domingo, 23 de agosto de 2026

O que é o Partido Digital Bolsonarista e como ele pode influenciar as eleições 2026


Debate sobre a organização política do bolsonarismo nas redes sociais. Foto: Reprodução

As campanhas eleitorais começaram oficialmente no último domingo (16), mas a disputa política nas redes sociais se dá de forma permanente entre as figuras políticas e seus apoiadores. Oficialmente, o Brasil conta com 30 partidos registrados para disputar as eleições 2026. O que não consta no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) são as organizações de caráter partidário que se articulam na internet: os chamados “partidos digitais”, que vêm sendo estudados por Marcos Nobre, convidado do Pauta Pública desta semana.

Professor e pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), Nobre organizou estudo sobre o Partido Digital Bolsonarista, que analisa a estrutura e o funcionamento dessa organização política. Na entrevista com Andrea Dip, Nobre explica como essa estrutura se organiza, as principais diferenças em relação aos partidos tradicionais e como essa mobilização nas redes influenciam e alteram a forma de fazer política no país.

“O partido digital entende muito bem o partido tradicional, tanto que faz aliança com ele. O partido tradicional não entende o partido digital. Não entende como funciona”, afirma. Ele também analisa a disputa pelo futuro do bolsonarismo e o cenário para a corrida eleitoral.

Partido Digital Bolsonarista
Marcos Nobre, professor e pesquisador do Cebrap. Foto: Reprodução

 

O que é e como atua um partido digital? E o que é então o Partido Digital Bolsonarista?

Para a gente começar, a história dos partidos digitais é uma história muito recente, é uma história do século 21. […] Então, claro que para você ser um partido digital, você precisa ter o mundo digital. Junho de 2013, no Brasil, faz parte desse ciclo global de revolta. Nesse momento, o digital foi decisivo para tudo ali nas mobilizações, inclusive para tentativas de organização que se seguiram.

Por exemplo, o caso do Podemos, é um partido institucionalizado, mas é um partido que nasceu digital, partidos que a gente classifica como partidos-plataformas. O partido-plataforma mimetiza uma plataforma, por exemplo, o Facebook. Então, as pessoas podem se inscrever e participar. Eles tendem a ser partidos que se institucionalizam, ou seja, que se tornam oficiais, registrados. Já o partido digital não necessariamente busca a institucionalização.

O Partido Digital Bolsonarista, especialmente, é um partido que não tem a intenção de se institucionalizar porque tem muitas vantagens em não se institucionalizar no Brasil. Você não tem que prestar conta para o TSE, você não está sob escrutínio de órgãos de controle. Enfim, tudo que um partido normal, tradicional, tem que fazer.

E, ao mesmo tempo, você tem muitos partidos que você pode hackear, para usar a expressão do mundo digital. Então, é claro, o Partido Digital Bolsonarista tem um partido, um aliado preferencial, que é o PL. Mas o partido digital bolsonarista tem gente em vários partidos, não só no PL.

Com isso você tem uma vantagem muito grande, porque você não tem que prestar conta para ninguém e, ao mesmo tempo, você tem um financiamento interno ao mundo digital, né? Então, assim, se um deputado bolsonarista dá um curso, isso aí é financiamento eleitoral ou não é? Ao mesmo tempo, essa mesma pessoa recebe financiamento eleitoral oficial porque ele está ligado no partido.

O que a gente está chamando aqui de Partido Digital é, então, um conjunto de ações nas redes sociais que envolvem diferentes atores em prol, por exemplo, do bolsonarismo. É disso que a gente está falando?

Sim, tem esse lado, mas eu acho que a gente deveria começar pela pergunta do que é bolsonarismo. Então, a gente tem uma definição operacional de bolsonarismo, a gente não discute o bolsonarismo como fenômeno social global, porque tem uma cultura, tem uma posição econômica, tem religião, tem tudo no meio. Não discute isso. A nossa definição operacional é: existe uma parcela muito grande do eleitorado brasileiro que se identifica como bolsonarista.

Dentro do bolsonarismo tem o que a gente chama sistema de ecossistema digital bolsonarista, no qual as trocas, as interações, as postagens, etc. Elas têm um sentido comum, ou seja, um sentido de pertencimento de alguma maneira a essa identificação bolsonarista. E dentro do ecossistema digital bolsonarista está o partido digital bolsonarista. É como se fosse, assim, uma bola grande, uma bola um pouquinho menor e uma bola menor ainda. Então, o partido digital bolsonarista, ele está organizado para liderar esse ecossistema. E a partir daí, hegemonizar todo o bolsonarismo, porque se ele consegue liderar todo esse fenômeno, ele sai com 25% dos votos.

