A reação contrária à proposta de Infantino de vender uma participação nos direitos comerciais da Copa do Mundo levantou dúvidas sobre seu capital político à frente da FIFA
(Reuters) – A UEFA afirmou neste sábado (1) que perdeu a confiança no presidente da FIFA, Gianni Infantino, depois que a entidade máxima do futebol mundial abandonou os planos de vender uma participação nos direitos comerciais da Copa do Mundo.
A proposta da FIFA havia provocado uma forte reação contrária das confederações regionais, que disseram ter sido pegas de surpresa pelos planos de Infantino de arrecadar até US$ 4,2 bilhões com a venda de cerca de 20% de participação a investidores privados em uma nova unidade que administraria eventos da FIFA, incluindo a Copa do Mundo.
A rápida reversão do plano expôs o crescente desconforto no futebol mundial em relação ao estilo de liderança de Infantino, com dirigentes cobrando maior supervisão sobre decisões que poderiam alterar a governança e o futuro comercial do esporte.
A UEFA, cujos 55 membros rejeitaram por unanimidade a proposta no início desta semana, classificou a desistência da FIFA como uma “vitória para todo o futebol”, mas afirmou que a “tarefa de reconstruir a confiança na FIFA” apenas começou.
“A atual liderança da FIFA não perdeu apenas a confiança da UEFA, mas também a de muitos outros membros da família do futebol”, afirmou a entidade em comunicado.
“A UEFA agradece a todos os torcedores, ligas, clubes, jogadores, indivíduos, associações e confederações que se opuseram ao projeto, assim como aos muitos primeiros-ministros, chefes de Estado e comentaristas que demonstraram ao presidente da FIFA que o futebol não está à venda”, acrescentou.
“Não podemos continuar assim, com planos secretos em prazos acelerados, elaborados por indivíduos sem rosto e de benefício duvidoso para o futebol. Precisamos identificar os responsáveis e responsabilizá-los”.
⦿ “Acordo obscuro, de bastidores e sem transparência”
A reação contrária levantou dúvidas sobre o capital político de Infantino enquanto ele se prepara para buscar mais um mandato à frente da FIFA.
A UEFA lembrou ao dirigente as promessas feitas quando foi eleito presidente da FIFA, em 2016, nas quais se comprometeu a trabalhar com transparência e afirmou que o dinheiro da entidade pertencia às associações nacionais.
“Em ambas as promessas, ele não cumpriu. O acordo obscuro, de bastidores e sem transparência que ele arquitetou e tentou impor foi tudo, menos transparente”, afirmou a UEFA.
“E, com reservas superiores a US$ 5 bilhões, ele também não conseguiu utilizar o dinheiro das associações em benefício do futebol”.
A UEFA afirmou que iniciará imediatamente um trabalho com parceiros e partes interessadas de todo o mundo para propor uma nova forma de distribuição de recursos por meio do programa FIFA Forward, já existente.
A FIFA e Infantino não comentaram a declaração da UEFA.
O plano de Infantino, anunciado na terça-feira, rapidamente enfrentou forte oposição das confederações regionais, que reclamaram não terem sido consultadas sobre uma medida que poderia alterar a estrutura comercial do futebol mundial.
Após a reação negativa, Infantino afirmou que a FIFA abandonou os planos depois de ouvir “cuidadosamente todas as opiniões”.
O presidente da Confederação Asiática de Futebol, xeque Salman bin Ebrahim Al-Khalifa, saudou neste sábado a decisão da FIFA de recuar.
O dirigente do Bahrein afirmou esperar que “qualquer iniciativa com potencial para impactar o futebol mundial seja apresentada e discutida com as confederações, o Conselho da FIFA, as associações-membro e outras partes interessadas de maneira oportuna, transparente e significativa”.
“O futuro do futebol mundial deve sempre ser moldado por meio de consultas adequadas, diálogo coletivo e respeito às estruturas de governança estabelecidas do nosso esporte”.
O presidente da Football Australia, Anter Isaac, seguiu linha semelhante, defendendo inovação, mas alertando contra o abandono de princípios fundamentais de governança.
“O futebol nunca ficou parado, nem deve ficar”, afirmou Isaac.
“Alguns princípios, no entanto, nunca devem mudar: integridade. Independência. Boa governança. Transparência. Consulta significativa. Processo adequado”.
“Esses princípios não são limitações ao progresso. Eles são o que torna possível um progresso duradouro”.
⦿ Especialistas dizem que reeleição de Infantino foi prejudicada
A controvérsia ocorre em um momento delicado para Infantino, que afirmou em abril que pretende disputar um quarto mandato como presidente da FIFA.
Desde que assumiu o cargo de Sepp Blatter, em 2016, ele foi reeleito sem oposição duas vezes e parecia ter controle firme sobre a organização.
Embora sua reeleição para o mandato de 2027 a 2031 parecesse uma formalidade, especialistas ouvidos pela Reuters disseram que a reação ao fracasso da proposta revelou insatisfação entre alguns membros da FIFA e pode complicar o caminho de Infantino até o Congresso da FIFA, em março do próximo ano, no Marrocos.
“Ele obviamente tem sido bastante egocêntrico em tudo o que fez. Sei que ele irritou muitas associações-membro com algumas de suas decisões”, afirmou Bob Dorfman, analista de marketing esportivo.
“Alguns dos países escolhidos para sediar Copas do Mundo foram questionáveis. A política entrou um pouco demais nisso”.
A velocidade da mudança de cenário chamou atenção, ocorrendo menos de duas semanas depois de Infantino celebrar a Copa do Mundo de maior sucesso comercial da história.
“É difícil pensar em uma situação em que a sorte política de uma pessoa tenha mudado tão rapidamente”, afirmou o economista Victor Matheson, especialista em negócios esportivos do College of the Holy Cross, em Massachusetts.
“Há apenas duas semanas, ele estava, por assim dizer, no topo do mundo, com o evento esportivo mais bem-sucedido da história do planeta. E apenas duas semanas depois, está lutando pela própria sobrevivência política”.
Fonte: Brasil 247
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