quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Triplo atentado a bomba contra a OAB no Rio completa 46 anos

 Ações terroristas orquestradas pela linha-dura do regime militar em 1980 tentaram conter a abertura política com violência, mutilações e morte

Capa do jornal O Globo em agosto de 1980 - Crédito: Reprodução

O final da década de 1970 e o início dos anos 1980 no Brasil foram marcados pelo processo de transição política conduzido sob a promessa de uma abertura “lenta, gradual e segura”, iniciada no governo do general Ernesto Geisel e prosseguida pela administração do general João Figueiredo. No entanto, esse projeto de distensão enfrentou forte oposição interna de setores ultraconservadores e radicais das Forças Armadas e dos órgãos de segurança, conhecidos como a “linha-dura” do regime militar. Contrariados pela promulgação da Lei da Anistia em 1979 e pela perspectiva do retorno do pluripartidarismo e da democracia representativa, esses grupos organizaram uma estrutura clandestina de repressão encarregada de desestabilizar o processo político.


A estratégia da linha-dura consistia na execução de atentados terroristas atribuídos falsamente a organizações de esquerda. O objetivo primordial era semear o pânico social, forçar o recuo do governo central no cronograma de abertura e justificar a manutenção das medidas de exceção. Essa ofensiva terrorista englobou a chamada “Operação Cristal”, articulada por agentes ligados ao Centro de Informações do Exército (CIE) e ao Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI).

A violência política patrocinada por esses setores já acumulara precedentes significativos. Em 19 de agosto de 1976, uma bomba de alto teor destrutivo explodiu no sétimo andar do edifício-sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), destruindo dependências próximas à presidência da entidade. A autoria daquele ataque foi reivindicada pela Aliança Anticomunista Brasileira (AAB), grupo paramilitar de extrema-direita. Paralelamente, no mesmo período de agosto de 1976, um artefato explosivo foi localizado e desativado a tempo na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). A incapacidade ou indisposição do Estado autoritário em apurar e punir tais ações encorajou a intensificação das operações clandestinas, que culminaram na onda de atentados registrados no dia 27 de agosto de 1980.

A cronanálise dos atentados de 27 de agosto de 1980

Em um intervalo inferior a vinte e quatro horas, a cidade do Rio de Janeiro foi palco de três investidas terroristas coordenadas, direcionadas a alvos estratégicos da sociedade civil organizada, do Poder Legislativo municipal e da imprensa alternativa de oposição.

O atentado ao Conselho Federal da OAB e a morte de Lyda Monteiro

A Ordem dos Advogados do Brasil desempenhava um papel de centralidade histórica na denúncia das violações de direitos humanos, no amparo aos presos políticos e na salvaguarda de depoimentos que documentavam a prática sistemática de tortura nas dependências militares. Naquela ocasião, a entidade era presidida pelo jurista Eduardo Seabra Fagundes, figura proeminente na defesa das garantias constitucionais e filho do ex-presidente da OAB Miguel Seabra Fagundes.

Por volta das 13h40 do dia 27 de agosto de 1980, na sede do Conselho Federal da OAB, no Rio de Janeiro, a funcionária pública Lyda Monteiro da Silva, de 59 anos de idade e com 44 anos de serviços prestados à instituição, manuseou uma correspondência endereçada diretamente a Eduardo Seabra Fagundes. A carta continha um dispositivo explosivo oculto que foi acionado no momento da abertura do envelope.

A deflagração do artefato causou a amputação do braço de Lyda Monteiro e provocou lacerações e traumatismos graves. A secretária foi socorrida e conduzida ao Hospital Municipal Souza Aguiar, contudo faleceu a caminho da unidade de saúde. No mesmo evento, o funcionário José Ramiro dos Santos sofreu ferimentos decorrentes da onda de choque e dos estilhaços da explosão.

A autópsia n.º 313 realizada no Instituto Médico Legal foi assinada pelo médico-legista Hygino C. Hércules, registrando a causa da morte como decorrente de ato de sabotagem ou terrorismo. O sepultamento de Lyda Monteiro, realizado no dia seguinte no Cemitério de São João Batista, mobilizou mais de seis mil pessoas, entre lideranças políticas, advogados, estudantes e ativistas de direitos humanos, transformando o ato fúnebre em uma expressiva manifestação pública em repúdio ao terrorismo ditatorial. A data da sua morte foi posteriormente instituída pela entidade como o Dia Nacional de Luto dos Advogados. Os destroços da mesa em que a carta foi aberta encontram-se preservados no Museu Histórico da OAB, em Brasília.

