terça-feira, 20 de outubro de 2026

Escritório de Flávio Bolsonaro faturou R$ 13,7 milhões e entrou na mira da PF

 Levantamento mostra pagamentos de advogados e empresas ao senador. Investigação apura suspeitas de conexão financeira com Willer Tomaz

Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro  - Crédito: Reprodução I Charles Vieira

O escritório de advocacia do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) emitiu pelo menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026, período em que ele exercia mandato parlamentar. Segundo investigação publicada pelo Uol, a Polícia Federal (PF) abriu um inquérito para examinar as movimentações financeiras da empresa, após identificar indícios de uma possível ligação bancária entre o senador e o advogado Willer Tomaz.

Foram examinados 62 documentos fiscais e identificou que aproximadamente metade deles envolve pagamentos de outros advogados. A maior parte dos registros apresenta apenas a descrição “assessoria jurídica”, sem especificar os serviços executados. Em consultas a tribunais estaduais, federais e superiores, o veículo encontrou somente um processo relacionado aos clientes identificados nas notas.

A ausência de processos judiciais não significa, por si só, irregularidade. Advogados também podem prestar consultoria, elaborar pareceres e oferecer orientação jurídica sem atuar diretamente em ações judiciais. A reportagem procurou os contratantes para esclarecer a natureza dos serviços, mas não obteve informações detalhadas sobre a maior parte das atividades.


⦾ Polícia Federal investiga movimentações financeiras

A Polícia Federal pretende examinar as transações da sociedade de advocacia em um inquérito que o Supremo Tribunal Federal (STF) abriu na semana passada, sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes. A investigação surgiu depois que os investigadores encontraram indícios de um possível compartilhamento de contas bancárias entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz, amigo do senador.

Segundo a PF, uma das contas do Santander identificadas nas notas fiscais teria ligação com a suspeita de titularidade compartilhada entre os dois. Flávio e Willer negam essa informação. Os documentos também indicam uma conta no Banco de Brasília (BRB) como destino de pagamentos ao escritório.

O senador já enfrenta outra investigação relacionada ao financiamento do filme Dark Horse, sob relatoria do ministro André Mendonça, do STF. Nesse procedimento, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) encaminhou informações sobre movimentações que envolveram uma empresa cliente do escritório.

A sociedade individual de advocacia começou suas atividades em 16 de abril de 2021. Flávio aparece como único titular, enquanto Letícia Caetano dos Reis ocupa a função de administradora. A empresa utiliza como endereço a mansão do parlamentar no Lago Sul, em Brasília, e não registra outros funcionários.

A administradora é irmã do contador Alexandre Caetano dos Reis, que a polícia prendeu em dezembro de 2025 por suspeita de participação nas fraudes contra o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A relação familiar, por si só, não demonstra envolvimento da empresa nas irregularidades investigadas.

A legislação permite que parlamentares mantenham atividades profissionais paralelas ao mandato, desde que respeitem determinadas restrições. No caso da advocacia, senadores não podem integrar a Mesa Diretora e exercer a profissão em causas que envolvam órgãos públicos, empresas estatais e autarquias.

⦾ Escritório ligado a indicado de Bolsonaro pagou R$ 4 milhões

Entre os contratantes, o escritório Nilo & Almeida Advogados Associados aparece como o maior cliente da banca de Flávio Bolsonaro. A sociedade tem como um dos integrantes o advogado Edvaldo Nilo de Almeida, que o ex-presidente Jair Bolsonaro nomeou para a Comissão de Ética Pública da Presidência em 2022.

Os documentos registram duas notas fiscais de R$ 2 milhões cada, emitidas em agosto e outubro de 2025. Juntas, elas correspondem a aproximadamente 29% do faturamento documentado do escritório do senador. Ambas apresentam a descrição “assessoria jurídica” e indicam uma conta no BRB para pagamento.

O advogado Edvaldo Nilo informou que os valores correspondem a um contrato firmado em abril de 2025. Segundo ele, os escritórios trabalharam conjuntamente para clientes particulares, sem participação de órgãos públicos ou utilização de recursos governamentais.

“Os serviços foram regularmente prestados conjuntamente pelos dois escritórios a clientes privados, em casos sem qualquer envolvimento de recursos públicos ou participação de entes federativos.”

O advogado não identificou os clientes atendidos nem detalhou os casos relacionados aos pagamentos. Ele afirmou que as partes encerraram o contrato depois da execução dos serviços.

O ex-integrante da Comissão de Ética Pública ocupa atualmente uma cadeira no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), por indicação da Câmara dos Deputados. O Senado aprovou sua recondução em novembro de 2025, depois da emissão das duas notas fiscais.

Em setembro de 2026, Edvaldo Nilo também declarou apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.

⦾ Fabricante de doces pagou R$ 3,3 milhões

A Simas Industrial de Alimentos ocupa a segunda posição entre os maiores clientes identificados na documentação. A fabricante de doces aparece em três notas fiscais, emitidas entre janeiro de 2023 e dezembro de 2024, que totalizam R$ 3,3 milhões.

O senador recebeu uma procuração para representar a companhia depois que uma disputa societária chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), em 2022. O advogado Willer Tomaz também participou da atuação jurídica relacionada à empresa.

Entre os registros examinados, o processo da Simas foi o único que a reportagem conseguiu associar diretamente aos pagamentos documentados.

