
Em sua coluna no jornal Globo nesta segunda-feira (3), Felipe Nunes, CEO da Quaest, aponta um erro metodológico comum em análises de pesquisas eleitorais: comparar intenções de voto (percentuais sobre o total de eleitores aptos) com votos válidos (que excluem abstenções, brancos e nulos).
Após ajustar a comparação, Nunes mostra que Lula aparece acima de seu desempenho de 2022 em 8 de 10 estados pesquisados pela Quaest. No entanto, a abstenção histórica entre eleitores de Lula e o fato de a maioria dos eleitores fora do Nordeste não achar que ele mereça mais quatro anos podem ser sinais de alerta para a campanha. Leia trechos da coluna de Felipe Nunes:
Lula está melhor ou pior do que em 2022?
Na última semana, a Quaest divulgou pesquisas realizadas para a Genial Investimentos em dez estados brasileiros. Um dos destaques foi a intenção de voto para presidente em cada estado. Os resultados permitem uma comparação particularmente útil: verificar se Lula está hoje acima ou abaixo do desempenho que obteve nesses mesmos estados no segundo turno de 2022.
Boa parte das análises publicadas, porém, incorreu em um erro de denominador. Converteu as intenções de voto apuradas pela pesquisa em votos válidos e comparou esse resultado com os votos válidos da eleição passada. A operação parece intuitiva, mas confronta grandezas diferentes. […]
Os votos válidos, por sua vez, só existem depois da eleição. Seu denominador exclui os eleitores que não compareceram, os votos brancos e os votos nulos. Um candidato pode, portanto, ampliar sua participação entre os votos válidos sem receber um único voto adicional — basta que a abstenção ou os votos inválidos cresçam. O percentual sobe porque o denominador encolheu. […]

Para comparar corretamente o desempenho atual de Lula com o de 2022, é preciso dividir o número de votos que ele recebeu no segundo turno pelo total de eleitores aptos em cada estado. […] A comparação não transforma a pesquisa em previsão do resultado final. Ela apenas coloca os dois momentos na mesma unidade de medida — eleitor apto contra eleitor apto. […]
O melhor desempenho de Lula foi no Ceará. Mas para saber se Lula está acima ou abaixo do seu próprio desempenho em 2022, a comparação das intenções de voto atuais não deve ser feita contra os quase 66% de votos válidos que ele obteve, mas contra os quase 56% do total de aptos a votar que votou nele. Essa diferença vem do denominador, que ignora alienação eleitoral no primeiro caso, e a considera — como fazem as pesquisas — no segundo.
Feito esse ajuste metodológico, o quadro é claro. Lula aparece hoje acima de seu desempenho de 2022 em oito dos dez estados. […]
À primeira vista, o resultado parece sugerir enorme favoritismo de Lula. Afinal, ele consegue mais intenções de voto hoje do que teve na eleição anterior. Mas se Lula mantiver o mesmo número de votos de 2022 nos outros estados não pesquisados pela Quaest. […]
Ou seja, as intenções de voto totais podem não se revelar em votos válidos porque o eleitor de Lula tem maior propensão histórica a deixar de votar. Foi exatamente o que surpreendeu muita gente na eleição passada, quando as pesquisas registravam intenções de voto maiores do que as que Lula obteve nas urnas. Sem descontar a abstenção da intenção de voto, Lula parecia que teria um desempenho acima do que se observou. […]
É por isso que o denominador não é um detalhe técnico. Ele define a pergunta que o número é capaz de responder. Quando o denominador muda, muda também o significado do resultado. Antes de concluir quem cresceu, quem caiu ou quem venceria, é preciso garantir que estamos comparando a mesma coisa. Em pesquisa eleitoral, a precisão da análise começa pelo lugar mais básico: saber quem está dentro da conta.
Fonte: DCM
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