Relatório descreve pagamentos mensais de R$ 1 milhão, consultas indevidas a sistemas e atuação de grupo armado ligado ao Banco Master
Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apontado pela PF como "sicário" de Daniel Vorcaro (Foto: Divulgação)
Um relatório da Polícia Federal enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) aponta que o banqueiro Daniel Vorcaro teria pago ao menos R$ 24 milhões a Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apontado pelos investigadores como seu “sicário”, por uma série de serviços ilícitos. As informações foram reveladas pelo jornal Estado de S. Paulo, que teve acesso ao documento da investigação.
Segundo a apuração, Mourão teria sido remunerado para executar atividades como invasão de sistemas de investigação, ameaças a adversários e derrubada de conteúdos desfavoráveis ao Banco Master nas redes sociais. A defesa de Vorcaro e a de Mourão, de acordo com a reportagem original, não se manifestaram.
A investigação descreve uma estrutura clandestina que, segundo a PF, operava com pagamentos regulares e divisão de tarefas voltadas à proteção dos interesses de Vorcaro. Mourão foi preso na Operação Compliance Zero, deflagrada na semana passada, mas cometeu suicídio na cela da Superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais.
◉ Pagamentos mensais e cálculo da PF
De acordo com o relatório, o valor de R$ 24 milhões foi estimado com base no controle mensal de despesas de Vorcaro. Nas planilhas de contabilidade apreendidas pela investigação, o nome do “sicário” aparecia vinculado a um pagamento fixo de R$ 1 milhão por mês ao longo de 2024 e 2025.
A Polícia Federal registrou no documento: “É plausível inferir que Sicário pode ter recebido no mínimo R$ 24 milhões, tendo em vista que estava incluído na lista de despesas mensais para receber R$ 1 milhão por mês e que estes pagamentos perduram pelos anos de 2024 e 2025”.
A conclusão da PF sugere não apenas a existência de repasses sistemáticos, mas também a manutenção de um aparato paralelo de atuação, com funções específicas e alto custo operacional. Para os investigadores, os registros contábeis reforçam a suspeita de que a rede não agia de forma esporádica, mas com método, previsibilidade e estrutura profissionalizada.
◉ Consulta à Interpol e menção ao FBI
Um dos episódios mais graves descritos pela investigação ocorreu em outubro de 2025, quando Vorcaro, já receoso de se tornar alvo direto da Polícia Federal, pediu a Mourão que verificasse se havia alguma ordem de prisão em seu nome nos sistemas da Interpol, a organização internacional de polícia criminal.
Segundo os diálogos extraídos do celular de Vorcaro, Mourão acionou um contato para realizar a consulta e encaminhou ao banqueiro uma imagem da tela do sistema. Na conversa, escreveu: “A Interpol está limpa”.
Na mesma troca de mensagens, Mourão acrescentou: “Estamos aguardando o relatório principal do FBI”. A referência ao Departamento Federal de Investigação dos Estados Unidos amplia o alcance e a gravidade do caso, ao sugerir preocupação de Vorcaro com possíveis desdobramentos internacionais.
A mensagem também aparece como um dos elementos mais sensíveis do material recolhido pela PF, porque indica, segundo a linha investigativa, o uso de acessos indevidos ou de rede de contatos para obtenção de informações sigilosas. O teor do diálogo reforça a suspeita de que havia uma engrenagem montada para monitorar riscos judiciais e policiais enfrentados pelo banqueiro.
◉ Serviços ilícitos sob demanda
A reportagem mostra que Vorcaro encomendava diretamente os serviços a Mourão por meio de conversas no WhatsApp. A dinâmica revelada pelos investigadores sugere um canal permanente entre o banqueiro e o operador encarregado de executar ações sensíveis.
Entre as atribuições atribuídas ao “sicário” estavam práticas que, segundo a PF, extrapolavam qualquer limite legal e alcançavam áreas como intimidação, espionagem e manipulação de ambiente digital. Os investigadores descrevem um padrão de atuação orientado a neutralizar adversários, conter danos reputacionais e antecipar movimentos de órgãos de investigação.
Nesse contexto, Mourão não apareceria apenas como intermediário, mas como peça central de uma estrutura voltada à realização de “práticas violentas”, nas palavras da própria investigação reproduzidas pela reportagem. Sua função, segundo o material apreendido, envolvia tanto a execução direta de tarefas quanto o acionamento de terceiros.
◉ O papel de Marilson Roseno e de “A Turma”
A PF também identificou a atuação de um escrivão de polícia federal aposentado, Marilson Roseno da Silva, apontado como integrante do braço armado da organização criminosa. De acordo com os investigadores, ele era acionado por intermédio de Mourão e teria participado de atividades de monitoramento de adversários e obtenção de informações sobre investigações.
Nas conversas analisadas, Marilson aparecia como o responsável por organizar “A Turma”, descrita pela Polícia Federal como uma espécie de milícia subordinada a Vorcaro. A estrutura, segundo o relatório, receberia valores que depois seriam repartidos entre quatro integrantes.
A PF afirma: “O grupo denominado A Turma, que era liderado pelo policial federal Marilson Roseno da Silva, pode ter recebido R$ 9,6 milhões para ratear entre os integrantes”.
Ainda de acordo com a investigação, não foi possível destrinchar completamente esses repasses até o momento. Por isso, a PF ainda não conseguiu determinar, por exemplo, se parte dos valores destinados a “A Turma” saía diretamente dos pagamentos vinculados ao “sicário” ou se havia outras fontes internas de financiamento dentro da estrutura apontada.
A reportagem informa que não conseguiu contato com a defesa de Marilson.
◉ Estrutura sob investigação
O conjunto das informações reunidas pela Polícia Federal aponta para a existência de uma engrenagem que combinava vigilância, acesso indevido a informações, intimidação e atuação digital coordenada. O relatório enviado ao STF indica que os pagamentos a Mourão e ao grupo ligado a Marilson não seriam fatos isolados, mas elementos de uma rede com funções complementares.
A investigação ainda está em andamento, o que significa que novos detalhes sobre o destino dos recursos, a cadeia de comando e a extensão das operações ilegais podem surgir nos próximos desdobramentos. O que já aparece com clareza no material obtido pelo jornal Estado de S. Paulo, no entanto, é a dimensão financeira e operacional do esquema atribuído a Vorcaro e seus operadores.
O caso também chama atenção pelo perfil dos personagens envolvidos e pelo nível de sofisticação descrito pela PF. A menção a consultas em sistemas internacionais, o monitoramento de adversários e a formação de um grupo tratado como milícia privada colocam a investigação em um patamar de elevada gravidade institucional.
Se confirmadas ao longo do processo, as suspeitas lançam luz sobre um modelo de atuação clandestina que teria sido mantido com repasses milionários, operadores especializados e uso de estruturas paralelas para proteger interesses privados à margem da lei.
Fonte: Brasil 247
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