Pré-candidato ao Senado afirma que ataques contra Michelle Bolsonaro e outras lideranças enfraquecem Flávio Bolsonaro e favorecem Lula na disputa presidencial
Crédito: Agência Câmara
O deputado federal Ricardo Salles (Novo-SP) afirmou que integrantes e aliados da família Bolsonaro exigem “obediência absoluta” de pessoas próximas ao grupo político e afastam lideranças que demonstram independência. Segundo ele, esse comportamento aprofunda as divisões internas da direita e prejudica a pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Em entrevista à Folha de S.Paulo, Salles também atribuiu a vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio nas pesquisas eleitorais a erros cometidos pela própria campanha bolsonarista, entre eles a relação do senador com Daniel Vorcaro, do Banco Master, e os conflitos públicos envolvendo a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL).
“Os erros da campanha do Flávio é que estão dando vantagem ao Lula. Não é o Lula que está indo bem”, declarou o parlamentar.
Ex-ministro do Meio Ambiente do governo Jair Bolsonaro e atual pré-candidato ao Senado por São Paulo, Salles disse que o grupo político ligado aos deputados Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Carlos Bolsonaro (PL-RJ) atua para excluir da direita aqueles que não demonstram submissão completa ao núcleo familiar.
“Tem uma frase interessante que diz que a política é a arte de ciscar para dentro. O que essa turma do entorno do Carlos e do Eduardo está fazendo é ciscar para fora, jogar gente que estava junto para fora –e só não fazem com aqueles que juram obediência absoluta. Gente com escolha não se sujeita a essa história de obediência absoluta”, afirmou.
☉ Salles aponta ataques contra Michelle Bolsonaro
Ao comentar os atritos entre Michelle Bolsonaro e integrantes da família, Salles afirmou que influenciadores associados a Eduardo e Carlos promovem ataques recorrentes contra a ex-primeira-dama, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e outras figuras da direita.
“O Eduardo e o Carlos têm em torno deles uma série de ativistas, influenciadores e blogueiros que diuturnamente atacam Michelle, Nikolas e muita gente séria e de direita, mas que, por razões fúteis, acabam gerando ciúmes. Isso desune a direita”, disse.
Segundo o deputado, uma manifestação pública de Michelle, na qual ela declarou ter sido maltratada, foi resultado do acúmulo dessas hostilidades.
“Acho que a manifestação da Michelle foi um desabafo de alguém que estava cansada de ser atacada por todo esse entorno. O próprio Flávio não atacava, mas também não fazia questão de brecar todos esses ataques que todo mundo via e todo mundo sabia de onde vinha”, afirmou.
Questionado sobre quem promoveria os ataques, Salles citou nominalmente influenciadores próximos a Eduardo Bolsonaro.
“São os influenciadores amigos do Eduardo: Kim Paim, Allan dos Santos… Tem uns tantos lá no Twitter, principalmente”, declarou.
Na avaliação do deputado, os conflitos internos podem dificultar a aproximação de Flávio Bolsonaro com o eleitorado feminino, segmento no qual o senador enfrenta resistência.
“Acho que sim, a eleição está longe”, disse Salles ao ser questionado sobre a possibilidade de recuperação do pré-candidato entre as mulheres.
☉ Relação com Vorcaro é citada como problema eleitoral
Salles também mencionou a relação de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, como um dos fatores explorados pela campanha petista.
Para o deputado, Lula não teria uma vantagem consolidada por méritos próprios, mas estaria se beneficiando dos problemas enfrentados pela oposição.
“O Lula tem um mau governo, corrupto, e a figura dele está muito envelhecida, desgastada. A vantagem é muito apertada e diante de qualquer descuido do Lula, o Flávio cresce. Só que hoje a campanha do PT está jogando em cima dos erros da campanha do Flávio”, afirmou.
