sábado, 25 de julho de 2026

Apoio de Milei a Flávio Bolsonaro pode beneficiar Lula, aponta La Nación

Viagem do presidente argentino ao Brasil mobiliza bolsonarismo e gera alerta e reação no Planalto

Flávio Bolsonaro e Javier Milei
Crédito: Reprodução/YT

Pela segunda vez desde que assumiu a presidência da Argentina, Javier Milei viajou ao Brasil para cumprir uma agenda estritamente ideológica e sem qualquer tipo de contato oficial com o governo Lula (PT), informa o La Nación. O argentino desembarcou em São Paulo para uma permanência de menos de 24 horas no país, onde atua como a principal atração internacional da Convenção Nacional do PL. O evento partidário oficializa a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Milei também planejava realizar uma visita a Jair Bolsonaro (PL) – condenado e preso por tentativa de golpe de Estado -, mas o encontro foi impedido pela Justiça.

Apesar da ausência de agendas bilaterais entre os dois chefes de Estado, assessores do Palácio do Planalto monitoram atentamente cada passo da passagem do argentino por solo brasileiro. A avaliação em Brasília é de que o apoio de Milei à família Bolsonaro já se tornou um fato naturalizado, mas existem linhas vermelhas bem delimitadas pelo governo brasileiro que não podem ser cruzadas sem deflagrar uma resposta diplomática e política imediata.

O governo adota uma postura de cautela e observação estratégica. “Quando vemos um adversário [referindo-se a Milei] fazendo bobagens, observamos. Há um delicado equilíbrio entre ficar em modo observação e reagir, pensando na nossa base. Dependerá de Milei”, afirmou um interlocutor do governo Lula.

⦾ As linhas vermelhas de Brasília e o plano de reação

As restrições estabelecidas por Brasília a eventuais excessos de Milei envolvem principalmente dois pontos centrais: ataques pessoais diretos ao presidente Lula e questionamentos às urnas ou ao sistema eleitoral brasileiro. A preocupação do Planalto ocorre porque Flávio Bolsonaro tem adotado tática semelhante à de seu pai, que em 2022 criticou o sistema de votação do país diante de embaixadores estrangeiros — atitude que culminou em sua condenação e inelegibilidade.

Caso Milei decida extrapolar os limites diplomáticos durante seu discurso no palco do PL, o governo brasileiro já articulou temas para um contra-ataque público imediato. Entre os pontos mapeados por fontes governamentais estão os escândalos de corrupção registrados na gestão argentina, o crescimento acentuado dos índices de pobreza no país vizinho e a submissão da política externa de Milei aos Estados Unidos sob o comando de Donald Trump.

Lula tem obtido dividendos políticos significativos em embates com lideranças e governos estrangeiros. Desde meados de 2025, quando os Estados Unidos aplicaram uma forte elevação tarifária sobre produtos brasileiros — medida que teve novos desdobramentos com a entrada em vigor de uma sobretaxa adicional de 25% —, o presidente brasileiro levantou a bandeira da defesa da soberania nacional, obtendo ganhos de popularidade nas pesquisas de opinião.

Em contrapartida, Flávio Bolsonaro enfrenta desgaste político por seu alinhamento automático à Casa Branca. O lobby realizado pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro em Washington é visto como um fator de alto custo para a campanha de seu irmão, sendo capitalizado pela estratégia eleitoral de Lula.

⦾ Entusiasmo na bolha e atração no palco do PL

Para os organizadores da convenção do PL, a presença de Milei é tratada com euforia e vista como um acontecimento de grande impacto motivacional. Entre interlocutores do bolsonarismo, o presidente argentino é adjetivado como um ícone da “onda azul” de direita na América Latina — citando também a ascensão de candidatos como Abelardo De la Espriella na Colômbia — e apelidado por correligionários como o “Mick Jagger da direita”.

“A presença dele soma muitíssimo. Muita gente está falando sobre isso, perguntando. Milei é uma grande figura. Nunca tivemos um presidente estrangeiro em uma convenção partidária. Para nós é uma honra, um privilégio enorme”, declarou uma das fontes ligadas à campanha do candidato do PL.

Integrantes do evento chegaram a sinalizar que Milei poderia levar ao palco símbolos marcantes de sua campanha, como a motosserra. Embora exista um roteiro prévio elaborado em colaboração com assessores do presidente argentino, aliados em São Paulo admitiram que a participação de Milei terá margem aberta para improvisações. Além do ato partidário, Milei cumpre agenda na capital paulista com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

⦾ Crise interna no bolsonarismo e limites do impacto eleitoral

A busca pelo respaldo de Milei ocorre em um momento delicado para a candidatura de Flávio Bolsonaro. Nas últimas semanas, a campanha do senador foi balançada por conflitos internos e ataques públicos vindos de sua própria família, incluindo críticas da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, além de dificuldades para fechar alianças com partidos do centrão.

O senador também acumulou recusas expressivas dentro do próprio campo da direita, como a da ex-ministra da Agricultura e senadora Tereza Cristina (PP), que declinou do convite para compor a chapa como vice-presidente por priorizar a disputa pela presidência do Senado em 2027.

Fonte: Brasil 247

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