O lenacapavir foi liberado para uso como profilaxia pré-exposição (PrEP) em pessoas que não vivem com HIV, com idade acima de 12 anos
1/12/2025 - Mobilização em Brasília no Dia Mundial de Combate à AIDS oferece testagem rápida para HIV, distribuição de autotestes, orientações sobre ISTs e saúde sexual (Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil) A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso do lenacapavir, primeiro medicamento injetável de longa duração indicado para a prevenção do HIV com eficácia próxima de 100%. O fármaco, que será comercializado no Brasil com o nome Sunlenca, é aplicado apenas duas vezes ao ano e representa uma mudança significativa nas estratégias de prevenção contra o vírus.
A aprovação foi noticiada inicialmente pelo jornal O Globo, em reportagem assinada por Bernardo Yoneshigue. Desenvolvido pelo laboratório Gilead Sciences, o medicamento já havia recebido autorização para uso nos Estados Unidos e na Europa e agora passa a integrar o rol de opções disponíveis no país.
O lenacapavir foi liberado para uso como profilaxia pré-exposição (PrEP) em pessoas que não vivem com HIV, com idade acima de 12 anos, peso superior a 35 quilos e teste negativo para o vírus. Apesar de atuar na prevenção da infecção, o fármaco não é considerado uma vacina, pois não estimula a produção de anticorpos pelo sistema imunológico. A proteção depende da manutenção do medicamento em circulação no organismo, por meio da aplicação semestral.
Diferentemente da PrEP oral, que exige a ingestão diária de comprimidos, o lenacapavir atua com apenas duas injeções por ano. O medicamento pertence a uma nova classe de antivirais e age diretamente no capsídeo do HIV-1, a estrutura que envolve o material genético do vírus. Ao interferir em múltiplas etapas do funcionamento dessa camada protetora, o fármaco impede a replicação viral no organismo.
Para o infectologista Alexandre Naime Barbosa, chefe do departamento de Infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a aprovação marca um ponto de virada na resposta ao HIV no Brasil. “A aprovação do lenacapavir pela Anvisa hoje é, sem dúvida, um marco muito especial na resposta ao HIV no Brasil. Ele está no centro das discussões mais avançadas sobre prevenção no mundo. É um medicamento inovador, com mecanismo de ação totalmente novo, o que amplia de forma concreta as opções de prevenção e tratamento disponíveis. Agora, o próximo passo é discutir acesso, incorporação e sustentabilidade, especialmente no SUS”, avaliou.
A eficácia do lenacapavir foi demonstrada em grandes estudos clínicos internacionais. O primeiro deles, denominado Purpose-1, acompanhou cerca de 5,3 mil mulheres cisgênero na África do Sul e em Uganda. Durante aproximadamente dois anos de acompanhamento, nenhuma das participantes que receberam o medicamento foi infectada pelo HIV, enquanto 55 novos casos foram registrados entre aquelas que utilizaram a PrEP oral. O resultado apontou eficácia de 100% das injeções.
Um segundo estudo, o Purpose-2, incluiu 3,3 mil participantes de diferentes gêneros e etnias, em 88 centros de pesquisa distribuídos por países como Brasil, Peru, Argentina, México, África do Sul, Tailândia e Estados Unidos. Ao final do acompanhamento, foram registrados apenas dois casos de infecção entre os que receberam lenacapavir, contra nove casos no grupo que utilizou a PrEP em comprimidos.
Quando comparados à incidência do HIV em uma amostra separada de 4,6 mil pessoas da população geral que não receberam nenhum método preventivo, os dados indicaram uma eficácia de 96% associada ao uso da injeção semestral. Os dois estudos foram publicados na revista científica New England Journal of Medicine e reforçam o potencial do medicamento como uma das ferramentas mais eficazes já desenvolvidas para a prevenção do HIV.
Especialistas destacam que, além da alta eficácia, a aplicação semestral pode contribuir para melhorar a adesão ao tratamento preventivo, um dos principais desafios da PrEP oral. A incorporação do lenacapavir ao Sistema Único de Saúde ainda dependerá de avaliações sobre custo, logística e impacto orçamentário, mas a aprovação regulatória já é considerada um avanço histórico no combate ao HIV no país.
Fonte: Brasil 247 com informações do jornal O Globo