Apesar das críticas à condução da pré-campanha, Salles considera que Flávio Bolsonaro ainda tem condições de vencer a disputa presidencial.
“Acho que sim, porque como a própria Folha mostrou, a maioria dos brasileiros é de direita”, declarou.
☉ Disputa pelo Senado expõe racha em São Paulo
Além das divergências nacionais, a entrevista revelou a disputa interna da direita pelas duas vagas de São Paulo no Senado.
Salles concorre sem o apoio do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que respalda as pré-candidaturas do deputado federal Guilherme Derrite (PP) e do deputado estadual André do Prado (PL).
O parlamentar afirmou ter sido aconselhado por diferentes pessoas a abandonar a candidatura e disputar novamente uma vaga na Câmara dos Deputados. Segundo ele, no entanto, Tarcísio nunca lhe pediu diretamente que desistisse.
“Vários comentaram que eu precisava desistir, mas por que eu que tenho que desistir? Eu me lancei candidato antes de todos, tenho uma história na direita muito mais sólida do que qualquer outro e estou na frente deles nas pesquisas. O Tarcísio nunca tocou nesse assunto de desistência comigo”, disse.
Salles afirmou que interlocutores conversaram com Fernando Meira, presidente do Novo em São Paulo, e sugeriram sua transferência para a disputa de deputado federal.
“Algumas pessoas, em conversa com o Fernando Meira, insinuaram se não era o caso de eu ir para deputado federal, que obviamente eu teria uma votação significativa. Se quiserem ter dois candidatos, o André que desista. Eu vou resistir”, declarou.
☉ Salles diz que André do Prado “não é de direita”
O ex-ministro poupou Derrite, a quem classificou como “um bom candidato”, mas lançou críticas contra André do Prado.
“O André não é de direita, ele está se fingindo ser de direita. Apoiou Dilma Rousseff e, na eleição de 2022, ficou ao lado do Rodrigo Garcia contra o Tarcísio no primeiro turno”, afirmou.
Salles também criticou as alianças políticas construídas pelo presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo.
“Ele se juntou ao PT para se eleger presidente da Assembleia Legislativa e tem uma série de parcerias com deputados, vereadores e prefeitos do PT. Tarcísio não o quis como vice. No fundo, não é uma candidatura ao Senado por mérito, mas como prêmio de consolação”, declarou.
Pesquisa Datafolha divulgada no início de julho mostra Marina Silva (Rede) numericamente na liderança, com 18%, seguida por Simone Tebet (PSB), com 16%. Salles registra 13%, enquanto André do Prado aparece com 11% e Derrite, com 10%.
Considerando a margem de erro de dois pontos percentuais, Salles está tecnicamente empatado com Tebet, André do Prado e Derrite.
☉ Divergência com Eduardo Bolsonaro
Salles também explicou a discussão recente que teve com Eduardo Bolsonaro nas redes sociais. Embora tenha classificado o deputado como o mais preparado entre os filhos do ex-presidente, afirmou que Eduardo fragilizou sua posição contra a corrupção ao aceitar ser suplente de André do Prado.
“Dos filhos do Bolsonaro, acho o Eduardo o mais preparado. Mas ele fragilizou o discurso que sempre teve contra a corrupção quando aceitou ser suplente do André do Prado, pupilo do Valdemar Costa Neto, que personifica o centrão. Critiquei isso”, afirmou.
Segundo Salles, Eduardo respondeu acusando-o de ter se acovardado durante o debate sobre a anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro. O deputado do Novo rejeitou a crítica e voltou a mencionar uma declaração antiga de Eduardo sobre o Supremo Tribunal Federal.
“Eu procuro dizer coisas que têm fundamento, que eu possa sustentar. Não digo frase de impacto para depois ter que recuar, como ele com aquela história de ‘soldado e cabo para fechar o STF’”, declarou.
☉ Deputado afirma ter independência política
Ao ser questionado se também seria alvo da cobrança por “obediência absoluta”, Salles afirmou que possui independência financeira e não depende de mandatos para sobreviver.
