Jair Bolsonaro fez escola: de agosto desse ano para cá, alunos de duas instituições públicas de ensino em Santa Catarina criaram listas de “meninas que merecem ser estupradas”. Os episódios ocorreram na Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina) e no IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina).
Neste último, pichações com conteúdo misógino e referências a grupos extremistas de direita foram encontradas no final do mês passado em banheiros do campus de Florianópolis. O caso foi divulgado nas redes sociais de movimentos estudantis da instituição e está sendo investigado pela polícia.
As pichações encontradas têm cunho racista, com frases e símbolos de ideologia nazista, ação que, com base na Lei nº 7.716/1989 (Crimes de Racismo e Preconceito), é crime no Brasil.
Além disso, outras inscrições encontradas em banheiros fazem referência a uma espécie de “tabela de avaliação” baseada no corpo das mulheres. Conforme denunciou o movimento estudantil do IFSC, existe ainda uma lista de garotas que “merecem ser estupradas”. A denúncia e as imagens das pichações foram divulgadas nas redes sociais.
Em nota, a direção do campus Florianópolis informou que tomou conhecimento dos relatos a cerca de pichações em banheiros da instituição, providenciou iniciou a limpeza das pichações e abriu uma investigação para apurar os fatos e tentar encontrar os responsáveis.
Segundo a administração da unidade, “o fato ter ocorrido dentro de banheiros torna mais difícil a identificação dos autores, mas não iremos desistir de tentar solucionar o caso”.
A ideia de que existem mulheres que “merecem ser estupradas” em virtude de sua beleza e mulheres que não merecem, por serem feias, foi criada pelo então deputado federal Jair Bolsonaro, e ganhou repercussão nacional em 2014.
Em dezembro daquele ano, no plenário da Câmara dos Deputados, o pai de Flávio Bolsonaro afirmou que só não estupraria a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) porque ela “não merecia”, repetindo uma declaração feita originalmente em 2003.
Na época, o então deputado estadual do Rio de Janeiro Flávio Bolsonaro defendeu o pai, dizendo que a frase de Jair fora “tirada de contexto”, e que ele tinha dito aquilo de “forma irônica”.
Udesc em Balneário Camboriú tem lista de “alunas mais estupráveis”
Já no município de Balneário Camboriú, reduto bolsonarista no estado, a Polícia Civil de Santa Catarina investiga desde agosto pelo menos cinco estudantes – todos homens – da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) por criarem uma lista que ranqueava alunas da instituição sob critérios de violência sexual.
Um boletim de ocorrência foi registrado, e a universidade instaurou procedimentos administrativos para apurar os fatos (veja a nota completa abaixo).
Relato da mãe de uma das vítimas, que não terá o nome divulgado, diz que a existência da lista foi descoberta pela namorada de um dos suspeitos, que viu as mensagens no celular dele.
O arquivo ranqueava pelo menos oito universitárias sob o rótulo de “mais estupráveis”, narra a mãe da aluna que teria cido citada na lista. A Polícia Civil não informou número exato de vítimas, reforçando que não poderá fornecer mais detalhes sobre o caso até a conclusão das investigações.
Além das ameaças implícitas de violência sexual, as classificações do grupo continham ofensas discriminatórias relativas ao corpo e à cor das estudantes no final da lista, revelou a mãe.
Além disso, estudantes afirmam que integrantes do grupo fotografavam alunas sem autorização enquanto elas estudavam e utilizavam inteligência artificial para criar montagens das mulheres usando biquínis.
Além do registro na Polícia Civil, o caso foi denunciado ao canal federal Disque 100 e protocolado junto à coordenação e direção do campus universitário.
Veja abaixo nota divulgada pela reitoria da universidade, repudiando o ocorrido.
“A Reitoria da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) informa que recebeu relatos sobre o caso envolvendo estudantes da Udesc Balneário Camboriú e está averiguando as providências a serem tomadas e os devidos procedimentos que competem à instituição.
Os encaminhamentos internos têm como objetivo apurar os fatos, identificar as circunstâncias e eventuais responsáveis, assegurando o devido processo e a análise das informações disponíveis.
A Universidade repudia veementemente toda e qualquer forma de violência, assédio, constrangimento, discriminação e desrespeito, bem como qualquer situação que atente contra a dignidade das mulheres. A Udesc reafirma seu compromisso com um ambiente universitário seguro, inclusivo e respeitoso”.
Fonte: DCM

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