Jornal britânico diz que os Bolsonaro têm “estilo paranoico de política” e que derrota de Flávio seria “o fim da Era Bolsonaro”
A revista de fim de semana do tradicional jornal britânico Financial Times publicou uma extensa reportagem de capa detalhando as dinâmicas internas, os escândalos e os desdobramentos políticos em torno do clã Bolsonaro. A publicação, que também ocupou a manchete do site do veículo ao longo do dia, faz uma comparação direta entre os Bolsonaros e a família do presidente norte-americano Donald Trump, destacando que os brasileiros incorporam um estilo político “paranoico”, oscilando entre o conservadorismo e o caos na busca pelo poder.
A matéria do periódico britânico é assinada pelo jornalista Michael Pooler e recebe o título “Scandal and succession in the House of Bolsonaro” (“Escândalo e sucessão na Casa dos Bolsonaro”). O texto contextualiza o momento político brasileiro lembrando que Jair Bolsonaro (PL) encontra-se preso por conspirar para um golpe de Estado, em uma trama não realizada que incluía planos para assassinar o presidente Lula (PT). A situação levou Flávio Bolsonaro (PL) à disputa eleitoral para tentar consolidar uma dinastia política da extrema-direita.
Ao longo de suas páginas, a reportagem mapeia os integrantes da família a partir de depoimentos obtidos com fontes ouvidas pela revista. Jair Bolsonaro é retratado como um demagogo da extrema-direita e líder de um movimento populista conservador com apelo religioso. O texto rememora as mais de três décadas de Jair no Congresso como um legislador extremista e exótico, citando episódios em que ele defendeu a tortura, elogiou a ditadura militar e atacou colegas parlamentares, como a declaração dita à deputada Maria do Rosário de que não a estupraria porque ela “não merecia”. Também são destacadas sua má gestão durante a pandemia de Covid-19, ao tratar a doença como “gripezinha” e promover tratamentos ineficazes, além do avanço no desmatamento da Amazônia durante seu governo.
A reportagem toma como ponto de partida para abordar a disfuncionalidade do grupo um vídeo publicado por Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama, no qual ela acusa Flávio de humilhá-la publicamente em meio a uma disputa do PL sobre alianças políticas. A manifestação escancarou um racha duradouro no seio familiar. A relação de Michelle com Flávio e Eduardo Bolsonaro é definida por fontes ouvidas pela publicação como fria e civilizada, enquanto o contato com Carlos Bolsonaro é nulo. A ex-primeira-dama é descrita como uma cristã devota, de infância humilde e que vendeu laranjas na infância, servindo como uma “arma secreta” durante o mandato de Jair. Para enfatizar o distanciamento familiar, a matéria cita o pastor Silas Malafaia, que declarou: “Uma madrasta não é parente. Eles não partilham do mesmo sangue”.
Os outros filhos de Jair Bolsonaro também foram analisados pela publicação internacional. Flávio Bolsonaro é apresentado como o autointitulado “Bolsonaro moderado” ou “Bolsonaro vacinado”, que tenta se equilibrar entre manter o espólio do pai e apresentar um novo projeto político, ainda que enfrente rejeição do setor empresarial e da centro-direita, que preferiam um nome sem o sobrenome considerado tóxico, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). A reportagem expõe ainda sérias gafes na campanha de Flávio, citando que o senador solicitou dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, preso e centro de um escândalo de fraude financeira. A solicitação visava financiar o filme Dark Horse, uma produção sobre Jair Bolsonaro que recebeu ao menos US$ 12,3 milhões do empresário. Flávio também foi classificado como “traidor da pátria” por governistas após divulgar uma foto com Donald Trump no Salão Oval poucos dias antes de os Estados Unidos aplicarem tarifas comerciais contra o Brasil.
Carlos Bolsonaro é caracterizado pelo jornal britânico como o “pit bull da família”, responsável por uma atuação agressiva nas redes sociais e que possui o rosto de Jair tatuado no braço. O texto lembra que Carlos ingressou na política aos 17 anos a pedido do pai para disputar a Câmara Municipal do Rio de Janeiro no ano 2000 após um desentendimento familiar. Por sua vez, Eduardo Bolsonaro é apontado como o filho que mais se assemelha ao pai em termos de estilo ideológico. Descrito como surfista e entusiasta de armas, Eduardo é creditado pelas conexões com o clã Trump. No entanto, por estar residindo no Texas, ter sido cassado do Congresso e correr o risco de ser preso se retornar ao Brasil, a publicação o considera fora do cenário sucessório.
No campo das perspectivas eleitorais, o Financial Times aborda também a figura do presidente Lula, caracterizando-o como um ex-sindicalista com amplo apelo popular que prioriza o combate à desigualdade social através de auxílios e valorização do salário mínimo. O jornal calcula que, caso Flávio Bolsonaro seja vitorioso na disputa eleitoral, a primeira medida da dinastia será pressionar o Congresso por uma anistia ampla aos envolvidos na tentativa de golpe e aos condenados pelos atos de 8 de Janeiro. Nesse cenário, o periódico faz uma observação sobre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, apontando que, em uma reviravolta irônica, o mesmo juiz que prendeu Jair poderia, por trâmites legais, acabar fornecendo a chave para a sua libertação.
Por outro lado, o veículo aponta que uma eventual derrota de Flávio decretaria o fim da “Era Bolsonaro”, abrindo espaço para uma direita mais moderada e sugerindo uma possível atenuação da polarização política no país ao longo da próxima década.
Fonte: Brasil 247
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