Bancada cobra investigação de agressões, mortes e ameaças a apoiadores de Lula e parlamentares, além de medidas de proteção às vítimas
Polícia Federal - Crédito: Divulgação/Arquivo/PF
A bancada do Partido dos Trabalhadores (PT) na Câmara dos Deputados solicitou ao Ministério da Justiça e Segurança Pública a criação de uma ação nacional coordenada para investigar episódios de violência política registrados durante as eleições de 2026. A iniciativa busca ampliar a atuação da Polícia Federal (PF) na apuração de agressões, ameaças e mortes ocorridas em diferentes estados, especialmente na reta final da campanha e após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O pedido foi formalizado pelo líder do PT na Câmara, deputado Pedro Uczai (SC), em ofício encaminhado nesta quarta-feira (28) ao ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, com cópia ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. O documento reúne ocorrências relatadas em diversas regiões do país e reivindica providências para identificar os responsáveis, proteger as vítimas e investigar possíveis motivações políticas, racistas, misóginas e homotransfóbicas.
A bancada defende que o governo federal formalize e amplie o grupo de trabalho já constituído no Ministério da Justiça, garantindo abrangência nacional e acompanhamento contínuo dos casos relacionados ao processo eleitoral, inclusive daqueles registrados depois da votação.
Entre as principais reivindicações está a abertura de inquéritos pela Polícia Federal em episódios com repercussão interestadual ou internacional, além da investigação de ameaças articuladas nas redes sociais contra parlamentares, candidatos e lideranças políticas.
O documento também solicita que as autoridades estaduais examinem expressamente eventuais motivações discriminatórias nas investigações, evitando que essas hipóteses sejam descartadas sem diligências suficientes.
⦾ Agressões e mortes após o segundo turno motivam pedido
A ofensiva da bancada petista ocorre após uma série de episódios violentos registrados entre 23 e 26 de outubro, período que compreende a véspera e as horas posteriores ao segundo turno presidencial.
Um dos casos destacados aconteceu em Montes Claros, no norte de Minas Gerais, onde a vereadora Iara Pimentel (PT) sofreu uma fratura no nariz após ser atingida por objetos arremessados contra um carro de som durante uma carreata em apoio à reeleição de Lula, em 24 de outubro. Uma criança também ficou ferida. A Polícia Federal instaurou inquérito para identificar os responsáveis.
Em Santos, no litoral paulista, o engenheiro ambiental e mestrando Marcelo de Oliveira Rocha morreu após ser espancado na noite de 23 para 24 de outubro, quando se afastou de um grupo que acompanhava uma apresentação musical durante um ato favorável ao presidente.
A Polícia Civil investiga o episódio como latrocínio e prendeu um suspeito em 27 de outubro. Familiares da vítima, entretanto, apontam a possibilidade de motivação política e homofóbica, circunstâncias que a bancada considera necessário investigar. Até o momento descrito no ofício, essas motivações não haviam sido comprovadas.
Outro episódio fatal ocorreu em Vargem Alegre, também em Minas Gerais. Elisabete Martins Chaves, de 54 anos, morreu atropelada enquanto aguardava a passagem de uma carreata em apoio a Lula. Testemunhas atribuíram o atropelamento a um apoiador da candidatura adversária, mas a identificação das circunstâncias e de eventual motivação política ainda depende de investigação.
No Paraná, Eliseu Pedrozo dos Santos, de 38 anos, morreu após ser atropelado durante comemorações eleitorais em Mangueirinha. Segundo a Polícia Militar, o motorista ultrapassou um bloqueio policial, atingiu quatro pessoas e acabou preso em flagrante. A motivação do episódio ainda não havia sido esclarecida.
⦾ Apoiadores de Lula foram alvos de tiros e ataques
O levantamento apresentado pela bancada também descreve ataques com armas de fogo e agressões contra eleitores que participavam das comemorações pela vitória de Lula.
Em Porto Velho, Rondônia, um automóvel que transportava apoiadores do presidente, incluindo crianças, foi alvo de disparos enquanto estava parado em um semáforo. Posteriormente, um grupo quebrou os vidros do veículo, provocando ferimentos na motorista.
Em General Carneiro, Mato Grosso, o vereador Marcos Aurélio Bento Pena (MDB) foi preso sob suspeita de disparar contra uma lanchonete onde eleitores comemoravam o resultado presidencial. Uma pessoa foi atingida. De acordo com a Polícia Militar, o parlamentar admitiu ter efetuado os disparos.
Em Florianópolis, Santa Catarina, um motociclista de 24 anos sofreu fraturas na perna, no punho e no rosto depois de ser atingido por uma viatura da Polícia Militar Rodoviária durante as comemorações eleitorais. As versões apresentadas por testemunhas e pela corporação divergem.
O ofício também menciona agressões em Rio Verde (GO), um ataque com faca contra uma mulher no Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo, e a agressão a uma adolescente brasileira de 17 anos em Lisboa, Portugal, após a votação.
A bancada ressalta que os episódios precisam ser individualmente esclarecidos, tanto para determinar responsabilidades quanto para distinguir crimes motivados por divergências políticas de ocorrências com outras circunstâncias.
⦾ Violência política cresceu durante campanha eleitoral
Os dados apresentados ao Ministério da Justiça indicam uma escalada dos registros de violência política no ciclo eleitoral de 2026.
Segundo levantamento das organizações Terra de Direitos e Justiça Global, citado no documento, o Brasil contabilizou 354 casos entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026. O resultado representa crescimento de 18,4% em comparação com os 299 episódios identificados no período pré-eleitoral anterior.
Durante os 50 dias da campanha do primeiro turno, entre 16 de agosto e 4 de outubro, foram registrados outros 134 casos, o equivalente a uma ocorrência a cada nove horas.
