Queda chegou a 7,2 pontos em municípios de até 5 mil habitantes; cidades de até 50 mil concentraram metade das perdas do petista
Coletiva presidente Lula - Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom / Agência Brasil
A queda da votação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entre os primeiros turnos de 2022 e 2026 foi proporcionalmente mais intensa no interior do Brasil e, sobretudo, nas cidades pequenas. Nos municípios com até 5 mil habitantes, o petista perdeu 7,2 pontos percentuais, enquanto nas cidades com mais de 500 mil moradores o recuo foi de apenas 1,1 ponto.
Os dados fazem parte de levantamento do cientista político Marco Antonio Faganello, pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público (Cepesp) da Fundação Getulio Vargas (FGV), realizado a partir do cruzamento dos resultados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com informações do Censo de 2022 e do PIB municipal. A análise foi divulgada pelo pesquisador e detalhada em reportagens da Agência Pública e do Estado de Minas.
O contraste entre capitais e interior é significativo. Nas capitais, Lula praticamente preservou o percentual obtido quatro anos antes, com redução média de apenas 0,6 ponto percentual. No conjunto dos municípios do interior, a queda chegou a 4,1 pontos.
O tamanho das cidades também teve peso relevante. Quanto menor o município, maior foi, em média, a perda proporcional do presidente. Segundo Faganello, quando são considerados os municípios de até 50 mil habitantes, esse conjunto responde por aproximadamente 50% da perda de votos registrada por Lula entre as duas eleições.
A análise encontrou redução da participação de Lula nos votos válidos em 98% dos municípios avaliados. Entre 5.561 cidades que tinham mais de 95% das seções totalizadas no momento do levantamento, o presidente havia ampliado sua votação proporcional em apenas 102.
⦾ Agro aparece entre os principais recortes da queda
Além do tamanho dos municípios, o levantamento encontrou uma associação entre a redução da votação de Lula e o peso da agropecuária na economia local.
Nos municípios em que agricultura e pecuária representam mais da metade da economia, a queda proporcional chegou a aproximadamente 8,8 pontos percentuais. Nas cidades onde a agropecuária representa menos de 5% da atividade econômica, o recuo foi consideravelmente menor.
O padrão se torna ainda mais evidente quando porte populacional e atividade agropecuária são analisados conjuntamente. Segundo Faganello, nas cidades de até 5 mil habitantes em que o agro representa mais de 50% do PIB, Lula perdeu aproximadamente 9% dos votos na comparação com 2022. Entre municípios do mesmo tamanho, mas com participação do agro inferior a 5% do PIB, a redução ficou abaixo de 4%.
O pesquisador ressalta, porém, que os números mostram uma associação estatística e não permitem concluir que a atividade agropecuária seja, por si só, a causa da mudança eleitoral.
⦾ Flávio avançou onde Lula perdeu
O movimento ocorreu paralelamente ao crescimento de Flávio Bolsonaro (PL). Segundo Faganello, nos municípios de até 50 mil habitantes em que Lula perdeu votos, Flávio avançou, enquanto os demais candidatos tiveram desempenho insuficiente para explicar a transferência observada entre os dois principais campos políticos.
Outro levantamento, da CNN Brasil com dados do TSE, mostra a dimensão territorial dessa mudança: Flávio venceu Lula em 714 municípios nos quais o petista havia sido o candidato mais votado no primeiro turno de 2022. Outros 2.665 municípios continuaram dando maioria a Lula, enquanto 2.191 permaneceram sob maioria bolsonarista.
Em São Paulo, a diferença entre capital e interior ficou particularmente evidente. Lula venceu Flávio em apenas 39 dos 645 municípios paulistas, enquanto o candidato do PL ficou à frente nos outros 606. O petista, por outro lado, venceu na capital paulista, onde recebeu 3.052.349 votos contra 2.760.747 de Flávio.
Em análise à CNN Brasil, Pedro Venceslau também apontou o interior como decisivo para o resultado. “A vitória de Flávio no primeiro turno se desenhou claramente no interior. Ele conseguiu vitórias consistentes em cidades pequenas e médias, não apenas no interior de São Paulo, mas também no de Minas Gerais”, afirmou.
