quarta-feira, 22 de julho de 2026

Marcos Coimbra: “É perfeitamente possível Lula vencer a eleição no primeiro turno”

Cientista político avalia que fragilidade de Flávio Bolsonaro, melhora das condições sociais e força política do presidente favorecem uma definição antecipada da disputa

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Crédito: Ricardo Stuckert

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reúne condições concretas para conquistar a reeleição ainda no primeiro turno, segundo avaliação do cientista político Marcos Coimbra. Para ele, a combinação entre a força eleitoral do atual chefe do Executivo e a fragilidade do principal nome da oposição pode produzir um resultado inédito na trajetória presidencial do petista.

A análise foi apresentada em entrevista à TV 247, durante a qual Coimbra examinou o cenário eleitoral, os limites das pesquisas de opinião, o comportamento dos eleitores menos politizados e as disputas estaduais em Minas Gerais e São Paulo.

“É perfeitamente possível que Lula vença a eleição no primeiro turno”, afirmou o cientista político. Na avaliação dele, essa hipótese não surgiu recentemente, mas esteve colocada desde o momento em que se tornou evidente que o candidato apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro seria um integrante de sua própria família.

Coimbra argumentou que Bolsonaro não dispunha de nomes competitivos ou suficientemente qualificados para liderar o campo da direita. Com a escolha do senador Flávio Bolsonaro, segundo ele, as dificuldades da oposição ficaram ainda mais evidentes.

“Todo mundo sabia que o candidato do Bolsonaro seria alguém da família, por razões que todo mundo conhece, assim como todo mundo sabia que ele não tinha uma escolha melhor”, declarou.

Na leitura do cientista político, Lula deverá enfrentar em 2026 o adversário mais frágil de toda a sua trajetória eleitoral. Ele citou como problemas da candidatura de Flávio Bolsonaro a falta de experiência administrativa, a ausência de um projeto nacional e a dificuldade de estabelecer vínculos próprios com amplos setores da sociedade.

“Por piores que tenham sido os adversários de Lula, todos foram melhores que esse lastimável filho mais velho do Bolsonaro”, disse Coimbra.

O pesquisador também mencionou as suspeitas relacionadas ao Banco Master, ao banqueiro Daniel Vorcaro e ao Banco de Brasília como fatores capazes de ampliar o desgaste político do senador. Para Coimbra, esses episódios reforçam a percepção de que o candidato da oposição chega à campanha vulnerável em diferentes frentes.

“Pilantragem, falta de currículo, incapacidade radical de pensar algum projeto, proposta ou programa para o Brasil e ausência completa de vínculos próprios com a opinião pública são alguns dos defeitos de Flávio Bolsonaro”, afirmou.

Diante desse quadro, Coimbra acredita que o cenário favorável a Lula resulta tanto das condições do governo quanto das limitações do adversário. O presidente, segundo ele, demonstra disposição para enfrentar problemas econômicos e sociais, ampliar alianças e apresentar resultados concretos à população.

“Pelo lado do presidente da República e pelo lado do melhor nome que a oposição conseguiu apresentar, o cenário de Lula ganhar no primeiro turno sempre existiu. Nós estamos caminhando e é perfeitamente possível que isso se concretize”, afirmou.

Apesar do otimismo, o cientista político fez ressalvas sobre o uso das pesquisas eleitorais como instrumentos de previsão. Coimbra criticou a atenção excessiva dedicada a pequenas variações percentuais dentro da margem de erro e afirmou que conceitos como “oscilação para cima” ou “oscilação para baixo” são frequentemente empregados de maneira equivocada.

Para ele, as pesquisas enfrentam dificuldades crescentes não apenas no Brasil, mas também em outros países. Mudanças no comportamento social, dificuldades para formar amostras representativas e transformações nos meios de comunicação tornaram o ambiente mais complexo para os institutos.

“Pesquisa é uma atividade com limitações amplamente conhecidas. Estamos vivendo no mundo inteiro, e em especial no Brasil, um período muito complicado para as pesquisas”, observou.

