Apesar de ter autorizado a entrada do senador nos Estados Unidos após sua fuga, governo estadunidense evita endossar sua contestação à reeleição de Lula
O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não tem planos de reconhecer o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como líder legítimo do Brasil, apesar de ter participado das articulações que permitiram a chegada do senador à Flórida após sua derrota na eleição presidencial. A posição indica que a Casa Branca pretende evitar uma nova deterioração das relações diplomáticas com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A informação foi divulgada nesta quinta-feira (30) pela agência Reuters, com base nos relatos de um funcionário estadunidense e de outra pessoa familiarizada com as discussões internas do governo Trump. Segundo as fontes, que falaram sob condição de anonimato, o presidente Donald Trump não pretende, neste momento, apoiar as reivindicações políticas de Flávio Bolsonaro, embora essa posição possa ser revista.
A decisão representa um contraste com a assistência prestada ao senador para deixar a América do Sul. Integrantes do governo americano ajudaram a viabilizar sua entrada nos Estados Unidos, enquanto aliados próximos de Trump participaram da organização da viagem que levou o candidato derrotado de território argentino a Miami.
Trump chegou a questionar a legitimidade da eleição brasileira de domingo (25), afirmando que o resultado parecia “fraudado”. Entretanto, ressaltou que não havia declarado apoio a nenhum dos candidatos e evitou atacar diretamente Lula, reeleito com uma vantagem de 3,5 pontos percentuais.
Na segunda-feira (26), o presidente estadunidense declarou a jornalistas: “gosto do Lula, me dou muito bem com ele”. Em seguida, acrescentou que “só acho que a eleição teve uma imagem muito ruim.”
⦾ Casa Branca ajudou Flávio a chegar aos Estados Unidos
A saída de Flávio Bolsonaro do Brasil foi organizada às pressas depois que um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a entrega de seu passaporte, atendendo a uma solicitação da Polícia Federal.
O senador é investigado por suspeitas de envolvimento em dois esquemas de lavagem de dinheiro. O pedido da PF ocorreu poucos minutos depois da confirmação da vitória de Lula, segundo relatos da imprensa brasileira citados pela agência.
A operação de saída do país contou com a participação de pessoas próximas ao governo americano. Uma fonte familiarizada com o episódio afirmou que Jason Miller, assessor de Trump e aliado da família Bolsonaro, ajudou a organizar o voo que partiu da Argentina.
Durante o deslocamento, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, recomendou a Trump que autorizasse a entrada de Flávio nos Estados Unidos. O presidente aceitou a recomendação, conforme relatou um funcionário americano à Reuters.
Integrantes do Departamento de Estado também mantiveram contatos com representantes do Departamento de Segurança Interna para identificar o mecanismo jurídico que permitiria receber o senador e seus familiares.
A solução adotada foi uma autorização humanitária temporária de entrada, instrumento utilizado pelas autoridades americanas em situações consideradas de urgência humanitária ou de significativo interesse público.
⦾ Fuga passou pela Argentina e pelo Equador
Informações fornecidas pelas autoridades argentinas indicam que Flávio Bolsonaro deixou o Brasil acompanhado da esposa e das duas filhas.
A família atravessou uma ponte em direção ao norte da Argentina às 22h50 de terça-feira (27). Cerca de 40 minutos depois, às 23h30, embarcou em uma aeronave fretada.
O trajeto até Miami incluiu uma escala no Equador. Na quarta-feira (28), o senador desembarcou no Aeroporto Executivo de Opa-locka, próximo à cidade americana.
Ainda não foi esclarecido como Flávio percorreu aproximadamente 1.300 quilômetros entre Brasília e a região da fronteira argentina, nem de que maneira deixou o território brasileiro sem que sua saída fosse identificada pelas autoridades responsáveis pelo controle migratório.
Durante o deslocamento, o senador entrou em contato com diversos funcionários estadunidenses para tratar de sua partida, segundo uma das fontes ouvidas pela Reuters.
