sexta-feira, 23 de outubro de 2026

De Queiroz ao STJ: como Flávio Bolsonaro chegou à defesa de PM réu por matar Ana Clara

 Senador foi recrutado para facilitar acesso a ministros do STJ e tentar impedir que policial acusado pela morte de Ana Clara fosse levado a júri popular

    Ana Clara e Flávio Bolsonaro - Crédito: Reprodução/Redes sociais | Carlos Moura/Agência Senado

A participação de Flávio Bolsonaro (PL) na defesa de um policial militar acusado de matar Ana Clara Gomes Machado, de apenas 5 anos, envolveu articulações junto a ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ausência de cobrança de honorários e uma ligação anterior com o advogado de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador. O objetivo era impedir que o cabo Bruno Dias Delaroli, réu por homicídio qualificado, fosse submetido ao Tribunal do Júri pela morte da criança, atingida por um disparo de fuzil durante uma operação policial em Niterói, no Rio de Janeiro.

Segundo reportagem do jornal O Globo, Flávio passou a integrar a equipe de defesa em abril de 2024, a convite do advogado criminalista Paulo Márcio Ennes Klein. A escolha levou em consideração não apenas sua formação jurídica, mas também sua condição de senador e a possibilidade de obter acesso aos ministros do STJ. A atuação do parlamentar, que não recebeu honorários, consistiu principalmente em acompanhar o advogado em reuniões com magistrados para apresentar os argumentos favoráveis ao policial.


O caso ganhou repercussão nacional na reta final da disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro. Durante o debate realizado pela Band no último domingo, Lula questionou a participação do adversário na tentativa de evitar que o acusado pela morte de uma criança fosse julgado por um júri popular.

Flávio reagiu afirmando que o presidente estava criminalizando o exercício da advocacia e antecipando uma condenação contra um acusado que ainda não havia sido julgado. A controvérsia colocou no centro da campanha tanto a atuação profissional do senador quanto as circunstâncias da morte de Ana Clara.

⦾ Ligação com advogado de Queiroz abriu caminho para atuação de Flávio

A entrada de Flávio Bolsonaro no processo ocorreu por intermédio de Paulo Márcio Ennes Klein, presidente do Instituto Família Policial, organização voltada à assistência jurídica de integrantes das forças de segurança.

Os dois já mantinham uma relação profissional anterior. Klein havia participado da defesa de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro investigado no caso das suspeitas de rachadinha no gabinete do parlamentar quando ele exercia mandato de deputado estadual no Rio de Janeiro.

De acordo com a reportagem, Flávio havia demonstrado interesse em atuar na advocacia criminal. Quando o processo envolvendo Bruno Dias Delaroli chegou ao STJ, Klein decidiu convidá-lo para integrar a defesa.

A estratégia jurídica buscava afastar a acusação de homicídio doloso, sustentada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ). Os advogados pretendiam obter a desclassificação do crime para homicídio culposo, hipótese em que não há intenção de matar, e transferir o julgamento para a Justiça Militar.

Para isso, a defesa argumentava que o policial havia reagido a disparos de traficantes durante uma operação e que a morte da criança ocorrera nesse contexto.

O papel atribuído a Flávio era especialmente relacionado à interlocução com os magistrados. Enquanto Klein elaborava recursos e realizava sustentações orais, o senador participava de visitas a gabinetes de ministros, nas quais os advogados defendiam a tese de que Bruno não havia assumido o risco de provocar a morte de Ana Clara.

A formalização da entrada de Flávio no processo ocorreu em 10 de abril de 2024, um dia depois de a Quinta Turma do STJ rejeitar, por três votos a dois, um recurso apresentado pela defesa.

Na ocasião, os ministros Ribeiro Dantas, Joel Ilan Paciornik e Reynaldo Soares da Fonseca votaram contra a pretensão dos advogados. Messod Azulay Neto e Daniela Teixeira divergiram. A decisão majoritária teve fundamentos processuais e não representou um julgamento sobre a culpa do policial.

Os documentos examinados pelo jornal não permitem determinar se Flávio havia mantido contatos com ministros antes dessa decisão. Sua participação formal teve início no dia seguinte ao julgamento.

⦾ Tentativa de impedir júri popular foi rejeitada pela Justiça

Apesar da atuação junto ao STJ, a defesa não conseguiu impedir que Bruno Dias Delaroli fosse submetido ao Tribunal do Júri.

Em outubro de 2024, Klein apresentou um novo pedido de habeas corpus ao tribunal, dessa vez sem a assinatura de Flávio Bolsonaro. O recurso foi rejeitado por unanimidade em abril de 2025.

Os advogados recorreram posteriormente ao Supremo Tribunal Federal (STF), mas a ministra Cármen Lúcia também rejeitou a pretensão. A decisão foi confirmada pela Primeira Turma da Corte.