“Tenho independência total, não preciso da política para nada. Gosto de política e fui para a vida pública por vocação, não por ausência de alternativa no setor privado”, disse.
Para ele, políticos que não possuem outras fontes de renda tendem a aceitar condições que rejeitariam em situações normais.
“Quando a pessoa não pode sobreviver fora da política e se dar ao luxo de eventualmente perder uma eleição, começa a aceitar e fazer coisas que em condições normais não faria ou aceitaria”, afirmou.
Salles disse ainda que pretende retomar a advocacia caso não seja eleito senador.
“Eu toco a minha vida na advocacia, não tem problema nenhum. Fui candidato três vezes antes de ser deputado federal, perdi e continuei na advocacia. Não preciso da política para viver. Não quero perder a eleição, mas se acontecer, faz parte. Fazer o quê?”, declarou.
☉ Salles responde a críticas sobre atuação na Câmara
A deputada Tabata Amaral (PSB-SP) afirmou que Salles não teve projetos aprovados durante o atual mandato. O ex-ministro respondeu dizendo que não aceita realizar determinadas concessões exigidas pelas negociações no Congresso.
“Para aprovar um projeto no Congresso, da forma como ele está, você tem que ceder em coisas que eu não estou disposto a ceder. Meus projetos foram apresentados e ficaram pelo caminho”, afirmou.
O deputado citou como resultados de sua atuação a relatoria da CPI do MST, a participação na PEC sobre drogas e uma emenda relacionada à castração química de condenados por crimes de pedofilia.
“Ou seja, ainda que eu não tenha projetos da minha autoria aprovados, há ações relevantes da minha autoria que puderam ser feitas sem negociar com a esquerda ou o centrão”, disse.
Salles admitiu que a negociação faz parte da política, mas afirmou ter resistência a acordos com grupos de esquerda ou do chamado centrão.
“É parte da política, mas tenho um pouco mais de rigidez nessa capacidade de transacionar ou de negociar com pessoas que têm posições muito diferentes das minhas, sejam porque são de esquerda, sejam porque são do centrão fisiológico”, afirmou.
☉ Críticas ao centrão e aos militares
Ao comentar a influência do centrão no Congresso, Salles disse que partidos desse campo deveriam aderir às propostas da direita, e não o contrário.
“O primeiro pressuposto é que eles devem aderir à nossa pauta, e não a direita se submeter à pauta do centrão. O centrão consegue cooptar votos com verbas, emendas, cargos, favores em comissões temáticas”, afirmou.
O deputado também criticou a escolha do general Luiz Eduardo Ramos para conduzir as negociações políticas durante o governo Bolsonaro.
“Quando nós éramos governo e a caneta estava na nossa mão, o ministro encarregado de negociação política, que era um general, era completamente inadequado para essa função. Você colocar general para negociar política é um desastre, como a maioria das coisas que eles fazem”, declarou.
☉ Nova candidatura à Prefeitura de São Paulo
Salles afirmou ainda que pode voltar a disputar a Prefeitura de São Paulo, mas apenas se não for eleito para o Senado.
“Se eu for eleito senador, não vou deixar o Senado para concorrer à prefeitura. Agora, se eu não for eleito senador, aí quem sabe?”, disse.
O parlamentar ensaiou uma candidatura à prefeitura em 2024, mas recuou depois que o PL, partido ao qual era filiado, decidiu apoiar a reeleição do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Advogado formado pela Universidade Mackenzie, Ricardo Salles foi ministro do Meio Ambiente entre 2019 e 2021, secretário estadual de Meio Ambiente de São Paulo entre 2016 e 2017 e fundador do movimento Endireita Brasil. Em 2022, foi eleito deputado federal com cerca de 640 mil votos, a quinta maior votação do estado.
Fonte: Brasil 247
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