terça-feira, 14 de julho de 2026

Eduardo Cunha direcionou emendas a cidades onde comprou rádios em Minas Gerais

Investigação da PF aponta que o ex-presidente da Câmara articulou R$ 6,1 milhões para municípios ligados à expansão de sua rede de emissoras, enquanto ele afirma ter feito apenas “sugestões”

Agentes da PF, notas de dinheiro e Eduardo Cunha em culto da Assembleia de Deus no Rio de Janeiro
Crédito: Divulgação

O ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (Republicanos-MG) articulou o direcionamento de emendas parlamentares para municípios de Minas Gerais nos quais comprou ou planejava instalar emissoras de rádio, embora não exercesse mandato parlamentar. Os recursos, destinados principalmente à área da saúde, somam R$ 6,1 milhões, segundo investigação da Polícia Federal.

As informações foram publicadas pelo jornal O Globo, que identificou manifestações de prefeitos e vereadores atribuindo diretamente a Cunha a obtenção das verbas. Os registros contradizem a versão apresentada pelo ex-deputado, que sustenta ter feito apenas “sugestões” a parlamentares do Republicanos, responsáveis, segundo ele, pela decisão formal sobre o destino das emendas.

A movimentação ocorre no momento em que Cunha se prepara para tentar retornar à Câmara dos Deputados, desta vez como candidato por Minas Gerais. Depois de construir sua carreira política no Rio de Janeiro, ele passou a investir na compra de rádios mineiras como parte de uma estratégia para ampliar seu reconhecimento no estado.

⊙ PF aponta Cunha como “verdadeiro solicitante”

Em investigação sobre o caso, a Polícia Federal classificou Cunha como o “verdadeiro solicitante da indicação” de emendas destinadas à saúde de 21 municípios mineiros em 2025.

De acordo com os investigadores, deputados e lideranças partidárias teriam sido registrados formalmente como autores dos repasses para “escamotear o real interessado”. A prática foi descrita pela PF como uma possível “fraude de encaminhamento”.

Cunha nega ter indicado emendas. Em entrevista concedida na segunda-feira à Rádio Maravilha, rede de emissoras da qual é proprietário, ele afirmou ter “sugerido ao partido (…) algumas propostas de emendas” e declarou que “o líder da bancada acolheu parte” delas.

O ex-presidente da Câmara argumenta que a decisão final sobre os recursos caberia exclusivamente aos parlamentares em exercício.

⊙ Prefeito atribuiu R$ 590 mil a Eduardo Cunha

Um dos episódios destacados pela reportagem envolve o município de Varjão de Minas. Em outubro de 2025, o prefeito Rafael de Toni (PL) recebeu Cunha durante um “encontro de lideranças” realizado na cidade.

Três dias antes do evento, a Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados havia apresentado uma emenda de R$ 590 mil para o custeio da atenção primária à saúde do município. Nos registros oficiais, a verba foi atribuída à liderança do Republicanos, então exercida pelo deputado federal Gilberto Abramo (Republicanos-MG), aliado político de Cunha.

Ao divulgar posteriormente uma relação de “recursos conquistados” pela administração municipal, no entanto, Rafael de Toni atribuiu a indicação dos R$ 590 mil diretamente a Eduardo Cunha.

Na publicação, o ex-presidente da Câmara apareceu como o quinto maior responsável pelo envio de recursos ao município e foi identificado como “deputado federal (MDB-RJ)”, cargo e filiação que mantinha antes de ter o mandato cassado, em 2016.

“Nosso agradecimento a todos os parlamentares que destinaram emendas a Varjão de Minas nos anos de 2025 e 2026”, escreveu o prefeito.

A prefeitura informou ao jornal que se manifestaria por meio de nota, mas não apresentou resposta até o fechamento da reportagem.

⊙ Vereador fala em articulação “juntamente com Eduardo Cunha”

Outro caso ocorreu no município de Piau, na Zona da Mata. Em episódio revelado pelo portal O Fator, o presidente da Câmara Municipal, Mica Carvalho (MDB), afirmou que atuou “juntamente com Eduardo Cunha” para articular o envio de R$ 300 mil à área da saúde.

O vereador divulgou um vídeo de agradecimento ao lado do prefeito Wander Loures (PP). Segundo a investigação da Polícia Federal, o recurso foi autorizado pela Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados em dezembro.

