Baires Fly, ligada a escândalo de corrupção envolvendo aliados de Javier Milei, operou aeronave utilizada pelo senador após sua saída do Brasil
O avião particular utilizado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) para deixar a Argentina em direção aos Estados Unidos pertence à Baires Fly, empresa investigada pela Justiça argentina por suspeitas de lavagem de dinheiro em um esquema de corrupção envolvendo integrantes do governo de Javier Milei. A companhia, controlada pelo empresário Luis Grande, é apontada como uma das peças centrais de uma investigação sobre desvio de recursos públicos destinados à área da saúde. As informações foram divulgadas pelo jornal O Globo nesta quarta-feira (28)
A revelação acrescenta um novo elemento à saída do Brasil do candidato derrotado à Presidência da República, que cruzou a fronteira com a Argentina na noite de terça-feira (27), após ser intimado a entregar seus passaportes à Polícia Federal. O senador seguiu para Guayaquil, no Equador, antes de embarcar em direção a Miami, nos Estados Unidos.
A Baires Fly está sob investigação da Justiça Federal de Buenos Aires por supostamente ter sido utilizada para movimentar recursos provenientes de contratos públicos irregulares na Agência Nacional de Deficiência (ANDIS), órgão do governo argentino que esteve sob o comando de Diego Spagnuolo, ex-advogado pessoal de Milei.
Empresas beneficiadas por contratos superfaturados com o governo argentino teriam transferido valores milionários à Baires Fly. Para justificar o recebimento do dinheiro e ocultar sua origem, a companhia teria emitido documentos referentes a voos particulares que nunca foram realizados.
As suspeitas levaram a Justiça argentina a determinar o bloqueio de bens de executivos da empresa e o confisco de aeronaves como garantia para eventuais penalidades financeiras. Spagnuolo, por sua vez, é investigado por suspeita de comandar um esquema de desvio de recursos públicos mediante irregularidades em licitações na área da saúde.
⦾ Empresa já transportou Javier Milei aos Estados Unidos
A relação da Baires Fly com integrantes do governo argentino ganhou visibilidade após a eleição presidencial de 2023. Na ocasião, Javier Milei utilizou uma aeronave da companhia em sua primeira viagem internacional aos Estados Unidos depois da vitória eleitoral.
O deslocamento foi financiado pelo empresário Gerardo Werthein, posteriormente nomeado embaixador da Argentina em Washington. O episódio chamou a atenção para a proximidade entre a companhia aérea e figuras influentes do governo argentino.
Agora, a identificação da Baires Fly como operadora da aeronave associada à saída de Flávio Bolsonaro coloca novamente a empresa no centro de uma controvérsia política, desta vez envolvendo o Brasil.
De acordo com informações divulgadas pelo canal argentino C5N, um assessor político de Milei esteve no aeroporto de Puerto Iguazú no mesmo período em que Flávio chegou ao terminal acompanhado da esposa, Fernanda, e das duas filhas.
Não há confirmação de que o representante do governo argentino tenha conversado com o senador brasileiro ou participado da organização de sua viagem.
A emissora também informou que Flávio atravessou a fronteira em uma van na noite de terça-feira. Antes disso, ele teria permanecido em uma fazenda em Foz do Iguaçu, no Paraná, desde a noite anterior.
⦾ Flávio Bolsonaro deixou a Argentina em voo particular
A saída do senador ocorreu em meio às investigações conduzidas no Brasil e à determinação judicial para a entrega de seus passaportes.
Segundo informações posteriormente confirmadas pelo governo argentino, Flávio entrou no país às 22h50 de terça-feira, pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que conecta Foz do Iguaçu a Puerto Iguazú, na província de Misiones.
O senador estava acompanhado da esposa e das duas filhas. Após atravessar a fronteira, o grupo seguiu para o aeroporto argentino, de onde partiu em uma aeronave particular com destino a Guayaquil, no Equador.
