segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Candidatos da direita escondem Flávio Bolsonaro em materiais de campanha

 Materiais eleitorais de aliados priorizam figuras como Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira e ampliam desgaste do presidenciável

Flávio Bolsonaro  - Crédito: Andressa Anholete/Agência Senado

A dificuldade de Flávio Bolsonaro (PL) para consolidar alianças na disputa presidencial passou a aparecer também dentro do próprio campo político. Candidatos da direita em diferentes estados têm dado mais destaque à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) do que ao presidenciável em materiais de campanha, segundo reportagem de O Globo.


O movimento ocorre em santinhos, adesivos, bandeiras, fotos e publicações nas redes sociais. A ausência ou o baixo destaque de Flávio em peças eleitorais de aliados incomodou integrantes da campanha e provocou cobranças em perfis ligados à direita, que passaram a criticar candidatos acusados de tentar se associar mais a Nikolas do que ao nome escolhido pelo PL para disputar o Planalto.

Deputado federal mais votado do país em 2022, com 1,47 milhão de votos, Nikolas Ferreira tem sido tratado por candidatos como um dos principais puxadores de voto da direita. Em Minas Gerais, seu estado de origem, ele aparece com frequência em materiais de campanha de postulantes ao Legislativo. É o caso de Pedro Luiz, candidato a deputado estadual, que divulgou santinhos com referência ao parlamentar mineiro, sem menção a Flávio Bolsonaro.

“O Nikolas hoje é um dos políticos que mais transferem voto, e eu sou um dos poucos candidatos que ele escolheu para ser candidato dele a estadual. A gente tem que usar a imagem dele para mostrar que somos os candidatos do Nikolas”, afirmou Pedro Luiz.

O candidato, que tem base eleitoral em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, disse também apoiar Flávio e afirmou que o presidenciável aparece em bandeiras encomendadas por sua campanha. Ainda assim, a preferência por Nikolas evidencia uma escolha pragmática de parte da direita: associar-se a quem tem maior capacidade de mobilização eleitoral e digital.

A força do deputado mineiro nas redes sociais é um dos fatores citados por aliados. Nikolas Ferreira soma 22,1 milhões de seguidores no Instagram, quase o dobro de Flávio Bolsonaro, que tem 11,3 milhões. O alcance levou candidatos de fora de Minas a buscarem sua imagem como ativo eleitoral.

Em Pernambuco, Thiago Medina, candidato a deputado federal, tem publicado diversos registros ao lado de Nikolas, mas apenas um com Flávio. Medina afirmou que a aproximação com o deputado mineiro integra sua estratégia de campanha, embora diga também trabalhar para divulgar a candidatura presidencial do PL no estado.

“Nikolas, além de meu amigo pessoal, é um expoente da direita brasileira, com força e dimensão nacional”, disse Medina.

A tentativa de associação a Nikolas não se limita ao PL. Em Roraima, Athally Albuquerque, candidata a deputada federal pelo Republicanos, apresenta-se como a “única candidata a deputada federal do Nikolas em RR”. Em Santa Catarina, Bia Borba, do Novo, também se define como “candidata do Nikolas Ferreira” no estado e aparece em materiais e postagens ao lado do parlamentar.

A exposição de Nikolas em detrimento de Flávio abriu uma disputa interna no campo bolsonarista. Nas redes, candidatos que aparecem com frequência ao lado do deputado mineiro têm sido chamados de “nikolistas”, em referência à tentativa de vincular suas campanhas mais diretamente a Nikolas do que ao presidenciável do PL.

Entre os alvos das cobranças está Lucas Pavanato, candidato a deputado federal pelo PL. Em vídeo divulgado na semana passada, ele aparece colando um adesivo com sua imagem ao lado de Nikolas, sem Flávio. Procurado, Pavanato disse ter “valores em comum e estratégias políticas parecidas” com as do deputado mineiro.

“Em relação as pessoas que ficam falando de associação, ‘nikolismo’, etc., é uma minoria que tenta sabotar o Flávio Bolsonaro, e é uma honra para mim ser associado com o Nikolas”, afirmou Pavanato, em nota.

A disputa revela uma tensão velada entre lideranças da direita. Enquanto aliados tratam Nikolas como um cabo eleitoral de grande alcance, uma ala do bolsonarismo vê no deputado uma figura que tenta construir uma trajetória própria, menos dependente do movimento que levou Jair Bolsonaro ao poder em 2018.

Flávio tentou reduzir o desgaste e reconheceu publicamente o potencial político de Nikolas. Em vídeo divulgado nesta semana, o presidenciável afirmou que o deputado pode disputar a Presidência no futuro.

“Você é uma liderança e sei que tem lideranças melhores que eu. Hoje eu sou o candidato, mas lá em 2030 ou 2031, quando acabar meu mandato, tenho certeza que vai ter alguém do nosso time para dar continuidade. Eu sei que você não gosta desse assunto, mas você tem potencial de ser presidente da República um dia”, afirmou Flávio.

Michelle Bolsonaro também tem ocupado espaço de destaque em campanhas de aliados. No Distrito Federal, Celina Leão (PP), candidata à reeleição ao governo, é apoiada pelo PL, mas, segundo interlocutores, não deve participar de atos ao lado de Flávio. Michelle, por outro lado, é uma das principais cabos eleitorais da governadora e esteve no evento de abertura de sua campanha.

A proximidade entre Celina e Michelle ganhou força durante a crise entre a ex-primeira-dama e Flávio, quando a governadora atuou para reaproximá-los. Nas redes sociais, Celina mantém registros frequentes com Michelle, mas não tem fotografia recente com o presidenciável.

Em Roraima, Kátia Araújo, candidata a deputada federal, também explora a imagem de Michelle em seus materiais. Em um vídeo, afirmou que ter o apoio da “eterna primeira-dama Michelle Bolsonaro” torna sua caminhada “ainda mais especial”. Até o momento, não há publicação recente equivalente ao lado de Flávio.

No Mato Grosso, Gislaine Yamashita, candidata a deputada federal e presidente do PL Mulher no estado, publicou em junho um vídeo de Michelle durante a crise entre a ex-primeira-dama e Flávio. Na legenda, destacou a liderança de Michelle e sua atuação junto às presidentes estaduais e municipais do PL Mulher, sem menção equivalente a Flávio em seu perfil.

Aliados do presidenciável avaliam que o menor destaque dado a Flávio pode estar relacionado ao maior potencial eleitoral de nomes como Michelle e Nikolas ou às particularidades das disputas locais. Nos bastidores, porém, a situação incomoda integrantes da campanha, que veem a união da direita como condição central para enfrentar o PT.

Outros aliados tentam minimizar o desgaste e afirmam que a ausência de Flávio em peças específicas não significa rompimento ou falta de apoio político. O deputado federal Domingos Sávio (PL-MG), candidato ao Senado, resumiu a avaliação de parte do partido: “Material solteiro, mas dentro da normalidade. Zero de traição”.

Fonte: Brasil 247 com informações do jornal O Globo por meio de reportagem

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