sexta-feira, 17 de julho de 2026

‘O digital rompe barreiras’: Ana Estela Haddad detalha expansão e soberania do SUS Digital

Secretária de Saúde Digital destacou o crescimento da plataforma nacional de dados, o uso de inteligência artificial e a repatriação das informações dos brasileiros para nuvens governamentais

     Ana Estela Haddad: a bola está rolando

A transformação digital da saúde pública no Brasil atingiu um novo patamar de integração e escala, impulsionada por investimentos estruturantes e pelo avanço da interoperabilidade de dados. Em entrevista concedida ao jornalista Breno Altman no programa 20 Minutos, da Opera Mundi, a secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, Ana Estela Haddad, detalhou as diretrizes do programa SUS Digital e defendeu que a tecnologia deve servir estritamente como um bem público, livre de qualquer lógica de mercantilização.

Atualmente, o aplicativo Meu SUS Digital já ultrapassou a marca de 50 milhões de downloads, reunindo cerca de 30 funcionalidades que vão desde o prontuário eletrônico e a caderneta de vacinação até resultados de exames. Na atenção primária — considerada a porta de entrada do sistema —, 93% das 47 mil Unidades Básicas de Saúde (UBS) do país já utilizam prontuário eletrônico, sendo que a grande maioria adota o sistema próprio e de código aberto do Ministério da Saúde.



☉ Integração sem centralização rígida

Diferente de modelos de serviços de saúde centralizados, como o National Health Service (NHS) britânico, o SUS aposta em um formato interfederativo descentralizado, que engaja os 5.570 municípios e 27 estados. Ana Estela explicou que a estratégia brasileira não passa pela imposição de um prontuário único, o que seria inviável dadas as dimensões e a autonomia local, mas sim por uma arquitetura de unificação de dados de sistemas heterogêneos.

“Estabelecemos um modelo que é uma arquitetura de interoperabilidade: a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS). Ela interopera diferentes prontuários e sistemas para que possamos ter a disseminação da informação em um modelo unificado. A transformação digital está rompendo as barreiras geográficas e temporais na saúde.”

A robustez desse ecossistema gerou um salto quantitativo e qualitativo nos últimos anos. A RNDS expandiu seu volume de dados em 400%, saltando de 7 milhões para 4,7 bilhões de registros clínicos, laboratoriais e administrativos compartilhados entre os entes federados e, gradualmente, com o setor privado.

☉ A jornada pela soberania de dados

Um dos pontos centrais da agenda da secretaria é a chamada “jornada soberana dos dados de saúde”. Questionada sobre o armazenamento histórico das informações da RNDS em provedores estrangeiros de nuvem, como a Amazon Web Services (AWS), Ana Estela revelou que o governo federal executa um cronograma seguro e faseado de migração e repatriação.

O plano, desenhado em parceria com o Serpro e a Dataprev, prevê o estabelecimento definitivo de uma infraestrutura de nuvem governamental em território nacional.

“A saúde não pode ficar um minuto fora do ar, principalmente em sistemas críticos de suporte à vida. Por isso, estamos construindo um modelo seguro em que voamos trocando as asas”, comparou a secretária. “O processo de repatriação de dados está em curso para que estejam todos em território nacional. O segundo degrau, em construção com o Serpro, é o controle operacional pleno. O terceiro, mais complexo e de longo prazo, é a soberania tecnológica integral dos equipamentos e supercomputadores.”

☉ Inteligência Artificial e Hospitais Inteligentes

O Ministério da Saúde monitora atualmente 87 iniciativas internas que utilizam recursos de inteligência artificial (IA). Entre as frentes em expansão estão o uso de ferramentas cognitivas para automatizar diagnósticos por imagem e a aplicação de IA generativa para transcrever, classificar e estruturar prontuários de forma padronizada durante as consultas médicas, otimizando o tempo de atendimento técnico.

No campo da infraestrutura hospitalar de ponta, o governo federal viabilizou uma linha de financiamento junto ao Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o banco do BRICS, para a construção de um hospital inteligente planejado do zero. O complexo será erguido em São Paulo, integrado ao Hospital das Clínicas da USP. Paralelamente, o Ministério estrutura uma rede piloto que interligará 14 Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) em diferentes regiões do país a uma central única de monitoramento estratégico.

☉ Desafios estruturais e Complexo Industrial

Apesar dos avanços tecnológicos, a secretária reconheceu que o SUS ainda enfrenta gargalos históricos, concentrados principalmente no acesso à atenção especializada e de média e alta complexidade, além dos vazios assistenciais decorrentes da distribuição desigual de profissionais e especialidades médicas pelo território nacional.

Para mitigar a dependência externa de insumos e tecnologia evidenciada durante a pandemia, Ana Estela reafirmou o papel da saúde digital no fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. O setor, consolidado como um dos eixos prioritários da Nova Indústria Brasil (NIB), utiliza o massivo poder de compra do SUS para induzir a inovação local, estimular parcerias com universidades e garantir o desenvolvimento nacional de fármacos, equipamentos e soluções digitais interoperáveis.

Fonte: Brasil 247

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