O Coaf também encaminhou ao inquérito da operação Dark Horse uma comunicação do Banco Daycoval sobre duas transferências da fabricante de doces para a sociedade de advocacia do senador. O material passou a integrar a apuração sob responsabilidade do ministro André Mendonça.

⦾ Advogado próximo a ministro do STF aparece entre os clientes

Duas sociedades de advocacia associadas ao nome de Otto Medeiros também constam da documentação, com pagamentos que alcançam R$ 2,1 milhões. Os registros mostram cobranças recorrentes de R$ 50 mil durante 2023 e 2024, reduzidas para R$ 40 mil a partir de 2025.

O advogado Otto Medeiros mantém relação de amizade com o ministro Kassio Nunes Marques, do STF, indicado ao tribunal por Jair Bolsonaro. O magistrado declara impedimento em processos que envolvem o advogado, que também já atuou em ações ao lado de Karine Nunes Marques, irmã do ministro.

O escritório de Otto informou que contratou a sociedade de Flávio para serviços de consultoria jurídica no setor privado. A banca afirmou que adota critérios profissionais para estabelecer parcerias.

“Todas as nossas parcerias são definidas com base em critérios técnicos, levando-se em consideração a experiência e competência profissional de cada escritório. Esse é o caso do contrato com Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia.”

Outro nome identificado nos documentos é o advogado Daniel Bettamio Tesser, integrante da defesa de Jair Bolsonaro. Os registros relacionados ao seu escritório somam R$ 970 mil entre dezembro de 2025 e março de 2026, também sob a descrição de assessoria jurídica.

A reportagem procurou a banca de Tesser para obter esclarecimentos sobre os serviços, mas não recebeu resposta até a publicação do levantamento.

⦾ Documentos também citam empresa que recebeu milhões do Banco Master

A investigação jornalística identificou ainda notas fiscais relacionadas à Copenhagen Assessoria e Consultoria, empresa que recebeu R$ 57,9 milhões do Banco Master, de Daniel Vorcaro, entre 2024 e 2025.

O escritório de Flávio emitiu duas notas de R$ 500 mil para a Copenhagen em 7 de abril de 2025, mas cancelou os dois documentos. Dois dias depois, emitiu outra nota de R$ 500 mil, dessa vez para a Contábil Correa Contabilidade & Auditoria.

A última nota permaneceu válida. A Contábil Correa tem como sócio-administrador Rogério Lourenço Novo, que também exerce a função de diretor da Copenhagen.

Os registros mostram uma relação comercial documentada entre o escritório do senador e empresas associadas por um dirigente comum. As informações apresentadas não demonstram que o Banco Master tenha realizado pagamentos diretamente à sociedade de Flávio.

⦾ Empresário do setor de energia também contratou senador

O empresário Marcos Antonio Grecco, fundador do GNPW Group, integra a relação de clientes. O grupo mantém parceria empresarial com a Evolution Power Partners, que conquistou R$ 17 bilhões em contratos no leilão emergencial de energia de 2021, durante o governo Jair Bolsonaro.

O empresário enfrentou uma ação de improbidade administrativa no Amapá, relacionada à transferência do controle de uma concessão ferroviária. A Justiça arquivou o caso em julho de 2022.

Grecco confirmou que contratou Flávio Bolsonaro em 2024 para atuar em um processo judicial particular. Ele afirmou que o serviço não teve relação com os leilões de energia nem com as atividades da GNPW.

“Conheci e contratei o advogado Flávio Bolsonaro no ano de 2024 para atuar em um processo judicial no qual eu era parte. A atuação ocorreu formalmente, com procuração juntada aos autos, e não possui nenhuma relação com leilões de energia ou com a GNPW”, afirmou.

O empresário também questionou a divulgação dos documentos e sustentou que o eventual vazamento de informações protegidas por sigilo fiscal e bancário pode motivar providências judiciais.

Entre os pagamentos de menor valor, o levantamento identificou uma nota de R$ 239 mil relacionada ao escritório Leonardo Amarante Advogados Associados. A banca informou que contratou pareceres jurídicos e realizou o pagamento mediante apresentação de documento fiscal.

Segundo o escritório, os pareceres foram “devidamente entregues e remunerados mediante apresentação de nota fiscal, seguindo a praxe das relações entre escritórios profissionais de direito”. A sociedade também alegou que o sigilo profissional protege o conteúdo dos trabalhos.

⦾ Lula cobrou abertura de contas durante debate

As informações sobre o faturamento da sociedade de advocacia surgem em meio à disputa presidencial entre Flávio Bolsonaro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Durante o debate promovido pela Band no último domingo, Lula desafiou o adversário a abrir suas contas.

Embora a atuação do senador como advogado já fosse conhecida, o levantamento apresenta documentos fiscais e valores que ainda não haviam sido divulgados publicamente. A apuração também identifica os principais contratantes e as relações profissionais registradas no período.

A campanha de Flávio Bolsonaro para obter esclarecimentos sobre o faturamento, os serviços prestados e as movimentações financeiras. Até a publicação da reportagem, o senador não havia respondido aos questionamentos.

A PF deverá examinar as transações no âmbito do inquérito sob relatoria de Alexandre de Moraes. A investigação busca esclarecer os indícios de conexão financeira entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz, hipótese que ambos contestam.

Fonte: Brasil 247 com informações do UOL

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