Desse total, 102 episódios, correspondentes a 76,1%, atingiram pessoas com candidaturas registradas. As ameaças lideraram as ocorrências, com 64 registros, seguidas por 33 ofensas, 19 agressões físicas, 11 atentados e dois assassinatos.
São Paulo apresentou o maior número de casos, com 16, seguido pelo Rio Grande do Norte, com 13, Minas Gerais, com 12, e Rio Grande do Sul, com dez.
O levantamento também aponta que as mulheres foram vítimas em 70 dos 134 episódios, representando 52,2% do total, embora correspondessem a aproximadamente 35% das candidaturas.
Entre os ataques direcionados especificamente a candidaturas, a participação feminina entre as vítimas chegou a 58,8%. As mulheres pretas foram atingidas em um quarto desses casos.
⦾ Ameaças contra parlamentares também preocupam o PT
Além das agressões físicas, o documento destaca ameaças direcionadas a representantes políticos, especialmente mulheres negras e integrantes de grupos historicamente discriminados.
Um dos casos mencionados envolve a deputada federal eleita Ana Elisa Santos Silva (PT-MG), que recebeu ameaças de morte e estupro durante a campanha, acompanhadas de manifestações racistas e misóginas.
As intimidações também envolveram a divulgação de informações pessoais da parlamentar e de familiares. Em setembro, uma das mensagens teria sido enviada por alguém que se identificava como integrante de um grupo supremacista branco.
A gravidade das ameaças levou a parlamentar a desativar seu perfil em uma rede social. O caso foi registrado na Polícia Civil de Minas Gerais, e o Ministério da Justiça solicitou à Polícia Federal a abertura de investigação.
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, também relatou ter recebido ameaça de morte por e-mail, acompanhada de seu endereço residencial. Segundo o ministro, o remetente seria o mesmo responsável por ameaçar a deputada Erika Hilton (PSOL-SP).
Para a bancada petista, a possível atuação coordenada de agressores em diferentes estados reforça a necessidade de investigação federal, especialmente quando as ameaças envolvem redes digitais e divulgação de dados pessoais.
⦾ Assédio eleitoral soma 2.467 denúncias em 2026
Outro ponto central do pedido é o crescimento das denúncias de assédio eleitoral no ambiente de trabalho.
De acordo com informações do Ministério Público do Trabalho (MPT) reproduzidas no ofício, foram recebidas 2.467 denúncias ao longo de 2026, incluindo ameaças de demissão, dispensas e discriminação profissional relacionadas à preferência política dos trabalhadores.
Até o encerramento do segundo turno, o órgão havia contabilizado 1.937 denúncias. Outras 530 foram registradas entre a noite de 25 e a tarde de 27 de outubro, já depois da divulgação do resultado presidencial.
O documento destaca o caso da deputada estadual reeleita Índia Armelau (PL-RJ), que publicou uma manifestação dirigida a empresários sugerindo que verificassem se seus funcionários haviam “feito o L”.
Após ação apresentada pelo Ministério Público do Trabalho, a 3ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro determinou a retirada das publicações e proibiu a parlamentar de incentivar a discriminação ou a perseguição de trabalhadores por suas convicções políticas.
A bancada também menciona denúncias de listas de boicote a comerciantes identificados com a esquerda em Maringá, no Paraná, acompanhadas de mensagens racistas e referências ao nazismo.
O PT solicita que a Polícia Federal atue nos episódios em que houver indícios de crimes, em articulação com o Ministério Público do Trabalho e outros órgãos responsáveis pela proteção dos direitos dos trabalhadores.
⦾ Bancada pede proteção às vítimas e preservação de provas digitais
O ofício apresenta uma série de medidas para ampliar a resposta institucional à violência política.
Entre elas estão a articulação do Ministério da Justiça com a Polícia Federal, o Tribunal Superior Eleitoral, o Ministério Público do Trabalho e órgãos federais responsáveis pelas políticas de direitos humanos, mulheres e igualdade racial.
A bancada também reivindica mecanismos de acolhimento às vítimas e seus familiares, incluindo a avaliação da necessidade de inserir parlamentares e lideranças ameaçadas em programas de proteção.
No ambiente digital, o pedido prevê cooperação com plataformas para preservar dados relevantes às investigações e remover publicações que incentivem a violência, a discriminação política ou a perseguição profissional de eleitores.
Outra reivindicação é a divulgação periódica de informações consolidadas sobre o andamento das investigações, respeitando as restrições legais e o sigilo necessário às apurações.
O documento ainda propõe uma campanha nacional de conscientização sobre a convivência democrática e o respeito à pluralidade política, em parceria com a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, o TSE e organizações da sociedade civil.
⦾ PT quer ampliar medidas já adotadas pelo governo
A bancada reconhece que o governo federal iniciou ações para acompanhar episódios de violência relacionados ao segundo turno, mas defende que essas iniciativas sejam institucionalizadas e ampliadas.
O ofício menciona a formação de um grupo de trabalho no Ministério da Justiça para identificar responsáveis por agressões ocorridas após a votação, além de providências adotadas para acompanhar o episódio envolvendo uma viatura policial em Florianópolis.
A proposta apresentada por Pedro Uczai pretende transformar essas iniciativas em um mecanismo permanente de acompanhamento dos casos vinculados às eleições de 2026, abrangendo também o período pós-eleitoral.
Na avaliação da bancada, a Polícia Federal deve priorizar os inquéritos já instaurados, especialmente aqueles relacionados à agressão contra a vereadora Iara Pimentel e às ameaças recebidas pela deputada eleita Ana Elisa Santos Silva.
Fonte: Brasil 247
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