quinta-feira, 9 de julho de 2026

Faria Lima detona participação de Flávio Bolsonaro em audiência sobre tarifaço nos EUA



“O impacto para a candidatura de Flávio é péssimo”, afirma um analista do mercado financeiro

Flávio Bolsonaro durante audiência do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR)
Crédito: Divulgação

A atuação de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em audiência sobre tarifa dos Estados Unidos foi avaliada como inócua e frustrante por empresários, gestores e analistas do mercado financeiro, que esperavam uma defesa mais técnica dos interesses comerciais brasileiros diante da ameaça de novas sobretaxas de 25% sobre produtos importados do Brasil, segundo informou o jornal O Globo.

A participação do senador e pré-candidato à Presidência na audiência pública do governo norte-americano, realizada no âmbito do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), decepcionou setores privados que aguardavam argumentos econômicos mais consistentes contra o chamado ‘tarifaço’.

A expectativa entre empresários e representantes de segmentos afetados era que Flávio apresentasse dados sobre comércio bilateral, impactos sobre cadeias produtivas, custos para consumidores e eventuais prejuízos a empresas dos próprios Estados Unidos. Segundo relatos feitos ao jornal, porém, o discurso acabou assumindo tom mais político do que técnico.

Empresários ouvidos sob condição de anonimato classificaram a fala como “ruim” e afirmaram que o senador abordou o tema das tarifas de maneira superficial. Em cerca de cinco minutos de manifestação, Flávio Bolsonaro mencionou temas como corrupção no Brasil, o sistema de pagamentos Pix e o uso de cartões de crédito. O Pix está entre os pontos questionados pelo governo norte-americano, sob o argumento de que o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos afetaria empresas de bandeiras de cartões dos Estados Unidos.

Ao tratar das tarifas, o senador argumentou que o momento seria inadequado para a adoção da medida, citando o calendário eleitoral brasileiro. Segundo ele, o país terá eleições presidenciais em outubro e o quadro político poderá se alterar em 90 dias. “Impor agora uma tarifa que seria difícil de reverter — premiando aqueles que são responsáveis pelas ações em questão e punindo aqueles que suportaram suas consequências — seria o pior momento possível para agir”, afirmou Flávio Bolsonaro.

No mercado, a leitura predominante foi a de que o argumento eleitoral dificilmente terá peso relevante em uma decisão do USTR, órgão responsável por formular e coordenar a política comercial dos Estados Unidos. A avaliação é que, apesar de eventuais erros nos dados usados pelo governo norte-americano, a tramitação tem caráter técnico e tende a considerar principalmente informações apresentadas por empresas, associações setoriais e especialistas.

Daniel Teles, sócio da Valor Investimentos, afirmou que o rito da audiência permite a participação de diferentes interessados, incluindo associações empresariais, técnicos, companhias e representantes políticos. Para ele, Flávio tentou aproveitar o calendário eleitoral para se colocar como interlocutor com Washington.

“Ele sinaliza que ter um bom relacionamento com o governo americano pode ser bom para o Brasil, caso ele ganhe as eleições. Mas acho que o impacto da participação é pequeno. Não acredito que ele vai persuadir o USTR mais do que empresas, que estão levando dados e fatos. Mas também não atrapalha. Eu diria que é neutra a participação”, avaliou.

Paulo Bittencourt, estrategista-chefe da MZM Wealth, também classificou como neutro o efeito institucional da fala do senador no processo comercial. Para ele, a pressão exercida por empresas norte-americanas tende a ter mais peso do que a intervenção política de um parlamentar brasileiro.

“Nem ajuda, nem prejudica, considerando o âmbito da sessão 301. Surte mais efeito a pressão que as empresas americanas estão fazendo para não taxar o país. Mas o impacto para a candidatura de Flávio é péssimo”, afirmou o analista.

Bittencourt disse ainda que Flávio Bolsonaro assumiu para si a responsabilidade de tentar resolver um tema complexo e acabou produzindo material que poderá ser explorado por adversários na disputa presidencial.

“Se não havia certeza que um ato dele poderia se converter num benefício político para a campanha, então que não fizesse. Isso vai acabar sendo usado contra. Tenho ouvido na Faria Lima avaliações, diante disso, que a candidatura de Flávio pode não crescer entre novos eleitores”, declarou.

O economista e ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega também minimizou a capacidade de influência da participação de Flávio Bolsonaro sobre a decisão do USTR. Para ele, o órgão não deve rever uma medida comercial apenas com base no argumento de que o Brasil terá eleições em breve.

“Não tem impacto a participação dele. A proposta do Flávio, que é o adiamento das tarifas, não deve ser acolhida pelo USTR, que é um órgão técnico, que se baseou num estudo, ainda que com erros, para impor essas tarifas ao Brasil. Esse órgão não vai tomar uma decisão de comércio importante apenas porque vai acontecer uma eleição no Brasil”, disse Maílson.

O ex-ministro ponderou, no entanto, que o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem histórico de imprevisibilidade e citou que ele “até na Copa do Mundo interferiu”. Ainda assim, Maílson avaliou que a movimentação pode se transformar em um problema político para Flávio, caso as tarifas sejam efetivamente aplicadas.

A preocupação entre interlocutores do mercado é que, se o tarifaço for associado a um embate político interno do Brasil, o governo Lula poderá reforçar o discurso de defesa da soberania comercial e dos setores produtivos nacionais. Nesse cenário, a oposição — e especialmente Flávio Bolsonaro — poderia ser responsabilizada politicamente por eventuais danos a exportadores, empregos e preços.

Fonte: Brasil 247 com informações do jornal O Globo

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