quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Vitória democrata nos EUA pode fragilizar presença de Eduardo e Flávio Bolsonaro no país

 A presença dos filhos de Jair Bolsonaro nos Estados Unidos deverá entrar na agenda de fiscalização das comissões parlamentares

Eduardo Bolsonaro – Donald Trump – Flávio Bolsonaro - Crédito: Daniel Torok/Casa Branca / Geraldo Magela/Agência Senado / Saulo Cruz/Agência Senado

A conquista da maioria no Senado e na Câmara dos Estados Unidos pelo Partido Democrata poderá ampliar a pressão política sobre Eduardo e Flávio Bolsonaro em território norte-americano. A avaliação é do professor Lucas Souza Martins, especialista em história dos Estados Unidos e docente da Temple University, na Filadélfia. Em entrevista à coluna de Bela Megale, publicada pelo jornal O Globo nesta quinta-feira (5), ele afirmou que a nova composição do Congresso dará aos democratas mais instrumentos para questionar a atuação do governo de Donald Trump em relação aos dois brasileiros.

Segundo Martins, a presença dos filhos de Jair Bolsonaro nos Estados Unidos deverá entrar na agenda de fiscalização das comissões parlamentares, especialmente daquelas responsáveis por assuntos internacionais. A articulação de setores da sociedade civil brasileira com parlamentares democratas também poderá contribuir para ampliar os questionamentos sobre o apoio oferecido pela administração republicana à família Bolsonaro.

— A presença do Flávio e do Eduardo se tornará parte deste processo de escrutínio pelos democratas. Isso vai ocorrer porque há uma sociedade civil brasileira relativamente organizada e em conexão com os democratas para pressionar o governo Trump desde antes da eleição brasileira sobre esse tema. Agora, com os democratas sendo maioria nas duas casas legislativas, eles terão muito mais possibilidades de exigir respostas, de constranger mais o governo. Isso vai colocar os Bolsonaros em uma situação muito delicada.


A mudança no Congresso ocorre após as eleições de meio de mandato realizadas na terça-feira (3), que alteraram a correlação de forças em Washington e reduziram o espaço político do governo Trump no Legislativo. Com o controle das duas Casas, os democratas poderão comandar comissões, convocar autoridades e ampliar investigações sobre decisões da administração federal.

⦾ Vitória democrata no Texas amplia pressão sobre Eduardo Bolsonaro

Um dos resultados eleitorais destacados pelo professor foi a vitória democrata no Texas, estado onde Eduardo Bolsonaro vive desde 2025. A eleição de representantes do partido para o Senado e o governo estadual modifica o ambiente político local e, na avaliação de Martins, poderá dificultar a articulação do ex-deputado brasileiro.

Na disputa pelo Senado, o democrata James Talarico derrotou o republicano Ken Paxton, com 54,9% dos votos contra 43,2%. O resultado representou uma mudança histórica, já que um candidato democrata não conquistava uma cadeira no Senado pelo Texas desde 1988.

Os democratas também venceram a eleição para o governo estadual. Gina Hinojosa obteve 57,1% dos votos, superando o republicano Greg Abbott, que recebeu 41,6%. Com a vitória, ela será a primeira governadora de origem latina do Texas.

Martins avalia que a nova configuração política poderá afetar as condições de atuação de Eduardo no estado, especialmente diante de possíveis divergências entre o governo estadual democrata e a administração federal republicana.

— Considerando que Eduardo Bolsonaro mora no Texas e o governo do Texas passa a ser democrata, isso coloca a situação política do Eduardo como algo delicado. Haverá dificuldades, por exemplo, de articulação federal, pensando que as políticas implementadas pelo governo Trump podem ser recusadas ou ignoradas pelo Texas. Os democratas farão pressão na questão da política externa, na questão do asilo do Flávio e na presença do Eduardo naquele estado. Isso pode colocá-lo numa situação complicada que o faça se mudar para a Flórida, que segue com um governador republicano — disse o professor.

A avaliação diz respeito principalmente ao ambiente político e à capacidade de articulação dos irmãos Bolsonaro. A mudança no governo estadual do Texas, por si só, não determina a situação migratória de Eduardo ou Flávio, uma vez que decisões sobre vistos, autorizações de permanência e eventuais medidas de remoção são atribuições das autoridades federais norte-americanas.

⦾ Marco Rubio pode se tornar alvo de questionamentos democratas

Outro ponto destacado pelo professor é a posição do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, considerado um dos principais interlocutores da família Bolsonaro dentro do governo Trump.

Na avaliação de Martins, Rubio poderá enfrentar questionamentos mais intensos dos democratas por causa de sua atuação na política externa. O secretário também é apontado como um dos nomes com maior visibilidade dentro do Partido Republicano para uma eventual disputa presidencial futura.

— Para os democratas, um dos principais temas de ataque político será a política externa, até porque Marco Rubio é o presidenciável com mais visibilidade hoje. Ele será uma fonte de ataques por parte dos parlamentares que coordenarão os comitês da Câmara e do Senado.

A fiscalização parlamentar poderá alcançar decisões relacionadas à política externa norte-americana e à atuação do governo Trump em outros países, incluindo as iniciativas envolvendo o Brasil. Nesse contexto, os democratas terão condições de solicitar informações, convocar integrantes do Executivo e questionar os critérios utilizados pela administração republicana em suas relações internacionais.

⦾ Flórida também registra avanço democrata

Embora continue sob comando republicano, a Flórida também apresentou resultados eleitorais que, segundo Martins, indicam dificuldades para o partido de Trump. O professor destacou que os republicanos tiveram disputas mais apertadas e enfrentaram divisões internas durante o processo eleitoral.

Um dos exemplos citados foi a eleição para o governo estadual, vencida por um candidato republicano com margem considerada estreita. O atual governador, também do partido, deixa o cargo em meio a divergências com Trump sobre a guerra no Irã e a interesses políticos próprios para o futuro.

O professor também mencionou a disputa envolvendo a congressista Maria Salazar, considerada próxima de Marco Rubio e de integrantes do grupo bolsonarista nos Estados Unidos. Ela conseguiu preservar sua cadeira, mas enfrentou uma competição mais acirrada do que o esperado.

— Os republicanos saíram enfraquecidos e divididos na Flórida. Estamos falando de um estado tradicionalmente republicano em que o novo governador do partido foi eleito com margem magra. O atual governador, também republicano, deixa o cargo com críticas a Trump na guerra do Irã e tem ambições presidenciais. Uma congressista próxima a Rubio e ao bolsonaristas, Maria Salazar, correu risco de perder sua cadeira e venceu com margem estreita. A onda azul também chegou à Flórida dentro das proporções do estado — disse Lucas Martins.

⦾ Nova composição do Congresso muda cenário para os Bolsonaro

A avaliação do professor aponta para uma mudança nas condições políticas que sustentavam a atuação de Eduardo e Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos. A relação próxima com Trump e integrantes de seu governo oferecia aos dois brasileiros interlocução com setores influentes da política norte-americana.

Com a maioria democrata nas duas Casas legislativas, essa relação poderá passar a ser objeto de maior fiscalização, sobretudo em assuntos relacionados à política externa e às decisões do Executivo envolvendo cidadãos brasileiros.

A nova correlação de forças, entretanto, não representa uma decisão automática sobre a permanência dos irmãos no país. O impacto mais imediato apontado por Martins está na ampliação dos questionamentos políticos e na possibilidade de o governo Trump precisar prestar esclarecimentos ao Congresso sobre sua relação com a família Bolsonaro.

Fonte: Brasil 247

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