O ataque ao gabinete do vereador Antônio Carlos de Carvalho

Cerca de uma hora após o atentado na sede da OAB, uma segunda carta-bomba explodiu nas dependências da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, atingindo o gabinete do vereador Antônio Carlos Nunes de Carvalho, conhecido publicamente como “Tonico”, filiado ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).

Antônio Carlos de Carvalho possuía um histórico consolidado de militância política. Ex-liderança do movimento estudantil secundarista no Maranhão e universitário no Rio de Janeiro, participara da organização da Passeata dos 100 Mil em 1968 e militara na Dissidência da Guanabara (MR-8) e na Ação Libertadora Nacional (ALN). Eleito vereador nas eleições municipais de 1976 com expressiva votação, o parlamentar transformou seu mandato em uma plataforma de denúncia dos crimes da ditadura.

A hostilidade dos órgãos de repressão contra o vereador fundamentava-se em acontecimentos do início da década de 1970. Em janeiro de 1970, quando esteve preso no DOI-CODI do I Exército, no Rio de Janeiro, Antônio Carlos de Carvalho foi testemunha ocular e auditiva da tortura e do assassinato do jornalista e dirigente do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), Mário Alves de Souza Vieira. Mário Alves falecera sob suplício violento, sendo o seu corpo ocultado pelos agentes do Estado.

Em 1979, amparado pela reformulação política e pela aprovação da Anistia, o vereador Antônio Carlos formalizou denúncias junto ao Ministério Público Federal (MPF), identificando os agentes e torturadores responsáveis pelo desaparecimento e morte de Mário Alves nas instalações do Exército. A partir dessas denúncias, o parlamentar passou a sofrer vigilância ostensiva, interceptações telefônicas ilegais, invasões domiciliares e ameaças formais emitidas por grupos extremistas, como o Comando de Caça aos Comunistas (CCC).

No dia 27 de agosto de 1980, a encomenda-bomba enviada ao seu gabinete foi recebida e manuseada pelo jornalista e chefe de gabinete José Ribamar de Freitas, que também era tio do parlamentar. A explosão destruiu o espaço físico da sala, feriu cinco funcionários e causou sequelas permanentes e mutilações graves em José Ribamar de Freitas, que sofreu a amputação de um membro superior, perda da visão do olho esquerdo e comprometimento auditivo. O vereador Antônio Carlos de Carvalho sobreviveu ao atentado e manteve sua atuação pública até sua morte prematura em 1993, aos 45 anos de idade.

O atentado contra a imprensa alternativa: a redação da Tribuna da Luta Operária

Completando a ofensiva terrorista do dia 27 de agosto de 1980, um terceiro artefato explosivo foi detonado durante a madrugada na sucursal do jornal Tribuna da Luta Operária, veículo impresso ligado ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

A explosão provocou destruição material substancial no escritório do jornal, lançando móveis, maquinários e exemplares impressos ao chão, além de comprometer a estrutura da sala. Embora o ataque não tenha deixado vítimas fatais ou feridos devido ao horário de pouca movimentação no imóvel, a ação integrou o esforço deliberado dos setores repressores para intimidar veículos da imprensa alternativa e independente que denunciavam os abusos operados pelo regime.

Local do AtentadoAlvo Institucional / PolíticoVítimas e Impactos FísicosMecanismo UtilizadoMotivação e Contexto de Repressão
Sede do Conselho Federal da OAB (RJ)Eduardo Seabra Fagundes (Presidente da OAB)Lyda Monteiro da Silva (morta aos 59 anos); José Ramiro dos Santos (ferido)Carta-bomba endereçada à presidência da OABRetaliação à guarda de depoimentos sobre tortura e à defesa do Estado de Direito
Gabinete na Câmara Municipal do RJAntônio Carlos de Carvalho (Vereador PMDB)José Ribamar de Freitas (mutilado com perda de membro e visão); 5 feridosCarta-bomba entregue no gabinete parlamentarPunição pelas denúncias ao MPF sobre a tortura e morte de Mário Alves no DOI-CODI
Redação da Tribuna da Luta OperáriaImprensa alternativa / Periódico do PCdoBDanos materiais graves à infraestrutura da redação (sem vítimas físicas)Explosivo detonado na madrugadaIntimidação à imprensa de oposição e aos órgãos de divulgação da esquerda

