domingo, 7 de junho de 2026

Bolsonaro tentou barrar transferência de Marcola e chefes do PCC, diz Moro em livro


        Flávio Bolsonaro e Sergio Moro em Curitiba

Quando presidente, Jair Bolsonaro não quis transferir para presídios federais lideranças criminosas do Primeiro Comando da Capital (PCC). A informação está num livro de autoria do senador Sergio Moro chamado “Contra o Sistema da Corrupção” (em liquidação na Amazon, como sói acontecer com as obras do ex-chefão da Lava Jato).

Ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Moro relatou que, no início da gestão, Bolsonaro chegou a cancelar a transferência da cúpula do PCC. Um vídeo de Alckmin contando essa história está viralizando nas redes em meio à designação de PCC e CV como organizações terroristas pelos EUA e à hipocrisia de Flávio Bolsonaro, parceiro de milicianos e de Daniel Vorcaro, que posa de justiceiro.

Candidato a governador do Paraná, Moro é aliado de Flávio Bolsonaro, com quem posa em comícios e convescotes. A fala de Alckmin ocorreu numa coletiva após o debate realizado pela Globo entre Lula e Bolsonaro em 2022. Ele lembrou que Jair Bolsonaro tentou impossibilitar que Marcola, líder da facção, fosse para o sistema penitenciário federal.

“‘Há poucos dias da deflagração da Operação Imperium, fui surpreendido por uma mensagem dele [Bolsonaro] no meu celular, sugerindo cancelamento das transferências. Bolsonaro disse estar receoso de possíveis retaliações do crime organizado contra a população civil e temia que, se isso acontecesse, o governo federal fosse responsabilizado, inclusive com impeachment no Congresso'”, leu Alckmin para os jornalistas.

“O Moro escreve no seu livro: Bolsonaro lhe manda um e-mail pedindo o cancelamento, que não fosse feita a transferência”, acrescentou Alckmin.

A Operação Imperium foi realizada em fevereiro de 2019, ainda no início do governo Bolsonaro. Vinte e dois integrantes do PCC foram levados de presídios paulistas para penitenciárias em Rondônia, Brasília e Rio Grande do Norte.

“A transferência foi pedida antes do Bolsonaro assumir pelo Ministério Público de São Paulo, e foi autorizada no começo de 2019 por ordem do Tribunal de Justiça de São Paulo. Não foi o Bolsonaro quem pediu. Foi o MP. Quem autorizou foi o Judiciário, e o Bolsonaro, diz o Moro, tentou impedir a transferência do Marcola. Essa é a realidade”, disse Alckmin.

Moro dedicou um capítulo ao tema, intitulado “Um golpe no PCC”. Ele relata que no período de transição do governo federal, de novembro a dezembro de 2018, deu início às tratativas com o então governador eleito de São Paulo João Doria. Doria apoiou a remoção desde o primeiro momento, “sem vacilos”. Moro declarou que sem ele nada teria sido possível.

Havia pedidos do Ministério Público do Estado, por causa da descoberta de planos de resgate em cadeias do interior paulista. O governo estadual, de acordo com Moro, também se preocupava com retaliações. Os criminosos preferiam permanecer nos presídios paulistas, de onde mantinham o controle da organização. Tudo era mantido em sigilo.



A transferência foi protelada por algumas semanas por causa de atentados no Ceará, de uma viagem a Davos (onde Bolsonaro protagonizou vexames antológicos), e da internação em janeiro de 2019 para cirurgias no abdômen no Hospital Albert Einstein. “Se o PCC quisesse retaliar o governo federal, não seria o hospital um alvo possível?”, questionou Moro no livro.

Ele prosseguia: “Desde o início do planejamento da operação, ainda durante a transição de governo, eu havia comunicado Bolsonaro sobre a intenção de transferir as lideranças do PCC para os presídios federais. Como a medida poderia ter consequências significativas, como retaliações terroristas, havia a necessidade óbvia de informar o presidente sobre ela. Ele concordou com a ação, que seguia a política de ser firme com o crime organizado, conforme prometera durante a campanha. Mas, a poucos dias da deflagração da Operação Imperium, fui surpreendido com uma mensagem dele no meu celular sugerindo o cancelamento das transferências. Bolsonaro disse estar receoso de possíveis retaliações do crime organizado contra a população civil e temia que, se isso acontecesse, o governo federal fosse responsabilizado, inclusive com impeachment no Congresso.”

Moro marcou uma visita ao hospital, ao lado dos generais Fernando Azevedo, então Ministro da Defesa, e Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional.

“Embora Jair Bolsonaro ainda estivesse apreensivo sobre possíveis consequências, a minha impressão é de que, mesmo antes da nossa conversa, ele já havia mudado de opinião e decidido que a operação deveria prosseguir. Ao que tudo indica, os receios dele foram superados antes da minha ida ao hospital, após receber a visita de autoridades do governo de São Paulo que também sabiam da operação”, relatou Moro.

Marcola está em cana desde 1999, com passagens por diversos presídios e penas que somam mais de 300 anos. Desde janeiro de 2023 encontra-se trancafiado em Brasília, decisão tomada pelo então ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, para evitar um plano de fuga ou resgate. A família Bolsonaro, Moro e Trump estão soltos.

Fonte: DCM

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