Responsável jurídica pela campanha do senador, Maria Cláudia Bucchianeri recebeu pagamentos por serviços advocatícios que não foram detalhados publicamente
A advogada Maria Cláudia Bucchianeri, responsável pela área jurídica da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), recebeu R$ 33 milhões em 2025 de um fundo de investimentos cujo cotista não tem a identidade divulgada publicamente. Os pagamentos foram realizados por serviços advocatícios, mas a natureza específica dos trabalhos não foi esclarecida pela profissional.
As informações foram reveladas pelo jornalista Demétrio Vecchioli, em reportagem publicada na coluna do Metrópoles. Segundo a apuração, os recursos foram transferidos pelo V3 Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios Multicarteira, uma estrutura financeira fechada que possui apenas um cotista, classificado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) como investidor não residente.
O fundo é administrado pela QI Corretora de Títulos e Valores Mobiliários, anteriormente denominada Singulare CTVM, e gerido pela Vision Brazil. A identidade do beneficiário final não é pública, em razão das regras de proteção de informações aplicáveis ao mercado financeiro brasileiro.
Os R$ 33 milhões destinados à Bucchianeri Advocacia foram registrados em três notas fiscais emitidas ao longo de 2025. Uma delas corresponde, individualmente, a mais de R$ 29,4 milhões. Nos documentos, a descrição dos serviços prestados se limita à expressão “honorários advocatícios”, sem especificar quais atividades justificaram os valores.
A reportagem também identificou que o escritório não aparece como prestador de serviços jurídicos no regulamento do fundo ou em outros documentos disponíveis publicamente. Além disso, foram examinados dois processos judiciais públicos que envolviam o V3 e estavam ativos em 2025, sem que fossem encontradas petições assinadas pela Bucchianeri Advocacia.
A ausência desses registros, entretanto, não comprova irregularidade nos pagamentos, uma vez que serviços jurídicos também podem ser prestados em procedimentos privados ou protegidos por sigilo.
⦾ Advogada de Flávio Bolsonaro defende legalidade dos pagamentos
Procurada pelo Metrópoles, Maria Cláudia Bucchianeri afirmou que os valores recebidos correspondem a trabalhos profissionais legítimos e que as obrigações tributárias foram cumpridas.
“A nota emitida contra o fundo V3 deriva de serviços advocatícios regularmente prestados, à título exclusivamente privado, com todos os recolhimentos tributários respectivos”, declarou.
A advogada também contestou a interpretação de que a inexistência de registros públicos de sua atuação para o fundo levantaria suspeitas sobre a contratação.
“A ausência de indicação do nome deste Escritório de Advocacia ‘em documentos públicos do fundo’ não indica absolutamente nada, pois o fundo é exclusivamente privado e a grande maioria das informações e processos são submetidos ao sigilo”, argumentou.
Maria Cláudia é especialista em direito eleitoral e exerceu o cargo de ministra substituta do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) entre 2021 e 2023. Sua indicação ocorreu durante o governo do então presidente Jair Bolsonaro (PL), pai de Flávio Bolsonaro.
Atualmente, ela ocupa uma posição estratégica na campanha do senador à Presidência da República, sendo responsável pela condução jurídica da candidatura.
⦾ Escritório também emitiu R$ 27 milhões em notas ligadas à Itaminas
A investigação jornalística também recuperou outra operação financeira envolvendo a advogada. Em 28 de junho de 2024, seu escritório emitiu notas fiscais que somavam R$ 27 milhões contra a mineradora Itaminas.
A data coincide com a assinatura, pelo banqueiro Daniel Vorcaro, da versão final do documento de aquisição da empresa.
Diferentemente dos registros relacionados ao fundo V3, as notas fiscais referentes à Itaminas apresentavam informações mais detalhadas, incluindo o número de um processo associado aos serviços prestados.
Na ocasião, Bucchianeri explicou que os honorários correspondiam a atividades de advocacia contenciosa em Brasília e de consultoria jurídica e administrativa relacionadas à renegociação de uma transação fiscal.
Segundo a profissional, os serviços beneficiaram o grupo Itaminas, que reúne mais de duas dezenas de empresas e o Instituto Inhotim.
O valor de R$ 27 milhões, somado aos R$ 33 milhões recebidos do fundo V3, representa R$ 60 milhões em notas fiscais relacionadas às duas operações identificadas pela reportagem.
Não há, nas informações apresentadas, comprovação de que os pagamentos tenham sido destinados à campanha de Flávio Bolsonaro ou de que as duas operações possuam relação entre si.
⦾ Bucchianeri nega relação profissional com Daniel Vorcaro e o Banco Master
Ao comentar os pagamentos realizados pela Itaminas, Maria Cláudia Bucchianeri afirmou que mantém uma relação profissional com a família Paz, ligada à empresa, desde 2019.
Segundo sua explicação, a transferência do controle societário da mineradora levou à reorganização de obrigações financeiras acumuladas com fornecedores e prestadores de serviços.
“A Bucchianeri Advocacia presta serviços à ‘família Paz’ e às suas empresas desde 2019 e já emitiu não uma, mas diversas notas fiscais por serviços advocatícios regularmente prestados”, afirmou.
A advogada acrescentou que o escritório possuía créditos referentes a trabalhos realizados ao longo de vários anos, que foram renegociados durante a reorganização financeira da companhia.
“Os honorários em aberto, acumulados em anos de atuação e sem relação com a operação de venda, foram renegociados e consolidados, o que originou os pagamentos mencionados pela reportagem”, explicou.
Ela também negou qualquer vínculo profissional com Daniel Vorcaro, com o Banco Master ou com empresas e fundos associados ao banqueiro.
“A Bucchianeri Advocacia segue prestando serviços regulares à ‘Família Paz’ e às suas empresas e esclarece que jamais prestou serviços ao Banco Master, a Daniel Vorcaro ou a qualquer empresa ou fundo de seu ecossistema”, declarou.
Fonte: Brasil 247 com informações do Metrópoles
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