terça-feira, 11 de agosto de 2026

Tarcísio tenta “esconder” Bolsonaro nas redes durante campanha

 Levantamento mostra que governador de São Paulo trocou referências ao ex-presidente por temas como gestão, família, segurança e obras

Tarcísio de Freitas - Crédito: Carla Carniel/REUTERS

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), reduziu de forma significativa as menções a Jair Bolsonaro em suas redes sociais na campanha estadual de 2026, em contraste com a eleição de 2022, quando sua candidatura esteve fortemente associada ao ex-presidente e ao bolsonarismo. A informação é de levantamento da consultoria Bites, realizado a pedido do jornal O Globo, com base em publicações feitas por Tarcísio no X, Facebook, Instagram e TikTok. 

Os dados indicam uma mudança de estratégia: o governador passou a privilegiar temas de gestão e valores, como São Paulo, segurança, trabalho, família e realizações de governo.

Entre janeiro e julho deste ano, as palavras mais usadas por Tarcísio nas redes foram “São Paulo”, com 687 menções; “gente”, com 422; “história”, com 254; “direção”, com 246; “segurança”, com 240; “trabalho”, com 230; e “famílias”, com 211. Em 2022, o cenário era diferente: além do próprio nome do então candidato, apareciam com destaque termos diretamente ligados à campanha bolsonarista, como “Bolsonaro”, citado 990 vezes, e “@jairbolsonaro”, mencionado 438 vezes.


A alteração no discurso ganhou contornos mais claros no debate da Band, realizado no domingo (9), quando Tarcísio reagiu às repetidas menções de Fernando Haddad (PT) a Bolsonaro. Durante uma discussão sobre contas públicas, pandemia, tarifaço americano e propostas do governo Lula, o petista citou o ex-presidente para criticar a gestão anterior.

“Você está muito focado em Bolsonaro, Bolsonaro, você não está concorrendo com o Bolsonaro, isso foi em 2018, já passou”, disse Tarcísio.

Haddad respondeu com uma provocação direta: “Você tem vergonha do Bolsonaro?”

O governador negou rompimento com o ex-presidente. “Não tenho vergonha não, tenho gratidão. Um abraço Bolsonaro, vou agradecer sempre ao que você fez na minha vida”, afirmou.

Apesar da declaração no debate, os dados das redes mostram que o governador tem adotado uma comunicação menos dependente da figura de Bolsonaro. Segundo a reportagem, aliados e analistas veem no movimento uma tentativa de Tarcísio construir maior autonomia política, sobretudo diante da possibilidade de disputar o Palácio do Planalto em 2030.

A escolha das palavras usadas nas redes não ocorre ao acaso. De acordo com um integrante da campanha ouvido pela reportagem, os termos são definidos com base em pesquisas internas diárias, conhecidas como trackings. A lógica foi reproduzida também no discurso da convenção do Republicanos, na semana passada, quando Tarcísio reforçou expressões que aparecem com frequência em suas publicações.

“Fizemos muito, sem dúvida, mas temos muito mais para fazer. E aí a gente precisa fazer uma reflexão. Olha tudo o que nós fizemos: o maior programa de habitação da história, a maior quantidade de cirurgias da história, os menores indicadores criminais da história, o maior programa de infraestrutura da história, a maior expansão do metrô da história”, disse o governador.

Nos bastidores, aliados avaliam que Tarcísio passou a ter mais liberdade depois de ser deixado de lado na corrida presidencial de 2026, com o anúncio de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como pré-candidato. Desde então, o governador tem buscado se apresentar como gestor e destacar entregas no estado.

Entre os projetos usados para sustentar essa narrativa estão obras de metrô, o novo centro administrativo do governo paulista e a universalização do saneamento básico, prevista para 2029. A avaliação de aliados é que, se reeleito, Tarcísio poderá chegar a 2030 com um legado próprio para apresentar.

Isso não significa, porém, um rompimento com a direita ou com o bolsonarismo. Um secretário ouvido pela reportagem afirmou que o governador mantém uma “distância segura”, sem se afastar completamente do campo político que o ajudou a vencer a eleição de 2022. No debate da Band, Tarcísio também não citou Flávio Bolsonaro em nenhum dos quatro blocos.

Para o cientista político Marco Antonio Teixeira, da Fundação Getúlio Vargas, Tarcísio já demonstra força própria em relação ao bolsonarismo, especialmente porque sua posição na disputa paulista seria mais robusta do que a de Flávio Bolsonaro na corrida presidencial.

“Se a gente for medir pelo voto, a intenção de votos que o Tarcísio tem à reeleição é maior do que a intenção de voto que o Flávio tem à Presidência da República. Então, se o Flávio é a expressão do bolsonarismo, Tarcísio está maior que o bolsonarismo, sim”, afirmou o professor.

Teixeira pondera, no entanto, que uma eventual vitória sobre Haddad, mesmo no primeiro turno, não transformaria automaticamente Tarcísio em candidato competitivo à Presidência em 2030. Para isso, segundo ele, o governador teria de ampliar alianças nacionais.

“Então, se ele quiser lograr sucesso político, ele vai ter que fazer uma aproximação com o Centrão. Isso ele já tem, não seria um problema. Mas ele não pode, com a estatura que ele tem, submeter as decisões dele à decisão de Jair Bolsonaro e família. Além disso, ele terá que se aproximar do (Gilberto) Kassab. Para ele ter uma projeção nacional, Tarcísio depende de aliança política com outros partidos. E hoje o partido que pode dar mais sustentação para ele é o PSD”, afirmou Marco Antonio Teixeira.

Fonte: Brasil 247  com informações do jornal O Globo

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