sábado, 15 de agosto de 2026

Lula avisa que não aceitará interferência dos EUA: “Quem vier dar palpite na eleição deste país vai perder”

 Presidente defende a soberania nacional, rebate narrativas e sobretaxas norte-americanas e afirma que tratará “olho no olho” com Donald Trump: “Não se meta nos negócios do Brasil e sobretudo na eleição”

Lula e Déia Freitas  -  Crédito: Ricardo Stuckert

Em uma longa e abrangente entrevista concedida ao podcast cearense As Cunhãs, com a participação especial da comunicadora Déia Freitas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou um recado direto e contundente a Washington. Ao abordar as recentes tensões diplomáticas e a postura de setores conservadores dos Estados Unidos em relação à política interna brasileira, Lula afirmou categoricamente que o Brasil não aceitará qualquer tipo de tutela ou intervenção em seus processos democráticos.

“Quem vier dar palpite na eleição aqui desse país vai perder, porque esse país não abre mão [da sua soberania], apesar dos negacionistas e dos traidores da pátria”, declarou o presidente.


⦾ “Vou vencer os Estados Unidos pela narrativa e pela verdade”

Questionado sobre as pressões geopolíticas e as movimentações de parlamentares e autoridades norte-americanas alinhadas à extrema direita, Lula frisou que o Brasil conduz suas relações exteriores pautado pelo princípio da reciprocidade e pelo respeito mútuo, sem se curvar a intimidações.

Eu aprendi uma coisa de berço que norteia a minha vida: respeito é bom, eu gosto de dar e gosto de receber. Eu não trato ninguém com desdém, não sou melhor do que ninguém, mas também não sou pior. Eu não tenho os aviões de guerra dos Estados Unidos, não tenho porta-aviões, não tenho bomba atômica. O que é que eu tenho? A verdade, a minha consciência e a verdade do meu povo. Com mentiras, ninguém ganha do Brasil. Eu vou vencer os Estados Unidos pela narrativa”, enfatizou.


O presidente denunciou as justificativas fabricadas para impor barreiras e sobretaxas comerciais aos produtos brasileiros, desmontando o argumento de supostos desequilíbrios na balança:

Eles taxaram o Brasil com base em mentiras. Disseram que taxariam o Brasil por causa de déficit comercial: é mentira, mentiram para você. Nos últimos 15 anos, os americanos tiveram um superávit comercial de 415 bilhões de dólares conosco. Inventam acusações sobre desmatamento quando fomos ao Inpe mostrar que tivemos o menor desmatamento da história recente do país nesses dois anos e meio.”

⦾ Relação com Trump: “Olho no olho” e limites claros

Lula revelou que está articulando um contato direto com o presidente dos EUA, Donald Trump, para delimitar com firmeza a linha que separa a diplomacia de Estado de qualquer tentativa de ingerência eleitoral.

O Trump tem me tratado de forma muito respeitosa, e eu o trato com muito respeito. Quando me encontrei com o Trump, eu disse: ‘Nós somos dois chefes de Estado, governamos as duas maiores democracias do nosso hemisfério. A gente tem que passar a ideia de seriedade, olho no olho’. Mas eu quero uma conversa tete-a-tete para dizer com clareza: não se meta nos negócios do Brasil e sobretudo na questão da eleição”, afirmou Lula.

O presidente criticou ainda manobras protelatórias e tentativas de pressão diplomática por parte do Departamento de Estado americano, ressaltando que o Brasil barrou a entrada de agentes que pretendiam atuar sem autorização no território nacional e não aceitará imposições de calendário para acordos ou indicações embaixatoriais na véspera do pleito.

⦾ Soberania sobre terras raras e riquezas estratégicas

Para Lula, a defesa da soberania nacional ultrapassa o campo político-eleitoral e abrange o controle e a industrialização dos recursos naturais estratégicos do país, essenciais para a transição energética e tecnológica global.

A questão da soberania e da defesa nacional tem que estar no topo. O mundo está tenso, e o Brasil detém minerais críticos, terras raras, a maior reserva florestal do planeta, 12% da água doce do mundo e 216 milhões de hectares de áreas preservadas. Nós temos 8.800 quilômetros de fronteira marítima e 16.800 quilômetros de fronteira seca. É tudo nosso. Nós não queremos apenas extrair terras raras para exportar matéria-prima bruta: queremos transformar aqui, agregar valor dentro do Brasil e gerar riqueza para o nosso povo”, sustentou.



Educação, combate à fome e segurança pública

Ao longo de quase duas horas de conversa, o presidente também detalhou as prioridades estruturais do governo e os fundamentos para um projeto de continuidade e desenvolvimento a partir de 2026:

      Educação e Ciência: Defendeu a universalização do ensino em tempo integral como pilar definitivo contra a desigualdade e anunciou a meta de reeditar programas de intercâmbio de ponta com foco estratégico em inteligência artificial, engenharia e matemática.

        Segurança e Crime Organizado: Explicou que a PEC da Segurança Pública, em tramitação no Congresso Nacional, é fundamental para estabelecer o papel constitucional da União na coordenação do combate às facções financeiras (“o crime do andar de cima”) e abrir caminho para o Ministério da Segurança Pública.

        Proteção às Mulheres: Destacou o pacote de leis e ações do Pacto Contra o Feminicídio e reafirmou seu posicionamento contra agressores: “Homem que bate em mulher não precisa votar em mim”.

     Defesa Popular contra as Bets: Manifestou forte contrariedade à proliferação desenfreada dos sites de apostas que dilapidam a renda das famílias trabalhadoras, defendendo um cerco rigoroso e restrições severas ao setor.

Ao encerrar, Lula reforçou que o objetivo central de sua trajetória e de sua liderança permanece o mesmo: garantir que as classes populares tenham pleno acesso à cidadania, à dignidade e à renda em um país soberano e altivo.

Fonte: Brasil 247

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