sexta-feira, 24 de julho de 2026

“Sem diversificação de parceiros, Brasil teria quebrado com tarifaço dos EUA”, diz Simone Tebet

Ex-ministra afirma que relações com Mercosul, BRICS, China, Índia e outros mercados reduziram a vulnerabilidade brasileira diante das tarifas impostas por Donald Trump

     Simone Tebet   (Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

A ex-ministra do Planejamento e Orçamento Simone Tebet afirmou que o Brasil poderia ter enfrentado uma crise econômica de proporções históricas caso ainda mantivesse uma dependência excessiva do mercado dos Estados Unidos. Segundo ela, a diversificação dos parceiros comerciais permitiu ao país resistir ao tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump.

Em entrevista à Sputnik Brasil, Tebet destacou a importância das relações do Brasil com países do Mercosul, do BRICS, da Ásia, da Europa e de outras regiões do Sul Global. Na avaliação da ex-ministra, essa estratégia comercial plural protegeu empregos, exportações e setores produtivos brasileiros dos efeitos mais graves das tarifas norte-americanas.

“É graças a esse pluralismo de parceiros comerciais, sem discriminação, sejam latino-americanos, como os do Mercosul, sejam europeus, sejam asiáticos, inclusive com Cingapura e Japão, e ao fato de estarmos estreitando as relações com a Índia, que o Brasil não quebrou”, afirmou.

As informações são da Sputnik Brasil.

⦿ Dependência dos Estados Unidos poderia provocar recessão histórica

Simone Tebet deixou o Ministério do Planejamento no fim de março para cumprir o prazo de desincompatibilização eleitoral e atualmente participa da pré-campanha ao Senado por São Paulo.

Segundo ela, as tarifas de 25% impostas inicialmente pelos Estados Unidos, somadas ao adicional de 12,5% anunciado por Washington, poderiam ter provocado uma recessão “talvez nunca antes vista” desde a redemocratização, caso os Estados Unidos ainda ocupassem uma posição dominante no comércio exterior brasileiro.

Tebet lembrou que, durante décadas, o mercado norte-americano foi o principal destino das exportações brasileiras. Atualmente, no entanto, os Estados Unidos representam aproximadamente 10% do comércio exterior do país.

Para a ex-ministra, essa redução relativa da dependência permitiu que o Brasil absorvesse melhor o choque provocado pelas medidas protecionistas de Trump.

⦿ Mercosul, BRICS e Ásia ampliaram alternativas

Tebet destacou que a política externa e comercial brasileira abriu diferentes caminhos para empresas e produtores nacionais.

Entre os instrumentos citados estão as Rotas de Integração Sul-Americana, projeto de infraestrutura voltado ao fortalecimento do comércio com os países vizinhos, e as negociações do Mercosul com a União Europeia.

A ex-ministra também ressaltou a relevância da China e de outros mercados asiáticos para o agronegócio e a agroindústria brasileira.

“Se não tivéssemos, especialmente no agronegócio e na agroindústria, como nossos maiores parceiros comerciais não só a China, mas a Ásia, o que seria do Brasil? O que seria dos mais pobres? O que seria dos empregos? O que seria da economia brasileira, atingindo todos os setores, com esse tarifaço do presidente Trump? O Brasil quebraria”, declarou.

Segundo Tebet, a aproximação com Índia, Japão, Cingapura e demais integrantes do Sul Global também reforça a capacidade do Brasil de buscar destinos alternativos para suas exportações.

⦿ Diversificação se torna defesa contra o protecionismo

A avaliação de Simone Tebet reforça o argumento de que a diversificação comercial funciona como uma defesa estratégica contra decisões unilaterais adotadas por grandes potências.

Ao distribuir suas exportações entre diferentes mercados, o Brasil reduz o risco de que uma crise diplomática ou a imposição de barreiras por um único país provoque um colapso generalizado.

A ex-ministra defendeu uma política comercial sem discriminação ideológica, baseada na ampliação das relações com países latino-americanos, europeus, asiáticos e africanos.

⦿ Minerais raros são uma “dádiva” para o Brasil

Na entrevista, Tebet também abordou o potencial brasileiro no setor de minerais críticos e estratégicos.

