quinta-feira, 27 de agosto de 2026

‘Muito dinheiro aí não foi para o filme’: prestação de contas de Dark Horse levanta suspeitas

 Perícia do filme sobre Bolsonaro revela gastos fora dos padrões de mercado e acende alerta de desvio na PF: “essa prestação de contas é uma peça de ficção”

       Cartaz do filme Dark Horse- Jair Bolsonaro-Flávio Bolsonaro-Daniel Vorcaro

Crédito: Dark Horse-Flávio Bolsonaro-Jair Bolsoanro (Foto: Divulgação/Jair Bolsonaro/Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil/Flávio Bolsonaro/Adriano Machado/Reuters/Daniel Vorcaro/Reprodução/ Montagem/IA Dall-e

A perícia contratada pela Go Up Entertainment, produtora responsável pelo polêmico filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro (PL), revelou um conjunto de dados orçamentários atípicos que geraram forte estranhamento no mercado audiovisual brasileiro e acenderam alertas nas autoridades investigativas, informa Malu Gaspar, do jornal O Globo.

O levantamento técnico aponta que 72% de todas as despesas com o projeto foram executadas nos Estados Unidos. No entanto, o ponto que mais chamou a atenção de cinco produtores do setor audiovisual consultados diz respeito aos custos astronômicos nas etapas iniciais de produção, valores que figuram muito acima dos padrões praticados em obras de porte semelhante.

Conforme o laudo elaborado pelo perito Anísio Costa Castelo Branco, a fase de “soft produção” — etapa embrionária dedicada à definição de conceitos criativos e diretrizes do longa — consumiu US$ 2,68 milhões. O montante equivale a 20% do orçamento total do projeto, fixado em US$ 13,39 milhões (cerca de R$ 75,18 milhões na conversão do perito). Profissionais com ampla atuação no setor explicam que, em média, um filme reserva apenas entre 3% e 5% do seu orçamento para essa fase.


Além do custo desproporcional na fase inicial, o relatório mostra que as filmagens realizadas no Brasil custaram menos do que a soma das etapas preparatórias nos Estados Unidos. A pré-produção do longa (estágio focado no trabalho com elenco, figurinos e viagens técnicas) custou US$ 2,66 milhões. Com isso, o somatório da fase conceitual com a pré-produção atingiu US$ 5,347 milhões, enquanto a produção propriamente dita no Brasil exigiu US$ 3,728 milhões — valor inferior a duas etapas que movimentam uma equipe consideravelmente menor.

☉ Análise do mercado e suspeitas de desvio

Todos os cinco produtores ouvidos reservadamente foram taxativos em apontar que a prestação de contas apresenta distorções profundas e inverossímeis para o padrão cinematográfico.

“Em média, uma soft tem 10 pessoas, uma pré-produção tem entre 50 e 80 e uma filmagem vai ter entre 100 a 150 pessoas. Não faz o mínimo sentido esses gastos, a soft é apenas para definir conceito. Essa prestação de contas é uma peça de ficção”, afirmou um dos produtores. De acordo com o especialista, considerando o orçamento total de US$ 13,39 milhões, a fase inicial deveria ter custado no máximo entre US$ 400 mil e US$ 670 mil — cerca de 25% do valor oficialmente declarado na perícia da Go Up.

Um segundo produtor reforçou o descabimento da divisão orçamentária: “Um custo de ‘soft pré’ e pré-produção mais alto que a produção no Brasil não faz nenhum sentido”. As filmagens no Brasil, realizadas na cidade de São Paulo durante o mês de outubro, contaram com 11 atores norte-americanos, mais de 800 figurantes e cerca de 350 profissionais técnicos. A rubrica cobria cachês do elenco internacional, diárias, salários, passagens aéreas, alimentação e segurança privada.

Diante do contraste entre o volume de profissionais mobilizados na gravação e os custos das etapas prévias, um terceiro produtor sintetizou a principal suspeita que paira sobre a prestação de contas: “Todo mundo está achando estranho. O que parece é que tem muito dinheiro aí que não foi para o filme”.

☉ Investigação policial e conexões políticas

O laudo contábil foi anexado aos autos de um inquérito sigiloso conduzido pela Polícia Civil de São Paulo. Por determinação do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), a apuração será compartilhada com a Polícia Federal.

A empresa responsável pelo documento, a Go Up Entertainment, é comandada pela jornalista Karina Gama. Dados da Agência Nacional de Cinema (Ancine) revelam que nem a Go Up nem as outras duas entidades em nome de Karina — a Go7 Assessoria e a Organização Não Governamental Instituto Conhecer Brasil — jamais registraram ou lançaram qualquer produção audiovisual no mercado brasileiro, seja para cinema, televisão aberta ou fechada.

A produção do longa gerou forte turbulência política em maio deste ano, quando foram divulgadas mensagens do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) cobrando repasses financeiros do empresário Daniel Vorcaro, ex-proprietário do Banco Master, supostamente para subsidiar a obra.

Uma das principais linhas de investigação da Polícia Federal busca identificar se os milhões repassados por Vorcaro foram utilizados para custear as despesas pessoais e a permanência do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos, onde reside desde fevereiro de 2025.

A perícia indicou que as etapas iniciais de Dark Horse ocorreram nos Estados Unidos entre julho e agosto de 2025. No entanto, a análise encomendada pela Go Up não mapeou a origem primária dos recursos enviados pelo fundo norte-americano Havengate para bancar a produção. O fundo possui ligações com o advogado Paulo Calixto, que atua na defesa e na gestão dos interesses de Eduardo Bolsonaro. Embora o perito tenha declarado ter examinado notas fiscais, recibos e extratos bancários, nenhum desses comprovantes foi anexado aos autos do processo.

Questionado publicamente sobre as investigações durante agenda na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Flávio Bolsonaro buscou se afastar das responsabilidades financeiras do filme. “A prestação de contas foi feita dentro da investigação que está acontecendo em São Paulo e a própria imprensa vazou. Da minha parte eu digo, não sou eu que tenho que prestar conta, é o Lula, porque fez reuniãozinha escondida com Augusto Lima e o Vorcaro”, disse o senador.

☉ Posicionamento dos citados

Procurado pelo O Globo para esclarecer os valores discrepantes aplicados nas fases preparatórias nos Estados Unidos, o perito Anísio Costa Castelo Branco alegou que a verificação do mérito dos custos “não é de competência da perícia” e declarou que as explicações deveriam ser prestadas pela própria produtora.

A empresária Karina Gama afirmou que “das cinco etapas do filme, só uma foi realizada no Brasil” e destacou que a equipe jurídica da Go Up está reunindo todas as informações para colaborar de forma integral com os trabalhos da Polícia Federal.

Fonte: Brasil 247 com informações do jornal O Globo

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