Pré-candidata ao Senado pelo PSB rejeita acusações de ser forasteira, afirma ter vínculos históricos com o estado e também diz que Michelle Bolsonaro sofre as consequências da ideologia da extrema direita
Crédito: Washignton Costa/MPO
Pré-candidata ao Senado por São Paulo, Simone Tebet (PSB) rebateu as críticas à sua mudança de domicílio eleitoral e afirmou que o governador Tarcísio de Freitas é uma das autoridades com menos legitimidade para questionar sua ligação com o estado. “Ele caiu de paraquedas, porque nem residência tinha e teve que pedir emprestado um endereço para ser candidato”, declarou.
A afirmação foi feita em entrevista à Folha de S.Paulo, publicada nesta sexta-feira (17). Ex-ministra do Planejamento e Orçamento do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Tebet deixou o cargo em abril para disputar uma das duas vagas paulistas ao Senado nas eleições de 2026. Sua candidatura havia sido anunciada após um pedido de Lula.
Aos 56 anos, Tebet disputará pela primeira vez uma eleição fora de Mato Grosso do Sul, estado onde nasceu e construiu toda a sua trajetória política. Também será sua primeira campanha fora do MDB, partido ao qual esteve filiada durante décadas.
“A sede da minha campanha presidencial foi aqui, fiquei muito tempo em São Paulo. São 645 municípios, muitas regiões metropolitanas, mas eu sou do interior, então sei como funciona [o interior paulista], principalmente no noroeste paulista, que é muito semelhante ao interior de Mato Grosso do Sul”, afirmou.
⦾ Tebet responde às acusações de ser forasteira
Questionada sobre os ataques feitos por adversários que a classificam como uma candidata de fora de São Paulo, Tebet dirigiu sua resposta diretamente a Tarcísio.
“Entre as autoridades, talvez [Tarcísio] seja o único que não tenha legitimidade para tratar do tema. Qualquer eleitor tem o direito de questionar, mas ele caiu de paraquedas, porque nem residência tinha e teve que pedir emprestado um endereço para ser candidato”, disse.
A ex-ministra sustentou que mantém uma relação pessoal, familiar, acadêmica e eleitoral com o estado. “Sempre me senti muito abraçada por São Paulo, porque nasci na divisa, meu marido é de Birigui, fiz mestrado aqui, minhas filhas fizeram faculdade e estão aqui há dez anos”, declarou.
Tebet também argumentou que conhece especialmente o interior paulista, onde pretende concentrar parte importante de sua campanha. Segundo ela, há semelhanças econômicas e culturais entre o noroeste de São Paulo e Mato Grosso do Sul.
“Vive do agronegócio e os problemas locais têm muito mais peso, relevância e importância do que questões nacionais. O noroeste de São Paulo é muito parecido no plantio, da soja e na pecuária. Há também a questão da imigração de japoneses e árabes, que é muito forte”, afirmou.
⦾ Disputa pelas vagas de São Paulo no Senado
A entrada de Tebet na disputa pelo Senado acrescenta um nome de projeção nacional à eleição paulista. No levantamento Datafolha citado pela Folha, ela aparece com 16% das intenções de voto, tecnicamente empatada com Marina Silva, também do PSB, que registra 18%.
Na sequência aparecem Ricardo Salles, do Novo, com 13%; André do Prado, do PL, com 11%; e Guilherme Derrite, do PP, com 10%. Como São Paulo elegerá dois senadores em 2026, os eleitores poderão escolher dois candidatos.
Ao falar sobre uma possível disputa pelo eleitorado conservador e ligado ao agronegócio com Ricardo Salles, Tebet defendeu uma combinação entre produção agrícola, sustentabilidade, reforma agrária e fortalecimento da agricultura familiar.
“Defendo a sustentabilidade dentro do agronegócio, a reforma agrária em terras devolutas, em terras improdutivas, e consequentemente a agricultura familiar”, declarou.
Segundo a ex-ministra, o médio e o grande agronegócio desempenham papel decisivo nas exportações, mas a produção dos alimentos consumidos cotidianamente pelos brasileiros depende principalmente das pequenas propriedades.
“Nós, do médio ou do grande agro, alimentamos muito pouco a população brasileira. Não é demérito, porque contribuímos com a balança comercial, mais voltados para a exportação, com exceção da carne. Mas, quando falamos de hortifrúti, arroz e feijão, itens da cesta básica, a maioria vem da agricultura familiar”, afirmou.
⦾ Polarização seria mais eleitoral do que social
Tebet avaliou que a divisão política no país vem perdendo força no cotidiano da população, embora continue sendo explorada durante as campanhas eleitorais.
“Não são excludentes. A gente fica achando que o Brasil está dividido, mas essa divisão é eleitoral. No dia a dia, essa polarização está diminuindo”, disse.
Para ela, a resistência de setores do agronegócio à esquerda está relacionada a episódios históricos envolvendo ocupações e destruição de plantações, mas essa realidade teria mudado nos últimos anos.
“É uma lembrança do passado, que é legítima, das invasões do MST em áreas produtivas, das destruições de cafezais e de laranjais aqui no interior de São Paulo. Mas isso ficou no passado, porque o movimento de luta por terra evoluiu com o diálogo, muito por insistência do próprio presidente”, afirmou.
Tebet acusou a extrema direita de utilizar essas lembranças para manter o setor rural mobilizado politicamente contra o campo progressista. “A extrema direita utiliza isso sempre para reavivar a memória do agro. A sensação que eu tenho é que interessa para alguns setores esse conflito, tanto da esquerda quanto da direita”, disse.