A referência pública à participação de Cunha reforçou a suspeita dos investigadores de que o ex-deputado exercia influência direta sobre a distribuição das verbas, embora os repasses aparecessem formalmente vinculados a parlamentares ou órgãos colegiados da Câmara.

⊙ Recursos chegaram a município onde Cunha comprou rádio

Em Guarani, também na Zona da Mata, Cunha comprou a antiga Rádio Tropical FM 92,7, posteriormente rebatizada como Rádio Maravilha.

Em dezembro, o prefeito Emerson Patrick (Republicanos) anunciou em vídeo que o município havia “conseguuiu uma emenda parlamentar (…) através da bancada mineira”, no valor de R$ 250 mil.

O prefeito não mencionou Eduardo Cunha, mas o recurso consta de uma planilha apreendida pela Polícia Federal que relaciona as emendas no valor total de R$ 6,1 milhões atribuídas à atuação do ex-presidente da Câmara.

A rádio adquirida em Guarani teve posteriormente sua operação transferida para Ubá, cidade com cerca de 103 mil habitantes, população aproximadamente dez vezes maior que a de Guarani. Os municípios ficam a cerca de 45 quilômetros de distância.

A estratégia adotada por Cunha teria sido repetida em outras regiões de Minas Gerais: adquirir emissoras sediadas em cidades pequenas e, posteriormente, ampliar ou transferir a transmissão para centros urbanos maiores, aumentando o alcance das rádios.

⊙ Emenda e compra de rádio em Raul Soares

Em Raul Soares, outro município mineiro contemplado com recursos, Cunha teria destinado R$ 472,9 mil por meio de emenda no fim de 2025.

No mesmo ano, o ex-deputado comprou a Rádio Sociedade Entre Rios, com o objetivo de expandir sua atuação para cidades como Ipatinga e Caratinga, importantes centros urbanos do Vale do Aço e do leste de Minas Gerais.

A coincidência entre o mapa das emendas e o processo de expansão das emissoras passou a ser analisada pela Polícia Federal como parte da estratégia política de Cunha para se tornar conhecido no estado antes das eleições.

Procurado pelo jornal, o ex-presidente da Câmara negou qualquer relação entre as verbas e os investimentos no setor de comunicação. Segundo ele, as emendas “não têm nada a ver” com a presença das rádios nos municípios.

Cunha afirmou ainda que os planos de transferir as emissoras para cidades maiores já existiam antes da articulação dos recursos públicos.

⊙ Flávio Dino aponta “acentuada ingerência”

Ao analisar o material reunido pela investigação, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou o bloqueio de R$ 6,1 milhões em bens de Eduardo Cunha.

Na decisão, Dino afirmou que o ex-presidente da Câmara exercia “acentuada ingerência” sobre a destinação das verbas públicas “sem exercer mandato”.

A medida levou em consideração os indícios de que Cunha atuava na definição dos municípios beneficiados, apesar de não possuir competência legal para apresentar emendas parlamentares.

Em entrevista à rádio 98,7 de Belo Horizonte, Cunha voltou a negar que fosse o autor formal dos repasses.

“Não sou autor de emenda nenhuma, nem posso sê-lo. Sou parte da sociedade, assim como os prefeitos que me procuram e pedem recursos”, declarou.

⊙ Estratégia para retornar à Câmara

Cassado em 2016, Eduardo Cunha tenta reconstruir sua trajetória política em Minas Gerais. O ex-deputado presidiu a Câmara durante o processo que resultou na abertura do impeachment da então presidente Dilma Rousseff e, durante anos, foi uma das figuras mais influentes do Congresso Nacional.

Agora filiado ao Republicanos, Cunha pretende concorrer novamente a deputado federal. A aquisição de emissoras de rádio no interior mineiro é vista como um dos principais instrumentos para ampliar sua presença política e eleitoral no estado.

A Polícia Federal investiga se a articulação de recursos públicos para municípios ligados à expansão da rede de rádios serviu para favorecer seu projeto eleitoral e fortalecer relações com prefeitos, vereadores e lideranças locais.

Cunha sustenta que sua atuação se limitou a transmitir demandas municipais a deputados aliados. Os investigadores, no entanto, consideram que os documentos, planilhas e declarações públicas de autoridades locais indicam uma participação mais direta na escolha das cidades e dos valores destinados.

Fonte: Brasil 247 com informações do jornal O Globo

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