Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, estuda mudanças que podem permitir a compra online de fuzis e a entrega do armamento na casa do comprador, sem comparecimento a uma loja física. A revisão integra uma agenda da Casa Branca para reverter regras que a gestão republicana atribui a supostas violações do direito de possuir e portar armas previsto na segunda emenda da Constituição dos EUA, podendo ser compradas por membros de facções criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
Após determinação da Casa Branca, o Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos apresentou, no fim de abril, 34 propostas de alteração na regulação do comércio de armas. Entre elas está a reversão de restrições adotadas no governo do ex-presidente Joe Biden, como a ampliação da exigência de licença para vendas, além da troca da checagem presencial de antecedentes por um procedimento digital.
Críticos das medidas afirmam que a facilitação do acesso a armas amplia riscos dentro dos EUA, onde tiroteios em escolas e espaços públicos são recorrentes, e também pode alimentar o tráfico internacional. A preocupação envolve facções brasileiras como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, que Trump declarou em maio como organizações terroristas internacionais, decisão contestada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Os EUA aparecem historicamente como uma das origens de armas usadas por facções no Brasil, embora especialistas e o Ministério da Justiça apontem avanço da produção clandestina nacional de fuzis. No fim de maio, a Receita Federal flagrou no Aeroporto de Viracopos um AK-47 enviado da Flórida, desmontado e escondido dentro de um forno; em março de 2024, o mesmo aeroporto apreendeu 30 fuzis desmontados e camuflados em mercadorias como prensas hidráulicas.
Especialistas veem risco em venda sem contato presencial
John Lindsay-Poland, coordenador do projeto Stop US Arms to Mexico, afirmou à BBC News Brasil que as mudanças propostas por Trump podem afetar o tráfico internacional.
“Uma das propostas especialmente preocupantes é permitir a venda e a entrega de armas pelos Correios, sem qualquer interação presencial entre vendedor e comprador, incluindo fuzis AR-15. O comprador pode ser qualquer pessoa que não tenha uma razão legítima para adquirir a arma nem a capacidade de utilizá-la”, disse.
Poland avalia que a classificação de PCC e CV como organizações terroristas não tende a alterar o combate ao envio ilegal de armas estadunidenses para esses grupos. Para ele, o problema está no tamanho e na permissividade do mercado civil de armas nos EUA, onde muitas transações suspeitas seguem legais e não geram consequência para quem vende o armamento mesmo quando ele termina nas mãos de organizações criminosas.
Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, disse que ainda não está claro se a designação das facções brasileiras como terroristas terá efeito prático sobre o fluxo de armas. “Será que, dentro desse esforço de classificação de organizações terroristas, haverá sanções a essas lojas da Flórida que aparecem com frequência em rastreamentos de armas que terminam no Brasil?”, questionou.

Exportações legais e apreensões no Brasil entram no debate
Matt Schroeder, pesquisador sênior da ONG suíça Small Arms Survey, afirma que o tráfico ilegal dos EUA para outros países movimenta dezenas de milhares de armas por ano. Ele descreve um método recorrente: organizações criminosas pagam pessoas sem antecedentes para comprar pequenas quantidades em lojas, passar pelas verificações e depois reunir os armamentos para envio ao país de destino.
Schroeder avalia que a facilitação das vendas domésticas pode não alterar de forma significativa um mercado que já permite compras legais com relativa facilidade, mas vê risco maior no afrouxamento de controles sobre exportações legais.
Em setembro de 2025, a administração Trump revogou restrições de Biden a exportações de armamentos civis para 36 países considerados sensíveis, incluindo Paraguai, Suriname, Colômbia e Peru; o Departamento de Comércio dos EUA justificou a medida como abertura de “centenas de milhões de dólares por ano em oportunidades de exportação” para a indústria armamentista.
Levantamento recente do Instituto Sou da Paz mostra que o Brasil apreendeu 2.152 fuzis em 2025, alta de 167% em relação a 2021. Em pesquisa anterior, o instituto analisou 3.119 fuzis apreendidos entre 2019 e 2023 e conseguiu identificar a origem de 1.701 deles: 738 eram dos EUA, 586 do Brasil e 377 de outros países.
Langeani também aponta efeitos da flexibilização de regras de compra de armas no governo de Jair Bolsonaro (PL), quando colecionadores, atiradores desportivos e caçadores puderam comprar fuzis e cada pessoa autorizada podia adquirir até 30 armas. Lula revogou as regras em 2023, mas quem comprou armas durante o período não precisou devolvê-las e ainda pode comprar munição para os fuzis, caminho que o pesquisador associa a possíveis desvios para facções.
No Ministério da Justiça e Segurança Pública, fábricas clandestinas são tratadas como a “principal dor de cabeça atual” no tráfico de armas, disse Michele dos Ramos, diretora de Ensino e Pesquisa da Secretaria Nacional de Segurança Pública.
Em Santa Bárbara d’Oeste, no interior de São Paulo, uma fábrica fechada pela Polícia Militar e pela Polícia Federal tinha capacidade de produzir 3,5 mil fuzis por ano; José Anchiêta Nery Neto, diretor de Operações Integradas e de Inteligência da Senasp, afirmou que armas clandestinas de menor durabilidade “servem perfeitamente para o combate urbano” e custam menos.
Fonte: DCM
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