Nascimento (União Brasil-BA), Félix Mendonça Júnior (PDT-BA), Fernando Coelho Filho (União Brasil-PE), Júnior Mano (PSB-CE), Juscelino Filho (União Brasil-MA), Pastor Gil (PL-MA) e Sóstenes Cavalcante (PL-RJ). A maior parte disputa a reeleição em 2026. Jordy concorre ao Senado pelo Rio de Janeiro, enquanto Júnior Mano é candidato a primeiro suplente de senador na chapa de Cid Gomes (PSB).


Fernando Coelho Filho lidera a expansão patrimonial registrada no grupo. Em 2022, o deputado declarou R$ 3,7 milhões em bens. Neste ano, o valor passou a R$ 17,1 milhões, avanço de aproximadamente 362%. A declaração mais recente inclui ações, direitos creditórios, imóvel e veículo. Coelho Filho e seu pai, o ex-senador Fernando Bezerra Coelho, foram alvos da Polícia Federal em fevereiro deste ano em uma investigação sobre suspeitas relacionadas a emendas destinadas a Petrolina, em Pernambuco, e possíveis fraudes em licitações.

Outro crescimento expressivo aparece nas declarações de Dal Barreto. O deputado do União Brasil declarou R$ 7,3 milhões em 2022 e R$ 14,7 milhões em 2026, praticamente dobrando o patrimônio informado à Justiça Eleitoral. Entre os bens estão terrenos, participações empresariais e investimentos. Barreto foi alvo da sexta fase da Operação Overclean, deflagrada em outubro de 2025, quando a PF apreendeu seu telefone celular em uma investigação sobre suspeitas de fraude em licitações e desvio de emendas.

Também investigado no âmbito da Operação Overclean, Elmar Nascimento passou de R$ 2,5 milhões em patrimônio declarado em 2022 para R$ 8,5 milhões neste ano. A relação de bens apresentada à Justiça Eleitoral inclui imóveis, um jet-ski e um quadriciclo. O deputado não foi alvo direto de mandado na quinta fase da operação, mas integrantes de sua família foram alcançados pelas medidas determinadas na investigação.

Pastor Gil está entre os parlamentares incluídos no levantamento e já foi condenado pela Primeira Turma do STF em uma ação penal relacionada ao desvio de emendas. Em março de 2026, o colegiado condenou por unanimidade Gil e Josimar Maranhãozinho (PL-MA), entre outros réus, por corrupção passiva. A decisão ainda está sujeita a recursos e não transitou em julgado. O patrimônio declarado por Pastor Gil aumentou R$ 552 mil entre as duas eleições. Em 2026, ele informou possuir imóvel, terreno, veículo, aplicações financeiras, saldo bancário e R$ 100 mil em espécie.

No Rio de Janeiro, Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, e Carlos Jordy foram alvos da Operação Galho Fraco, realizada pela Polícia Federal em dezembro de 2025 e relacionada ao uso da cota parlamentar. Na ocasião, policiais apreenderam cerca de R$ 470 mil em um flat utilizado por Sóstenes. O deputado afirmou, à época, que o dinheiro tinha origem na venda de um imóvel em Minas Gerais.

Sóstenes havia declarado cerca de R$ 5 mil em recursos bancários em 2022. Na eleição deste ano, apresentou patrimônio cerca de R$ 595 mil superior, incluindo R$ 500 mil em espécie vinculados à venda do imóvel e um terreno de R$ 100 mil em Brasília.

Carlos Jordy, por sua vez, registrou crescimento de R$ 982 mil. Entre os bens informados em 2026 está um apartamento em Niterói avaliado em R$ 1 milhão, adquirido com entrada de R$ 321 mil e financiamento pelo prazo de 35 anos, além de R$ 33 mil em aplicações de renda fixa. Em 2022, o deputado havia informado patrimônio total de R$ 122 mil.

Júnior Mano declarou R$ 371 mil em bens quando disputou a eleição de 2022, ainda filiado ao PL. Agora no PSB, o parlamentar informou R$ 997 mil, aumento de R$ 625,8 mil. Ele não disputa novo mandato de deputado federal: concorre como primeiro suplente de Cid Gomes na eleição para o Senado pelo Ceará.

Juscelino Filho, ex-ministro das Comunicações, apresentou a menor variação nominal entre os nomes destacados pelo levantamento: R$ 163,4 mil. O patrimônio declarado por ele em 2026 é de R$ 4,6 milhões. O parlamentar já foi alvo de desdobramentos das operações Odoacro e Benesse, que investigam suspeitas de desvios de emendas, irregularidades em licitações e corrupção em contratos de pavimentação no município maranhense de Vitorino Freire.

Cristiano Pavini, coordenador de projetos da Transparência Brasil, afirmou ao UOL que variações expressivas precisam ser justificadas e podem funcionar como elemento de atenção para órgãos responsáveis pela fiscalização. Segundo ele, esquemas de desvio de recursos públicos podem utilizar valores “camuflados” e “laranjas”, além de empresas de fachada e contratos informais.

Pavini também chama atenção para o que a Transparência Brasil denomina “emendas paralelas”: recursos aprovados pelo Congresso e incorporados ao Orçamento de forma que deixam de carregar os mecanismos usuais de identificação associados às emendas parlamentares. Ao explicar o risco de perda de rastreabilidade, afirmou: “Não são mais emendas, mas os parlamentares tratam como se fossem”.

Em resposta à reportagem, Dal Barreto atribuiu a evolução de seu patrimônio à atividade empresarial, afirmou que os bens foram adquiridos de forma lícita e devidamente declarados e informou estar à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos. Félix Mendonça Júnior, por sua vez, disse que o crescimento patrimonial decorreu de uma herança de R$ 4,6 milhões recebida após a morte do pai, em 2020, e declarada à Receita Federal.

Carlos Jordy, Elmar Nascimento, Fernando Coelho Filho, Júnior Mano, Juscelino Filho, Pastor Gil e Sóstenes Cavalcante também foram procurados pelo UOL, mas não haviam apresentado resposta até a atualização da reportagem publicada na manhã desta segunda-feira.

Fonte: Brasil 247 com informações do UOL por meio de levantamento publicado

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