Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que o país contabilizou 231 casos por dia. Estupro de vulnerável atingiu mais de 64 mil crianças e adolescentes
O Brasil registrou 84.388 casos de estupro e estupro de vulnerável em 2025, o que representa uma média de 231 ocorrências por dia, ou um registro policial a cada seis minutos aproximadamente. Os dados fazem parte do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23), e apontam uma queda de 5,4% na comparação com os 88.843 casos contabilizados no ano anterior. A retração interrompe uma sequência contínua de crescimento observada desde a pandemia de Covid-19, embora especialistas alertem que o resultado não signifique, necessariamente, uma redução real da violência sexual no país, informa reportagem da Folha de São Paulo com base em dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
A taxa nacional ficou em 39,5 registros de estupro e estupro de vulnerável para cada grupo de 100 mil habitantes. Ao analisar recortes específicos, a incidência sobre a população feminina salta para 67,7 casos por 100 mil mulheres. O relatório ressalta que as estatísticas policiais medem simultaneamente duas dimensões: a incidência real da violência e a capacidade do Estado e da sociedade de detectar e registrar os crimes.
Como a subnotificação é historicamente alta nesses episódios — com estimativas indicando que a polícia capta apenas cerca de 10% do total de ocorrências —, a queda nos boletins de ocorrência pode sinalizar um desestímulo às denúncias formais, e não a diminuição dos ataques.
“Se a gente lidava com um crescimento desde 2015, e isso podia ser lido como um sinal da redução da subnotificação, o que a gente vê agora pode indicar um movimento no sentido oposto. Não que a gente esteja lidando com menos violência, mas sim com menos denúncia”, avalia Juliana Brandão, coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
A hipótese de subnotificação policial ganha força ao confrontar os dados da segurança com os do sistema público de saúde. No mesmo período em que os boletins de ocorrência recuaram 5,4%, as notificações de estupro registradas nos serviços de saúde subiram 2,4%. Embora os dois indicadores não permitam estabelecer uma relação causal direta, o descompasso sugere uma mudança no comportamento das vítimas, que têm buscado acolhimento e atendimento médico sem obrigatoriamente formalizar a queixa na polícia.
“Ainda é preciso considerar que essa redução dos registros policiais pode estar relacionada a mudanças na organização e mesmo à disponibilidade dos serviços de atendimento e de denúncia”, completa Brandão.
⦾ Crianças e adolescentes são as principais vítimas
As estatísticas revelam que a grande maioria das ocorrências envolve vítimas vulneráveis. Em 2025, 76,6% do total de casos corresponderam ao crime de estupro de vulnerável — categoria que abrange menores de 14 anos e pessoas incapazes de oferecer consentimento por doença ou deficiência —, somando 64.990 registros.
O impacto dessa violência sobre crianças e adolescentes é ilustrado por episódios recentes ocorridos no estado de São Paulo. Em abril, dois meninos de 7 e 10 anos foram vítimas de um estupro coletivo na zona leste da capital paulista após serem atraídos por suspeitos sob o pretexto de soltar pipa em São Miguel Paulista; o crime só foi descoberto após a circulação de imagens nas redes sociais. Em outro caso, registrado em fevereiro, uma jovem de 14 anos com deficiência intelectual foi violentada por ao menos 12 adolescentes, fato que chegou ao conhecimento da família meses depois, quando a mãe identificou a filha em vídeos compartilhados na internet e acionou a Delegacia da Mulher.
O recorte de gênero mostra que meninas e mulheres continuam sendo o alvo esmagador desse tipo de crime, representando 93% das vítimas totais em 2025, enquanto homens e meninos responderam por 6,7%. No segmento de estupro de vulnerável, as meninas de até 14 anos somaram 85,6% das ocorrências.
“Essa disparidade vem também muito em função da própria natureza do crime de estupro, que é muito fortemente associado ao controle dos corpos femininos e à dominação sexual das mulheres”, analisa a coordenadora do Fórum.
Em relação ao perfil racial, a população negra concentrou 57% dos registros em 2025. O estudo ressalta, contudo, que a análise exige cautela, uma vez que a informação de raça e cor foi omitida ou não preenchida em 31,8% dos boletins de ocorrência analisados.
Paralelamente à queda nos registros gerais de estupro, outras modalidades de crimes sexuais contra a infância apresentaram forte alta no ano. Os casos de produção e posse de material de abuso sexual infantil cresceram 25,3%, os de exploração sexual subiram 14,3% e os registros de aliciamento de crianças tiveram aumento de 12,4%.
⦾ Disparidades regionais e a situação na Amazônia Legal
A queda no número de estupros foi verificada em 21 das 27 Unidades da Federação. Apenas seis estados registraram aumento nos casos: Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, Pará, Amazonas, Paraíba e Maranhão — este último com o maior crescimento do país, atingindo 19,5%. As maiores quedas em números absolutos foram computadas nos três estados da Região Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), cujo desempenho influenciou decisivamente a média nacional.
Apesar da retração geral, a distribuição geográfica indica forte concentração das maiores taxas de violência na Amazônia Legal. Dos oito estados com os maiores índices por habitante do país, sete pertencem à região: Roraima, Rondônia, Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso e Tocantins. A única exceção fora do bloco amazônico entre os oito primeiros é Mato Grosso do Sul.
No lado oposto do ranking, o Ceará apresentou a menor taxa de registros de estupro do país, seguido por Minas Gerais e Pernambuco. Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, taxas extremamente baixas em determinados locais não indicam necessariamente ausência de crime, mas possíveis gargalos no acesso à justiça.
“Nos estados que apresentaram as taxas mais baixas, a gente precisa considerar que os baixos níveis de registro podem ser um reflexo de maiores barreiras para denúncia, menor acesso ao serviço de atendimento ou mesmo menor confiança nas instituições que respondem pelo acolhimento das vítimas”, pontua Juliana Brandão.
A especialista conclui que a reversão efetiva desse cenário exige respostas estatais estruturadas e integradas. “Precisamos pensar num quadro de uma abertura institucional para o reconhecimento dessa modalidade de violência. Isso passa também pelo reconhecimento da gravidade da violência sexual e por uma resposta institucional que seja rápida e também confiável”, arremata.
Fonte: Brasil 247 com informações da Folha de S. Paulo
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