⦾ Flávio reivindicou condição de presidente eleito
Depois de chegar aos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro publicou uma carta aberta na rede social X em que se apresentou como “o presidente eleito” do Brasil.
Posteriormente, apagou a primeira versão do documento e publicou outra, na qual passou a reivindicar a condição de legítimo “líder” do país.
A mudança de linguagem ocorreu em meio à ausência de reconhecimento internacional de sua reivindicação e à decisão da Casa Branca de não endossar sua posição.
Segundo um terceiro funcionário estadunidense ouvido pela Reuters, a avaliação é que o capital político do senador diminuiu depois de sua decisão de permanecer fora do Brasil.
A avaliação também é compartilhada por setores conservadores e de extrema direita brasileiros que esperavam que Flávio liderasse a oposição ao novo mandato de Lula. A saída do país provocou críticas entre integrantes desse campo político.
Funcionários brasileiros consultados pela agência, igualmente sob anonimato, avaliaram que a decisão favorece Lula, por enfraquecer a oposição conservadora no Congresso Nacional.
O episódio também foi precedido por declarações do deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio Bolsonaro, que havia sugerido publicamente, dias antes da votação, que o candidato deixasse o Brasil caso fosse derrotado.
Eduardo vive nos Estados Unidos e foi condenado no Brasil, em junho, em um processo relacionado à tentativa de influenciar o governo dos EUA no julgamento de seu pai, o ex-mandatário Jair Bolsonaro (PL).
⦾ Relação entre Trump e Lula pesa na decisão americana
A postura adotada por Washington ocorre depois de um período de oscilações nas relações entre os dois países.
No ano passado, o governo estadunidense impôs sanções ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, magistrado responsável pelo julgamento de Jair Bolsonaro e a outros integrantes do governo do ex-mandatário por tentarem um golpe de Estado após o pleito eleitoral de 2022. As medidas foram posteriormente suspensas, depois de uma aproximação entre Trump e Lula durante a Assembleia Geral das Nações Unidas.
Durante a campanha presidencial brasileira, o governo Lula também manifestou objeções ao que classificou como tentativas de integrantes da administração Trump de favorecer Flávio Bolsonaro.
Essas divergências contribuíram para a decisão brasileira de não dar andamento à posse do futuro embaixador dos Estados Unidos no país, um aliado próximo de Marco Rubio.
Na semana passada, a Reuters revelou que dois funcionários conservadores do Departamento de Estado haviam defendido com sucesso a imposição de sanções ao Brasil e a classificação de duas organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas. Segundo a reportagem, as iniciativas tinham como objetivo influenciar a disputa eleitoral em benefício de Flávio Bolsonaro.
Apesar desse histórico de atritos, Trump evitou romper com Lula depois da confirmação do resultado das urnas.
⦾ Família Bolsonaro enfrenta novo cenário político
A saída de Flávio Bolsonaro em um momento de dificuldades para o clã.
Seu pai, Jair Bolsonaro, que governou o Brasil entre 2019 e 2022, está preso desde o ano passado após condenação por tentativa de golpe de Estado destinada a impedir a transferência de poder depois de sua derrota eleitoral de 2022.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, disputou a Presidência em 2026, mas foi derrotado por Lula, que conquistou um novo mandato aos 81 anos.O parlamentar também é investigado pela Polícia Federal pela suspeita de lavagem de dinheiro.
A decisão do senador de deixar o país, seguida de sua tentativa de se apresentar como liderança legítima do Brasil, acrescentou um novo elemento de tensão ao cenário político.
A Casa Branca encaminhou ao Departamento de Estado o pedido de manifestação da Reuters sobre o caso, mas a pasta não respondeu. O governo brasileiro e um representante de Flávio Bolsonaro também não se pronunciaram até a publicação da reportagem.
Fonte: Brasil 247 com informações divulgada pela agência Reuters
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