Coimbra acrescentou que resultados situados dentro da margem de erro não autorizam conclusões categóricas sobre crescimento ou queda de um candidato.

“Ficamos discutindo bobagens sobre flutuações. Essa história de oscilação para cima, oscilação para baixo ou oscilação para o lado não existe”, criticou.

Ao tratar da eventual participação de Lula nos debates eleitorais, o cientista político afirmou que a decisão deve ser tomada apenas na reta final da campanha, com base no cenário concreto existente entre o fim de setembro e o início de outubro.

Segundo ele, não faria sentido o presidente antecipar agora se comparecerá ou não aos encontros promovidos por emissoras de televisão. Uma vantagem confortável sobre a soma dos adversários poderia oferecer liberdade para Lula avaliar os riscos e benefícios de cada debate.

“É uma decisão que só pode ser tomada pelo presidente mais perto do momento. Não tem nenhum sentido dizer em julho que não irá a um debate marcado para outubro”, afirmou.

Coimbra observou que, caso Lula chegue ao fim de setembro com uma diferença de cinco ou dez pontos sobre o conjunto dos adversários, poderá decidir sem a pressão de enfrentar candidatos próximos da derrota. A mesma vantagem, entretanto, também poderia ser usada como argumento para evitar uma exposição desnecessária.

“Não é um tema para agora. É um tema para ser decidido no cenário concreto e objetivo que teremos no final de setembro e no início de outubro”, declarou.

Questionado sobre a permanência de uma parcela expressiva do eleitorado bolsonarista, mesmo diante dos problemas políticos e jurídicos envolvendo a família do ex-presidente, Coimbra afirmou que é necessário considerar o impacto de uma década de ataques contra Lula.

O cientista político lembrou que o presidente foi submetido a uma longa campanha de desgaste, marcada por acusações, cobertura negativa dos grandes meios de comunicação, processos judiciais e sua prisão durante a Operação Lava Jato.

“Durante dez anos, Lula foi alvo de uma campanha incessante de desconstrução, desmoralização e transformação de sua imagem”, afirmou.

Na avaliação de Coimbra, seria impossível que esse processo não deixasse marcas na percepção de parte da sociedade. Ainda assim, ele considera que a sobrevivência política de Lula demonstra a força da relação construída pelo presidente com o eleitorado.

“A prova da força política de Lula é ele estar vivo depois de tudo isso. A imagem dele resistiu, embora tenha sofrido”, disse.

Coimbra classificou a ofensiva contra Lula como uma das campanhas políticas mais agressivas já realizadas no Brasil. Ele mencionou levantamentos sobre o tempo dedicado pelos telejornais a denúncias contra o petista durante o auge da Lava Jato.

“A luta política mais suja que tivemos em nossa história foi esse combate ao PT, mas fundamentalmente a Lula. Dificilmente existe no mundo uma liderança que resistiria a tudo o que ele passou”, declarou.

O cientista político também rejeitou previsões de que uma eventual vitória de Lula em 2026 abriria automaticamente o caminho para uma candidatura presidencial do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, em 2030.

Para Coimbra, um novo mandato permitiria ao presidente reorganizar sua base política e trabalhar na construção de uma candidatura sucessória mais competitiva do que qualquer nome apresentado atualmente pela direita.

“Nós não estamos discutindo apenas a provável reeleição de Lula. Estamos discutindo também quatro anos que serão dedicados à preparação de uma candidatura que possa sucedê-lo em 2030”, afirmou.

Ele avaliou que o campo progressista poderia utilizar o próximo mandato para renovar lideranças, fortalecer partidos aliados e apresentar ao país um projeto capaz de prolongar o atual ciclo político.

“Lula não só tem uma chance elevada de se reeleger neste ano, como poderá preparar, nos quatro anos seguintes, o apoio a uma candidatura que leve a vida política brasileira para outro patamar”, disse.

Ao analisar Minas Gerais, Coimbra demonstrou confiança na candidatura de Patrus Ananias. O cientista político recordou a trajetória do ex-ministro, que já foi prefeito de Belo Horizonte, deputado federal e titular de pastas nos governos petistas.