Agora, essa liderança hegemonia não está dada, não é porque chama “bolsonarista” que o Partido Digital Bolsonarista vai ganhar, né? Tem competidores. Você pega esse partido novo, o Missão, que saiu do MBL [Movimento Brasil Livre]. Ele está no mesmo ecossistema digital bolsonarista, mas eles decidiram se institucionalizar e foram por um outro caminho, mas eles estão disputando o bolsonarismo. Então é importante a gente ter clareza de que o Partido Digital Bolsonarista é uma coisa que, não, que sua organização e seu poder não estão dados. Isso para localizar, para tentar a gente chegar aí no ponto seu que é: bom, no final das contas, por que que é um partido?

Bom, a primeira coisa é que um partido quer chegar ao poder. Você quer o poder, por isso que se organiza um partido. Ele pode ser chamado de partido porque, diferentemente de movimentos, para chegar ao poder, você precisa ter unidade de ação, unidade programática e uma estratégia, uma tática comuns. Elas não são estabelecidas previamente, como em vários partidos. É uma construção isso: o programa do partido, a estratégia, etc.

Então, essa construção que é o Partido Digital Bolsonarista é diferente de um movimento; porque um movimento sempre tem uma pauta específica. Então, você diz, sei lá, tem o movimento pra moradia, você tem o movimento pela reforma agrária, você tem um movimento feminista, como você tem movimentos conservadores também, de outros tipos tal. Esses movimentos, eles têm uma pauta, eles têm uma causa, né?

Um partido é mais complicado porque um partido tem que conciliar pessoas, que têm causas diferentes ou que têm opções de valores diferentes. Então, um partido é capaz de fazer isso, né? Ele é capaz de reunir pessoas que têm posições absolutamente inconciliáveis sobre certos temas.

Então, um exemplo que a gente dá é: você tem no partido de tal bolsonarista, você tem pessoas evangélicas, que são, na sua grande maioria, contra armamentos, e grupos armamentistas, que querem que todo mundo se arme. Então, veja, como é que você junta isso tudo? E como é que essas pessoas estão na mesma rua, na mesma manifestação?

Então, não é exatamente um movimento, é um partido. Essa é uma característica de partido – a gente tenta demonstrar todas as outras, ou seja, que ele tem uma hierarquia, que ele tem programa, né? Mas, enfim, se a gente fosse chegar no nosso tema, seria esse o caminho que eu tomaria.

A partir de tudo isso que a gente conversou aqui e que você traz no livro, como você tá vendo as eleições deste ano?

Evidentemente, será uma eleição apertada, vai ser decidida na margem, isso é a coisa que é de base para a gente começar a conversar. A outra coisa é que você teve uma transição, uma mudança de ordem na maneira de funcionar a política no Brasil, que ainda não encontrou uma forma nova, né? Uma nova ordem…

Você tinha antes o que se chamava de presidencialismo de coalizão, que eu chamo de PMDBismo. Você tinha um desequilíbrio entre o executivo e o legislativo, né? E que o executivo tinha mais recursos, portanto, podia oferecer aos partidos, a deputados, senadores, etc., recursos para entrar na sua coalizão. Essa situação, nos últimos dez anos, não tem mais esse desnível. É um desnível muito pequeno. Então, com isso, você tem uma divisão de poder, você não tem mais a concentração executiva, mas continua sendo um regime presidencialista.

Então, você tem até alguma coisa que não é nem o que era o presidencialismo de coalizão, e nem algo como parlamentarismo. E dizer que isso é semi-parlamentarismo é chacota. Fala sério. E aí, por exemplo, no caso do governo Lula, você tinha uma maneira de contornar essa oposição, que ele encontrou no legislativo, muito forte, porque o Lula lidera um governo de minoria, recorrendo ao STF.

O STF era uma maneira de você tentar desequilibrar um pouco a favor do Executivo ou, pelo menos, impedir que o Legislativo avançasse demais no Executivo. Se as projeções estão certas e se o bolsonarismo consegue, e a direita aliada do bolsonarismo consegue, uma maioria expressiva no Senado, isso também está mais dado. Então, isso complica muito do ponto de vista de uma eventual reeleição do Lula. Vai ser ainda mais difícil do que foi o governo dele, que já foi muito difícil.

A outra coisa que é o assunto da nossa conversa, né? Como é que você vai lidar com um partido digital? Porque é um desequilíbrio muito grande. Você poder jogar nos dois campos ao mesmo tempo é um desequilíbrio muito grande. Uma vantagem competitiva muito grande. Claro que o governo Lula tem a vantagem, de quê? De estar no governo. A gente sabe que, em geral, é uma vantagem muito grande e competitiva. Mas, justamente, o Partido Digital consegue competir porque consegue anular, em parte, essa vantagem. Então, por isso, vai ser uma eleição muito parelha. E qualquer coisa pode decidir para um lado ou pode decidir para o outro.

Originalmente publicado no site A Pública

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