⦾ “Sou centro-direita na economia”
Na entrevista, Tebet voltou a se apresentar como uma política de centro, com posições econômicas mais conservadoras e visões progressistas nas questões sociais.
“Sou centro-direita na economia e centro-esquerda na pauta de costumes”, definiu.
Ao comentar a declaração de Lula de que não seria um político de esquerda e teria maior tendência ao centro, Tebet afirmou que o presidente adaptou sua atuação às condições impostas pela democracia e pela composição do Congresso Nacional.
“O Lula sindicalista era um homem de esquerda. Quando assumiu o poder, o Congresso era de centro e depois pendeu para a direita. Com o pragmatismo dele, entendeu que numa democracia ele governa para maioria e a maioria brasileira não é de esquerda”, disse.
A ex-ministra afirmou ainda não se sentir mais incomodada quando adversários tentam enquadrá-la em classificações ideológicas rígidas. Segundo ela, esse tipo de enquadramento acompanha toda a sua trajetória por ser mulher.
“A vida inteira tentaram me colocar numa caixinha como mulher. Eu, uma menina do interior, de um estado que não tem tradição política, viro a primeira prefeita da minha cidade, fui a primeira vice-governadora e depois no Senado tive várias primeiras vezes”, declarou.
⦾ Tebet diz que demorou 15 anos para ser ouvida
Ao recordar sua trajetória, Tebet destacou que foi a primeira líder da bancada feminina, a primeira mulher a presidir a Comissão de Constituição e Justiça do Senado e a primeira a disputar a presidência da Casa.
“A minha vida política, como a vida de qualquer mulher profissional, é sempre enquadrada em caixinhas. Mas não sou obrigada a escolher”, afirmou.
Apesar de ter ocupado cargos relevantes desde o início de sua carreira, ela disse que demorou mais de uma década para conquistar espaço efetivo nos centros de decisão.
“Eu sempre tive voz, mas não era ouvida. Só comecei a ser ouvida quando, na segunda metade do meu mandato no Senado, fui a primeira mulher presidente da CCJ, então eu pautava os projetos nacionais”, declarou.
“Se estou com 20 e poucos anos de política, levei mais de 15 anos para ser ouvida”, acrescentou.
⦾ Michelle sofre ideologia que representa, afirma Tebet
Tebet também comentou os conflitos recentes envolvendo a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, especialmente o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro.
Para a ex-ministra, Michelle experimentou pessoalmente a misoginia presente no campo político ao qual pertence.
“Eu acho que ela sofreu na própria pele o que pensa a ideologia que ela representa, que é a da extrema direita, que não poupa nenhuma mulher”, disse.
Tebet afirmou que a concepção defendida por setores da extrema direita reserva às mulheres uma posição de submissão e dependência.
“A mulher, para eles, tem que ficar em casa submissa, sem liberdade de escolha. Sou favorável a uma mulher ser dona de casa se for uma opção dela”, declarou.
A ex-ministra manifestou solidariedade a Michelle, mas cobrou coerência em sua defesa da participação feminina na política.
“Eu me solidarizo com a Michelle, que deve ter sofrido muita misoginia, um termo que ela nem gosta de usar, muita violência política, para ela se rebelar. Mas não pode ser seletiva na sua fala: se é vítima, tem que falar e proteger todas as vítimas”, afirmou.
⦾ Tebet relativiza declarações machistas de Lula
Questionada sobre falas consideradas machistas do presidente Lula, Tebet atribuiu parte do comportamento à formação geracional do petista, mas afirmou que ele deve ser cobrado.
“Eu acho que é geracional. A Janja já o cobra muito e ele precisa ser cobrado pela imprensa”, disse.
Ao mesmo tempo, Tebet sustentou que eventuais declarações inadequadas não apagariam as políticas públicas do governo federal voltadas às mulheres.
“Não diminui em nada toda a dedicação que ele tem com as mulheres brasileiras e com a família de modo geral. Ele entrega 95% das chaves da casa própria para uma mulher. O Bolsa Família, em 90% dos casos, vai para a mão de uma mulher”, declarou.
“Quando ele faz um PAC para construção de escolas e de creches, ele está pensando na mãe”, acrescentou.
⦾ Renovação política e eleições de 2030
Tebet afirmou ver nomes promissores na nova geração de políticos brasileiros, mas considerou insuficiente a participação da juventude nos partidos e nos movimentos sociais.
“Cabe a nós fazer o que a geração anterior não fez, que é preparar, e o presidente Lula tem que fazer isso. Sou suspeita para mencionar, mas vejo o João Campos e a Tabata Amaral, que são do meu partido, como exemplos”, declarou.
Para ela, falta à nova geração uma grande causa política capaz de produzir mobilização coletiva. “Cada geração tem uma causa: eu, por exemplo, fui da geração das Diretas Já. Essa rebeldia da juventude nasce na dor, na indignação, e essa indignação está demorando para surgir”, avaliou.
Ao ser questionada sobre a possibilidade de disputar novamente a Presidência da República ou outro cargo em 2030, Tebet evitou antecipar uma candidatura, mas garantiu que continuará na vida pública.
“O que não me vejo é fora da política. Sou hoje uma das mulheres do nosso campo que mais chegou longe. Isso me traz responsabilidade num momento perigoso, em que temos o risco de a extrema direita voltar”, afirmou.
“Tenho que ser uma voz, agregar valores, tentar ajudar a unir esse país no caminho do centro. Não tenho o direito de parar na política, independentemente de concorrer ou não a um cargo. Em 2030, estarei na política”, concluiu.
Fonte: Brasil 247
Nenhum comentário:
Postar um comentário