⦾ Lula perdeu 3,4 milhões de votos no país
No quadro nacional, Lula passou de 57.259.504 votos no primeiro turno de 2022 para 53.876.617 em 2026. A redução foi de 3.382.887 votos, aproximadamente 6%.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno de 2026 na liderança, com 56.104.268 votos, equivalentes a 47,03% dos válidos. Lula recebeu 53.876.617, ou 45,16%. A diferença foi de 2.227.651 votos.
Quatro anos antes, o cenário havia sido inverso. Lula liderou o primeiro turno de 2022 com 57.259.504 votos, ou 48,43%, contra 51.072.345 de Jair Bolsonaro, equivalentes a 43,20%. A vantagem petista era de 6.187.159 votos.
Na comparação entre as duas eleições, Flávio recebeu 5.031.923 votos a mais do que seu pai havia conquistado no primeiro turno de 2022.
⦾ Minas Gerais e Tocantins mudaram de lado
A mudança no interior também se refletiu no mapa dos estados. Minas Gerais e Tocantins, vencidos por Lula em 2022, deram maioria a Flávio Bolsonaro em 2026.
Minas registrou a mudança mais importante em números absolutos. Em 2022, Lula recebeu 5.802.571 votos, contra 5.239.264 de Jair Bolsonaro, uma vantagem de 563.307.
Neste ano, o presidente caiu para 5.188.936 votos, ou 43,33%, enquanto Flávio alcançou 5.777.548, equivalentes a 48,24%. A vantagem passou a ser de 588.612 votos para o candidato do PL.
Lula perdeu, portanto, 613.635 votos em Minas na comparação com 2022, enquanto Flávio recebeu 538.284 a mais do que seu pai.
Em Tocantins, Lula passou de 434.303 para 404.009 votos. A votação bolsonarista seguiu o sentido contrário: Jair havia recebido 379.194 votos em 2022 e Flávio chegou a 469.321 em 2026.
⦾ São Paulo teve a maior perda absoluta
Apesar de o recuo proporcional ter sido mais intenso nas cidades pequenas, os grandes colégios eleitorais tiveram peso decisivo no volume total perdido por Lula.
São Paulo liderou a queda em números absolutos, com 984.619 votos a menos. Minas Gerais aparece em seguida, com perda de 613.635 votos, seguida pelo Rio Grande do Sul, com 511.913; Paraná, com 308.895; e Goiás, com 265.843.
Consideradas regionalmente, as maiores quedas proporcionais ocorreram no Sul e no Centro-Oeste. Lula perdeu 5,5 pontos percentuais no Sul e 5,2 pontos no Centro-Oeste. Entre os estados, Goiás registrou o maior recuo proporcional, seguido por Tocantins e Rio Grande do Sul.
O Sudeste, entretanto, respondeu pela maior parcela da perda em números absolutos: aproximadamente 53% dos votos perdidos por Lula vieram da região. O Sul respondeu por 29% e o Centro-Oeste, por 11%.
⦾ Vantagem no Nordeste diminuiu
O Nordeste continuou sendo a principal base eleitoral de Lula. O presidente venceu nos nove estados e recebeu aproximadamente 21,5 milhões de votos, contra cerca de 21,75 milhões em 2022.
A queda de Lula na região foi relativamente pequena, mas Flávio Bolsonaro avançou significativamente. Jair Bolsonaro havia recebido aproximadamente 8,79 milhões de votos no Nordeste em 2022. Flávio chegou a cerca de 10,4 milhões neste ano, crescimento próximo de 1,61 milhão.
A análise de Faganello mostra que Flávio superou a votação obtida pelo pai em 98% dos 1.794 municípios nordestinos. A participação da direita na região passou de 27% para 30,9% dos votos válidos.
Assim, embora Lula tenha preservado sua principal vantagem regional, o crescimento bolsonarista no Nordeste, combinado à perda mais intensa do presidente nas pequenas cidades, no interior, no Sul e no Centro-Oeste, modificou o equilíbrio territorial observado quatro anos antes.
Fonte: Brasil 247
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