Na manhã desta quarta-feira, o avião deixou o território equatoriano às 6h22, pelo horário de Brasília, em direção a Miami.
A movimentação ocorreu depois de informações contraditórias sobre a presença do parlamentar na Argentina. Inicialmente, autoridades migratórias e integrantes do governo de Milei afirmaram não ter registros de sua entrada no país.
O site argentino Infobae havia informado que Flávio atravessara a fronteira utilizando seu documento de identidade e que pretendia embarcar em um Gulfstream G400, de matrícula LV-JQW, operado pela Baires Fly.
A aeronave, com autonomia estimada em 7.800 quilômetros, teria condições de realizar um voo intercontinental até a Flórida sem escalas.
Entretanto, a decolagem inicialmente prevista não aconteceu. Segundo o jornal argentino La Nación, o voo estava programado para quatro passageiros, mas acabou cancelado.
O Clarín informou que a justificativa apresentada às autoridades aeroportuárias foi que “um dos passageiros teve um problema”. A lista de passageiros também não teria sido entregue às autoridades migratórias naquele momento.
Posteriormente, o governo argentino confirmou a entrada de Flávio no país e sua partida em direção ao Equador.
⦾ Polícia Federal investiga circunstâncias da saída do Brasil
A Polícia Federal brasileira apura as condições em que Flávio Bolsonaro deixou o território nacional, especialmente diante da determinação de entrega de seus passaportes.
O senador é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) por suspeitas relacionadas à sua conexão com o advogado Willer Tomaz, no âmbito de apurações sobre lavagem de dinheiro envolvendo plataformas de apostas e financiamento irregular.
A saída ocorreu apenas dois dias depois de Flávio ser derrotado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição presidencial, realizado no domingo (25).
Segundo a apuração de O Globo, o prazo de 24 horas concedido para a entrega dos passaportes terminou sem que os documentos fossem apresentados às autoridades.
A decisão de deixar o país também contrariou orientações que o senador havia recebido de integrantes de sua defesa e de aliados políticos, que defendiam sua permanência no Brasil para preservar sua posição como principal liderança do bolsonarismo após a derrota eleitoral.
⦾ Aliados desconheciam paradeiro do senador
A movimentação de Flávio Bolsonaro provocou incerteza entre integrantes do PL e pessoas próximas ao parlamentar. O senador ficou incomunicável durante parte da terça-feira, enquanto seu telefone não recebia mensagens enviadas por aliados.
O coordenador de sua campanha presidencial, senador Rogério Marinho (PL-RN), afirmou inicialmente que Flávio permanecia no Brasil e que havia conversado com ele para “espairecer”. Nos bastidores, entretanto, Marinho reconheceu a dirigentes partidários que desconhecia o paradeiro do aliado desde o início das informações sobre uma possível fuga. Integrantes do PL passaram a considerar a possibilidade de que o senador estivesse a caminho dos Estados Unidos.
⦾ Ordem de Moraes provocou preocupação antes da viagem
A possibilidade de uma saída do país já havia sido discutida entre Flávio Bolsonaro e integrantes de seu círculo político após a derrota nas urnas.
O senador participou, na segunda-feira (26), de uma reunião com amigos, advogados e aliados, entre eles Rogério Marinho, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o senador Guilherme Derrite.
Durante o encontro, Flávio estava “possesso”, conforme relato obtido pela colunista.
A principal preocupação do parlamentar não seria o resultado eleitoral, mas a determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF, para a retenção de seu passaporte.
Flávio demonstrava receio de uma prisão iminente e das possíveis consequências judiciais para seus familiares.
Na reunião, integrantes de seu núcleo político recomendaram que ele evitasse confrontar o resultado da eleição e permanecesse no Brasil, sob a avaliação de que uma eventual prisão imediata poderia ampliar a tensão política no país.
Fonte: Brasil 247
Nenhum comentário:
Postar um comentário