“Patrus é um homem de bem, preparado e com excelente experiência administrativa. É uma escolha muito boa para o PT e para a campanha do presidente Lula”, declarou.

Coimbra acredita que o candidato poderá voltar a surpreender, como já ocorreu em disputas anteriores. Ele ressaltou, contudo, que o contexto atual é diferente e que nenhuma vitória deve ser considerada antecipadamente.

A avaliação sobre São Paulo também foi otimista. Para o cientista político, o longo período de domínio da direita sobre o governo estadual pode estar próximo do fim.

Ele afirmou que a chapa formada pelo PT, com Fernando Haddad como candidato ao governo e duas mulheres concorrendo ao Senado, pode criar um ambiente favorável para uma revisão crítica das gestões bolsonaristas no estado.

“Eu acredito sinceramente que esse tempo pode ter chegado ao fim”, disse Coimbra.

O pesquisador destacou que a campanha deverá questionar os resultados administrativos do governador Tarcísio de Freitas, especialmente sua política de privatizações. Para ele, a venda da Sabesp deverá ocupar um espaço importante no debate eleitoral paulista.

Coimbra afirmou que a disputa pode permitir uma avaliação mais detalhada do que os governos identificados com o bolsonarismo entregaram à população tanto na capital quanto no estado.

“Essa chapa pode trazer um ambiente muito favorável para que seja rediscutido o que, de fato, esses bolsonaristas trouxeram para a prefeitura e para o governo estadual”, declarou.

Ao examinar o comportamento dos eleitores, Coimbra afirmou que os escândalos políticos, isoladamente, nem sempre são decisivos para a maioria da população. Segundo ele, o eleitorado de baixa informação e pouco interesse pela política costuma tomar decisões com base em questões relacionadas à vida cotidiana.

“Sou muito descrente na influência do noticiário estritamente político sobre o eleitorado de baixa ou nenhuma politização”, afirmou.

Para o cientista político, os grupos mais informados costumam definir o voto com antecedência e apresentam menor propensão a mudar de posição. Já o eleitor menos envolvido com a política tende a avaliar qual candidato oferece maior possibilidade de melhorar suas condições materiais.

“O principal motivo é o sentimento de que, com determinado candidato, é possível que a vida melhore”, explicou.

Coimbra citou a ampliação dos gastos sociais durante o último ano do governo Bolsonaro como um dos fatores que permitiram ao ex-presidente reduzir a diferença para Lula na eleição de 2022. Programas e benefícios ampliados durante a pandemia e na reta final do mandato contribuíram, segundo ele, para melhorar a percepção econômica de setores da população.

“Bolsonaro chegou aonde chegou na eleição passada não apenas por razões ideológicas. Parte do eleitorado acreditava que aquele governo havia trazido melhoras e poderia continuar trazendo”, disse.

Na avaliação do cientista político, a situação agora é diferente. O governo Lula chega ao período eleitoral com políticas de transferência de renda, valorização do salário mínimo e resultados sociais que podem favorecer o presidente justamente entre os eleitores que decidem o voto a partir da percepção sobre o próprio cotidiano.

“Hoje, aquilo que deu força a Bolsonaro na reta final de 2022 é favorável a Lula”, afirmou.

Coimbra acredita, por isso, que a campanha de 2026 poderá ser menos angustiante para o campo governista do que a disputa anterior. Em 2022, Bolsonaro utilizou a máquina pública e uma expansão excepcional dos gastos sociais para se aproximar de Lula nas semanas finais.

Agora, segundo ele, o presidente é quem possui maiores condições de crescimento durante a campanha.

“Nós vamos ter um período menos preocupante na reta final do que tivemos em 2022”, declarou.

Para o cientista político, a oposição enfrenta dificuldades para ampliar sua votação além do núcleo bolsonarista, enquanto Lula dispõe de instrumentos políticos e administrativos para dialogar com os eleitores indecisos.

“A surpresa seria Lula não crescer na reta final”, concluiu Coimbra.

Fonte: Brasil 247

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