segunda-feira, 13 de julho de 2026

Financiadora de Dark Horse liderou repasses a empresa ligada ao PCC

Financiadora de Dark Horse liderou repasses a empresa ligada ao PCC, com R$ 28 milhões transferidos em nove meses, segundo investigação

Cartaz do filme Dark Horse- Jair Bolsonaro-Flávio Bolsonaro-Daniel Vorcaro
Crédito: Dark Horse-Flávio Bolsonaro-Jair Bolsoanro (Foto: Divulgação/Jair Bolsonaro/Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

A Entre Investimentos e Participações, responsável por financiar o filme Dark Horse, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro (PL), liderou os repasses para a ACX ITC Tecnologia, empresa investigada por suspeita de integrar uma estrutura de lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Foram 14 transferências, que somaram R$ 28 milhões entre agosto de 2024 e abril de 2025, conforme cálculo realizado pelo Metrópoles a partir dos dados da investigação.

De acordo com a Polícia Civil de São Paulo, a ACX ITC recebeu da Entre Investimentos o maior volume de recursos entre os pagamentos identificados no período. Em relatório oficial, a corporação atribuiu R$ 26 milhões à financiadora, enquanto a soma das operações analisadas chegou a R$ 28 milhões.

A relação entre as duas empresas permanece sob investigação. A Polícia Civil apura a suspeita de que a ACX ITC tenha sido utilizada para movimentar e ocultar recursos provenientes do tráfico de drogas praticado pela facção criminosa paulista.

● Empresa estaria registrada em nome de laranja

A ACX ITC Tecnologia aparece formalmente em nome de um homem que, em depoimento aos investigadores, afirmou ter emprestado seu CPF para a abertura da companhia. Segundo seu relato, a proposta teria sido apresentada durante uma abordagem em um campo de futebol.

O homem disse que receberia R$ 5 mil para figurar como proprietário da empresa. Aos policiais, declarou trabalhar com a comercialização de pipas e rabiolas por meio de rifas, com rendimento aproximado de R$ 1 mil por operação.

O delegado Júlio Jesus Encarnação registrou, em documento encaminhado à 1ª Vara de Organizações Criminosas e Lavagem de Bens de São Paulo, que a companhia movimentou mais de R$ 918 milhões.

“A empresa ACX ITC possui fortes indícios de envolvimento com recursos oriundos do tráfico e movimentou R$ 918.378.510,00”

Os investigadores buscam esclarecer a origem, o destino e a finalidade dos recursos que passaram pelas contas da empresa, além de identificar os beneficiários das transações.

● Entre Investimentos também aparece no caso Banco Master

A Entre Investimentos está registrada em nome de Antônio Carlos Freixo Júnior. Segundo a Polícia Federal, ele teria sido utilizado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para realizar pagamentos e ocultar patrimônio.

As apurações indicam, entretanto, que as atividades da Entre não estariam necessariamente restritas aos negócios relacionados a Vorcaro. A empresa teria sido usada em operações envolvendo outros agentes e diferentes núcleos sob investigação.

Foi por meio da Entre Investimentos que teriam sido pagos R$ 61 milhões para o financiamento de Dark Horse. Segundo a investigação, os desembolsos foram discutidos entre Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República.

O acordo inicialmente previa pagamentos de R$ 134 milhões, distribuídos entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. Os repasses efetivamente identificados, porém, ocorreram entre 13 de fevereiro e maio de 2025 e totalizaram R$ 61 milhões.

● Polícia aponta os maiores pagadores da ACX ITC

No levantamento referente ao intervalo de 1º de agosto de 2024 a 25 de abril de 2025, a Entre Investimentos aparece como a principal remetente de recursos para a ACX ITC.

O relatório da Polícia Civil atribui R$ 26 milhões à companhia. A reportagem do Metrópoles, após somar as 14 transferências, calculou um total de R$ 28 milhões.

Na sequência aparecem a Supaluh Transportes e Serviços Empresariais, com R$ 11,7 milhões; a Rinanileo Gestão Consultoria, com R$ 9,3 milhões; a Alpha Capital Ltda., com R$ 3,4 milhões; e a JJV Intermediações e Cobranças, com R$ 2,8 milhões.

As operações são analisadas para determinar se os pagamentos correspondiam a serviços efetivamente prestados ou se faziam parte de mecanismos usados para dissimular a origem e a circulação do dinheiro.

● Segunda maior pagadora foi investigada pela CPMI do INSS

A Supaluh Transportes, segunda colocada na relação de pagadores da ACX ITC, também apareceu nas investigações conduzidas pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS.

A CPMI investigou a ACX ITC após identificar que a empresa teria sido usada por Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS e apontado como um dos principais operadores do esquema de descontos indevidos sobre benefícios de aposentados e pensionistas.

Com endereço registrado em São Paulo, a Supaluh teve sua inscrição baixada na Receita Federal em 2025 e deixou formalmente de operar.

A empresa estava em nome de um contador que mantinha cerca de 290 pessoas jurídicas como clientes e de um preparador de tintas que recebia salário mensal de R$ 1,7 mil. Apesar do perfil financeiro dos proprietários formais, a Supaluh movimentou R$ 1,1 bilhão entre 2023 e 2025, segundo relatório produzido pela CPMI do INSS.

● Operação Saturno foi encaminhada à Polícia Federal

As conexões identificadas entre a ACX ITC, o PCC, o Banco Master, Daniel Vorcaro e o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro levaram a Polícia Civil a encaminhar o material reunido na Operação Saturno à Polícia Federal.

A PF já investigava parte dos envolvidos no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de crimes financeiros, gestão fraudulenta, ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro.

Com o envio dos documentos, os investigadores federais poderão cruzar as movimentações bancárias encontradas pela Polícia Civil com os elementos recolhidos nas apurações sobre o Banco Master e os pagamentos destinados ao projeto cinematográfico.

A Entre Investimentos não esclareceu ao Metrópoles a natureza das transferências realizadas para a ACX ITC. Em nota, a assessoria afirmou que “o Grupo Entre realiza suas operações em conformidade com as normas e regulamentações aplicáveis ao setor financeiro”.

A manifestação acrescentou que “a empresa reforça seu compromisso com a integridade, a transparência e o cumprimento da legislação vigente, permanecendo à disposição das autoridades competentes sempre que necessário.”

Fonte: Brasil 247 com informações do Metrópoles

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