Em agosto de 2025, tornou-se definitiva a determinação de levar o policial a julgamento pelo Tribunal do Júri.

Assim, a estratégia de defesa que contou com a participação do senador não produziu o resultado pretendido. A responsabilidade criminal de Bruno, entretanto, ainda deverá ser examinada no julgamento, uma vez que a decisão de submetê-lo ao júri não equivale a uma condenação.

⦾ Menina de 5 anos foi atingida por tiro de fuzil durante operação

A morte de Ana Clara Gomes Machado ocorreu em 2 de fevereiro de 2021, na comunidade do Monan Pequeno, no bairro do Badú, em Niterói.

Naquela manhã, a criança brincava com o irmão Pedro, então com 2 anos, na entrada da residência da família, enquanto policiais militares do 12º Batalhão realizavam uma operação na região.

Os agentes afirmaram que haviam sido recebidos a tiros por criminosos e reagido ao ataque. Essa versão, porém, foi contestada por moradores e por elementos reunidos durante a investigação.

Ana Clara foi atingida por um projétil de fuzil calibre 7,62 milímetros. O disparo atravessou seu braço direito, atingiu o tórax e provocou lesões na aorta e nos pulmões. A menina sofreu uma hemorragia interna e morreu após ser encaminhada ao Hospital Estadual Azevedo Lima.

Segundo a denúncia do Ministério Público, um dos policiais repreendeu Bruno Dias Delaroli ao perceber que a criança havia sido baleada.

“Olha a merda que você fez”, teria dito o agente, repetindo a frase diversas vezes.

O documento não identifica qual dos outros integrantes da equipe, o cabo William Pereira Trindade ou o soldado Leonardo Maia Santos, fez a reprimenda.

A investigação apontou inconsistências na versão apresentada pelos militares. A viatura utilizada na operação não apresentava marcas de disparos, e os peritos não encontraram estojos de munição de pistola, embora Bruno tivesse afirmado que criminosos armados com esse tipo de equipamento haviam atacado a equipe.

No local, foram identificados apenas estojos de munição de fuzil calibre 7,62 milímetros, compatíveis com as armas utilizadas pelos policiais.

Os investigadores também localizaram vestígios no ponto indicado por uma testemunha, além de uma mancha de sangue diante da residência, correspondente ao lugar onde a menina foi atingida.

A mãe, a tia e outros dois moradores negaram que tivesse ocorrido um confronto armado.

O Ministério Público apontou ainda a suspeita de que os policiais retornaram ao local para recolher estojos de munição. Diante dos depoimentos e das evidências, os promotores solicitaram a apuração de possíveis crimes de fraude processual e falso testemunho envolvendo os três integrantes da equipe.

Para a acusação, Bruno disparou em direção a uma área residencial apesar dos alertas de moradores sobre a presença de civis.

O promotor Marcelo Abramovitch sustentou que o policial assumiu o risco de matar, circunstância que caracteriza o chamado dolo eventual e fundamenta a acusação de homicídio doloso.

Bruno foi preso e permaneceu detido até 18 de novembro de 2021, quando recebeu autorização judicial para responder ao processo em liberdade, mediante medidas cautelares.

A soltura ocorreu após solicitação de Klein e manifestação favorável do Ministério Público. Flávio Bolsonaro não participou desse procedimento, pois somente ingressaria na defesa mais de dois anos depois.

⦾ Julgamento foi adiado para 2027

Outro episódio que provocou questionamentos durante a campanha presidencial foi o adiamento do julgamento do policial, inicialmente previsto para 21 de outubro de 2026.

A sessão foi transferida para 5 de maio de 2027, o que levantou suspeitas de que a mudança pudesse estar relacionada à repercussão eleitoral do caso.

Entretanto, uma decisão judicial obtida por O Globo aponta que o adiamento ocorreu por incompatibilidade na agenda da magistrada responsável pelo processo, e não por solicitação da defesa.

Em 5 de agosto, a juíza Nearis dos Santos Carvalho Arce dos Santos, titular da 3ª Vara Criminal de Niterói, informou que havia sido convocada para atuar como desembargadora substituta na 8ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

A magistrada precisaria participar, como relatora, de uma sessão por videoconferência marcada para as 13h de 21 de outubro, coincidindo com a data e o horário previstos para o júri.

Diante da impossibilidade de participar dos dois compromissos, decidiu remarcar o julgamento para o ano seguinte.

Enquanto aguarda a sessão, Bruno Dias Delaroli permanece vinculado à Polícia Militar, mas não exerce atividades de policiamento ostensivo. Atualmente, desempenha funções administrativas no quartel do 12º BPM, em Niterói.

Segundo Klein, o policial também está impedido de portar arma.

Antes de ser preso, Bruno cursava Odontologia, mas abandonou a graduação após o início do processo criminal. Atualmente, está noivo de uma dentista e auxilia na administração do consultório da companheira.

Fonte: Brasil 247

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