Das farsas iniciais às revelações da Comissão da Verdade

À época dos fatos, sob o governo do general João Figueiredo, os Inquéritos Policiais Militares (IPM) e os registros de ocorrência abertos na Polícia Civil — a exemplo do R.O. n.º 0853 da 3ª Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro — transcorreram sem a identificação ou responsabilização dos autores materiais e intelectuais dos crimes. O aparato policial-militar operou de forma a protelar as diligências e encobrir o envolvimento de agentes estatais, resultando no arquivamento dos procedimentos sem conclusões punitivas.

Somente com o advento das comissões de apuração histórica criadas no século XXI, em especial a Comissão Nacional da Verdade (CNV) e a Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro (CEV-Rio), foi possível desconstruir as narrativas oficiais do regime e mapear a cadeia de comando responsável pela execução do plano. Com base na análise de documentos sigilosos desclassificados, acervos fotográficos e depoimentos de ex-agentes e testemunhas, as apurações da CEV-Rio concluíram que os atentados perpetrados em 27 de agosto de 1980 foram planejados e executados por uma célula secreta vinculada ao Centro de Informações do Exército (CIE).

A investigação detalhou a divisão de tarefas entre os operacionais envolvidos na ação terrorista contra a OAB:

  • Infiltração e entrega: O sargento paraquedista Magno Cantarino Mota, conhecido no aparato repressivo pelo codinome “Guarani” ou “Guarany”, foi apontado como o agente encarregado de entregar pessoalmente a encomenda contendo a carta-bomba na recepção do prédio da OAB. O militar foi formalmente identificado por testemunhas por meio de confrontação de fotografias da época e de levantamentos periciais.
  • Confecção do artefato: A confecção do artefato explosivo ficou a cargo do sargento Guilherme Pereira do Rosário, especialista em explosivos do CIE. O sargento Rosário viria a falecer em 30 de abril de 1981, quando uma bomba que transportava no colo explodiu acidentalmente no interior de um veículo Puma no estacionamento do centro de convenções Riocentro, durante um evento festivo que reunia milhares de pessoas.
  • Comando operacional: O planejamento e o comando operacional de toda a ação foram atribuídos ao coronel Fred Perdigão Pereira, oficial superior do Exército também integrado à estrutura do CIE.

A confirmação de que os mesmos agentes do CIE atuaram no atentado à OAB em 1980 e na tentativa de atentado no Riocentro em 1981 demonstrou a existência de uma estrutura clandestina de terrorismo estatal que continuou operando organicamente dentro das Forças Armadas durante o processo de transição política.

Os atentados ocorridos em 27 de agosto de 1980 representaram um momento decisivo na história política recente do Brasil. Ao invés de intimidar a oposição e paralisar as demandas pela redemocratização, a violência perpetrada contra a OAB, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro e a imprensa alternativa produziu um efeito reverso de indignação e coesão na sociedade civil.

A morte de Lyda Monteiro da Silva e a mutilação de José Ribamar de Freitas evidenciaram para a opinião pública que a repressão ditatorial e os métodos do terrorismo de Estado não se restringiam às organizações da resistência armada, mas ameaçavam a integridade de instituições civis, profissionais e do Poder Legislativo. A reação das entidades de classe, capitaneada pela OAB e pela ABI, consolidou o processo de transição constitucional como um caminho irreversível, desnudando a fragilidade moral e política dos setores radicais do regime militar.

A reconstituição dos fatos pelas Comissões da Verdade desempenhou um papel fundamental no resgate da memória e na reparação histórica, culminando na retificação das certidões de óbito de vítimas do período e no reconhecimento formal da responsabilidade do Estado brasileiro pelos atos de exceção e terror praticados sob a ditadura.

Fonte: Brasil 247

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