Investigação sobre o Comando C4 apura suspeitas de ataques a autoridades, homicídios sob encomenda e vínculo com atos antidemocráticos
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), passou a relatar a investigação sobre o Comando C4, grupo suspeito de cobrar por ações de espionagem contra autoridades e por homicídios sob encomenda. A apuração mira uma organização que se autodenominava “Caça Comunistas, Corruptos e Criminosos” e foi identificada pela Polícia Federal durante investigações relacionadas ao assassinato do advogado Roberto Zampieri, em Cuiabá, e a um suposto esquema de venda de decisões judiciais, segundo a Folha de São Paulo.
O caso estava sob relatoria do ministro Cristiano Zanin, mas parte do material foi enviada a Moraes a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR). O objetivo é anexar as informações aos inquéritos das Fake News e das Milícias Digitais, usados pelo STF nos últimos anos para investigar ataques às instituições, ameaças à Suprema Corte e atos antidemocráticos.
A conexão apontada pela PGR está na suspeita de que o Comando C4 mantinha relação com movimentos bolsonaristas que estimulavam indisciplina militar e animosidade contra os Poderes. Segundo a apuração, o grupo teria atuado não apenas na propagação de discurso radicalizado, mas também na organização de ações de monitoramento e possíveis ataques contra agentes públicos.
Em manifestação feita em março, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirmou que as investigações indicavam a existência de uma estrutura com características paramilitares. “As investigações acerca das condutas do grupo ‘Comando C4’ no âmbito do eixo de doutrinação ideológica revelaram não apenas a propagação de discursos de animosidade contra os Poderes Constitucionais, mas também a estruturação de uma organização paramilitar voltada a atentar contra a integridade de agentes públicos”, disse Gonet.
O procurador-geral também sustentou que os fatos poderiam estar ligados a uma ofensiva contra a ordem democrática. “Tais atos integrariam uma ofensiva sistemática destinada a desestabilizar as instituições democráticas e fomentar um estado de insurgência contra a ordem estabelecida. Os eventos parecem guardar conexão com os fatos investigados, em âmbito mais abrangente, sobre condutas atentatórias à Suprema Corte, o Inquérito n. 4.781 [Fake News], além da prática de infrações criminais atentatórias ao Estado Democrático de Direito, investigadas no Inquérito n. 4.874 [Milícias Digitais].”
A primeira menção pública ao Comando C4 ocorreu durante uma operação da Polícia Federal autorizada por Zanin, que resultou no cumprimento de mandados de prisão contra cinco pessoas. À época, os investigadores afirmaram que o grupo, formado por militares da ativa e da reserva, teria se dedicado à “prática de crimes graves, especialmente espionagem e homicídios sob encomenda”.
Entre os documentos apreendidos pela PF, havia anotações com valores supostamente cobrados para ações contra diferentes tipos de alvo. Segundo a investigação, os registros mencionavam R$ 50 mil para atuar contra “figuras normais”, R$ 100 mil contra deputados, R$ 150 mil contra senadores e R$ 250 mil contra “ministros/Judiciário”.
O ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD-MG) apareceu nas anotações de uma das pessoas investigadas sob o tópico “vigilância armada”. Também havia referências aos ministros Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin, embora, segundo a apuração, sem contexto suficiente para que os investigadores determinassem exatamente do que se tratava.
A Polícia Federal aponta como líder do Comando C4 o coronel reformado do Exército Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas, preso durante a operação. Além da suspeita de chefiar o grupo, ele também integraria a Frente Ampla Patriótica (FAP), organização que, segundo os investigadores, foi usada até 2023 para disseminar discursos ultraconservadores, estimular animosidade contra os Poderes Constitucionais e incentivar a indisciplina militar.
Para a PGR, os projetos ligados aos grupos de Caçadini incluíam ações cibernéticas e monitoramento físico de autoridades entre 2022 e 2023. Na avaliação do órgão, a atuação do grupo unia capacidade operacional e interesse financeiro, com suposta monetização de “missões” criminosas.
A defesa de Caçadini foi procurada pela Folha de São Paulo, mas não se manifestou. Em manifestação anterior, os advogados afirmaram que confiam “nas autoridades e somos contra qualquer ataque contra nossas autoridades e contra o Estado democrático de Direito”.
Em maio, o Ministério Público de Mato Grosso denunciou Caçadini e outras oito pessoas pelo homicídio do advogado Roberto Zampieri. A denúncia foi aceita pela Justiça em junho, tornando os acusados réus no caso.
Zampieri foi assassinado dentro de um carro, com dez tiros, em frente ao próprio escritório, em Cuiabá. No celular da vítima, os investigadores encontraram mensagens trocadas com desembargadores, empresários e um lobista apontado como intermediário em negociações envolvendo decisões judiciais com servidores do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e de outras cortes.
A remessa da parte da investigação ao gabinete de Moraes amplia o alcance da apuração sobre o Comando C4 e insere o caso no conjunto de inquéritos que investigam ameaças às instituições democráticas, ataques ao Judiciário e articulações de grupos extremistas contra autoridades públicas.
Fonte: Brasil 247 com informações da Folha de S. Paulo
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