O Brasil possui uma das maiores reservas mundiais de terras raras e outros minerais utilizados em setores como energia limpa, defesa, telecomunicações, veículos elétricos, baterias e equipamentos tecnológicos.

Para a ex-ministra, essas reservas representam uma “dádiva” que precisa ser aproveitada de forma sustentável e estratégica.

Ela defendeu a criação de um marco regulatório capaz de atrair investimentos estrangeiros, garantir segurança jurídica e assegurar que parte relevante da produção seja processada no Brasil.

⦿ Investimentos estrangeiros sem discriminação

Segundo Tebet, o Brasil não dispõe sozinho de todos os recursos necessários para explorar seu potencial mineral.

Por isso, seria necessário combinar investimentos públicos e privados, nacionais e estrangeiros, dentro de processos transparentes e competitivos.

“A legislação precisa, sem discriminação da origem do dinheiro, aceitar investimentos estrangeiros vindos de onde quer que sejam, dentro de um processo, obviamente, de disputa licitatória”, afirmou.

Ela ressaltou, contudo, que a abertura ao capital externo não pode significar a simples exportação das riquezas naturais brasileiras sem geração de valor no país.

⦿ Brasil não pode repetir modelo das commodities

Simone Tebet advertiu que o Brasil não deve repetir, no setor de minerais críticos, o modelo adotado historicamente com outras commodities.

Segundo ela, o país precisa evitar a exportação de matérias-primas com baixo grau de processamento e exigir que parte da cadeia produtiva seja desenvolvida dentro do território nacional.

O objetivo seria fortalecer a indústria, ampliar a transferência de tecnologia e criar empregos mais qualificados e bem remunerados.

“Senão, nós vamos ficar eternamente como o Brasil do futuro e vamos perder, quem sabe, uma das últimas oportunidades de transformar o Brasil, que hoje é um país de classe média, em um país verdadeiramente rico”, disse.

A Câmara dos Deputados aprovou, em maio, a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. O texto encontra-se em análise no Senado.

⦿ Planejamento de longo prazo como legado

Ao avaliar sua passagem pelo Ministério do Planejamento e Orçamento, Tebet apontou como principal legado a combinação entre responsabilidade fiscal e planejamento estratégico.

A ex-ministra destacou a elaboração do Plano Plurianual Participativo, construído com consultas realizadas em todos os estados e com a participação de representantes de diferentes setores da sociedade.

Segundo ela, o objetivo foi alinhar investimentos, obras e políticas públicas às prioridades apresentadas pela população.

Tebet também ressaltou a conclusão de um plano de desenvolvimento para os próximos 25 anos, com metas e indicadores para áreas como ciência, tecnologia, inovação, emprego, segurança pública, agronegócio, agricultura familiar e sustentabilidade.

O documento foi entregue ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e deverá ser encaminhado ao Congresso Nacional depois das eleições, na tentativa de construir um consenso político mais amplo.

⦿ Reconstrução do orçamento após a pandemia

A ex-ministra afirmou que um dos maiores desafios encontrados no início do atual governo foi a recomposição do orçamento federal.

Segundo Tebet, diversos programas sociais, ambientais e habitacionais estavam sem recursos suficientes, incluindo o Minha Casa, Minha Vida e ações destinadas ao enfrentamento das mudanças climáticas.

Ela afirmou que o governo precisou recuperar a capacidade de financiar políticas públicas enquanto buscava garantir responsabilidade fiscal e maior eficiência dos gastos.

⦿ Falta de planejamento prejudica desenvolvimento

Tebet concluiu a entrevista afirmando que o Brasil ainda não desenvolveu uma verdadeira cultura de planejamento de longo prazo.

Segundo ela, o problema não se limita aos governos, mas envolve a administração pública, a classe política, a sociedade e os próprios meios de comunicação.

“Diferentemente do setor privado, que planeja antes de investir, isso não faz parte da cultura da máquina pública, desde uma Câmara de Vereadores até o Congresso Nacional, de uma prefeitura até a Presidência da República”, afirmou.

Para a ex-ministra, a ausência de uma visão estratégica ajuda a explicar por que o Brasil enfrenta dificuldades históricas para transformar seu potencial econômico em desenvolvimento social e prosperidade duradoura.

Fonte: Brasil 247 com informações da Sputnik Brasil.

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