terça-feira, 2 de junho de 2026

Mulheres desconfiam da polícia e da Justiça, diz Datafolha

Pesquisa mostra que só 17% das mulheres confiam muito na Justiça em casos de violência de gênero

                 Manifestação contra violência de gênero (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

A maioria das mulheres brasileiras demonstra baixa confiança na atuação da polícia e da Justiça em casos de violência de gênero, enquanto a percepção de aumento da violência contra a mulher no país é quase unânime. Pesquisa Datafolha encomendada pelo Movimento Mulher 360 mostra que apenas 17% das mulheres dizem confiar muito na Justiça e 19% afirmam ter alta confiança na polícia nesse tipo de ocorrência.

O levantamento ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em capitais e regiões metropolitanas de todas as regiões do Brasil, entre os dias 6 e 11 de abril. Segundo a pesquisa, 89% dos entrevistados afirmaram acreditar que os casos de violência contra a mulher aumentaram no último ano.

◎ Baixa confiança nas instituições
Os dados revelam um cenário de forte descrença feminina em relação às instituições responsáveis por acolher, proteger e dar resposta às vítimas. Quando questionadas sobre a Justiça, 63% das mulheres disseram confiar pouco na atuação institucional em casos de violência, enquanto 19% afirmaram não confiar.

Em relação à polícia, os números seguem patamar semelhante. Entre as mulheres entrevistadas, 63% declararam confiar pouco e 17% disseram não confiar na instituição em situações envolvendo violência de gênero.

A pesquisa também aponta que as redes sociais concentram o maior nível de desconfiança entre os ambientes avaliados, embora o levantamento destaque especialmente a baixa credibilidade atribuída às instituições de proteção formal.

◎ Diferença entre homens e mulheres
O Datafolha identificou diferença relevante entre homens e mulheres na avaliação sobre a capacidade das instituições de proteger vítimas de violência. Enquanto 19% das mulheres afirmam confiar muito na polícia em casos de violência de gênero, esse percentual chega a 31% entre os homens.

Na avaliação sobre a Justiça, a distância também aparece. Entre os homens, 23% disseram confiar muito na instituição. Entre as mulheres, o índice é de 17%.

A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais para o total da amostra e de três pontos percentuais nos recortes por sexo.

◎ Vítimas deixam de buscar ajuda após agressões graves
Outro dado destacado pelo levantamento mostra a dificuldade de reação institucional após episódios graves de violência. Segundo a pesquisa, 37% das mulheres que afirmaram ter sofrido agressão grave no último ano não adotaram nenhuma providência depois da ocorrência.

Para a diretora-executiva do Movimento Mulher 360, Margareth Goldenberg, o reconhecimento da gravidade da violência contra a mulher não elimina as barreiras enfrentadas por vítimas no momento de buscar ajuda.

“A decisão de denunciar uma violência costuma ser extremamente complexa. Ela envolve medo, dependência emocional, dependência financeira, preocupação com os filhos, vergonha e, muitas vezes, receio de represálias. Mas, quando a mulher também não acredita que será acolhida, protegida ou que terá uma resposta efetiva das instituições, a barreira para buscar ajuda se torna ainda maior”, afirmou Margareth Goldenberg.

◎ Culpabilização das vítimas ainda persiste
A pesquisa também aponta a permanência de discursos que atribuem responsabilidade às vítimas pela violência sofrida. De acordo com o levantamento, 61% dos entrevistados concordam com a afirmação de que muitos casos de violência contra a mulher são consequência de escolhas erradas feitas ao escolher um parceiro.

O índice equivale a seis em cada dez entrevistados e indica a presença de percepções sociais que podem dificultar o acolhimento de vítimas e reforçar estigmas em torno da denúncia.

◎ Risco dentro de casa
O ambiente doméstico aparece como espaço de maior vulnerabilidade na percepção dos entrevistados. Para 71%, as mulheres correm mais risco dentro de casa do que fora dela.

O dado reforça a centralidade da violência praticada em relações de proximidade e convivência, especialmente quando combinada a fatores como dependência financeira, dependência emocional, medo de represálias e preocupação com filhos.

◎ Sinais iniciais de violência ainda são pouco reconhecidos
Embora agressões mais explícitas sejam amplamente identificadas pela população como violência, o levantamento mostra dificuldade em reconhecer comportamentos considerados sinais iniciais ou antecedentes de situações mais graves.

Segundo a pesquisa, 45% dos entrevistados afirmaram que impedir uma mulher de sair sozinha para uma comemoração não é violência ou que a classificação depende da relação entre as pessoas envolvidas.

Outros 41% disseram não considerar necessariamente violência o controle das amizades da companheira. Já 42% responderam da mesma forma em relação ao controle do salário da esposa.

Em contraste, há forte consenso sobre formas mais evidentes de agressão. Para 94% dos entrevistados, humilhar uma companheira em público configura violência. Além disso, 95% afirmaram que forçar uma relação sexual dentro do casamento é violência contra a mulher.

O conjunto dos dados indica que, apesar da ampla percepção de agravamento da violência de gênero no Brasil, ainda persistem obstáculos institucionais, sociais e culturais que dificultam a denúncia, o acolhimento e a proteção efetiva das vítimas.

Fonte: Brasil 247

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