Jornal britânico afirma que crise entre Michelle e Flávio Bolsonaro enfraquece pré-campanha e dificulta estratégia para conquistar eleitorado feminino
A crise entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro ganhou repercussão internacional e passou a ser vista como mais um obstáculo para a pré-campanha presidencial do parlamentar. Segundo reportagem publicada pelo Financial Times, o episódio evidencia uma antiga divisão dentro da família Bolsonaro e representa um novo revés para um projeto eleitoral que já enfrentava dificuldades após o escândalo envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
O jornal britânico afirma que a disputa pública entre Michelle e seu enteado expõe a "desarmonia" daquilo que classificou como a "realeza política de direita do Brasil". De acordo com a publicação, Flávio Bolsonaro chegou a aparecer empatado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em pesquisas de intenção de voto, mas perdeu força depois de "alguns deslizes", entre eles a revelação de sua ligação com Vorcaro, preso sob acusação de fraude bilionária no Banco Master.
Para o Financial Times, o conflito familiar surge justamente em um momento decisivo para a estratégia eleitoral do senador. A publicação destaca que Michelle Bolsonaro se consolidou como uma das principais lideranças do campo conservador, especialmente entre mulheres e evangélicos, segmentos considerados fundamentais para ampliar o alcance da candidatura de Flávio além do núcleo tradicional do bolsonarismo.
Segundo o jornal, analistas avaliam que os vídeos divulgados por Michelle são "desastrosos" para a campanha porque reforçam uma percepção negativa sobre Flávio perante o eleitorado feminino. A publicação afirma que a controvérsia projeta uma imagem de comportamento "sexista", justamente quando a equipe do senador buscava reduzir a rejeição entre as mulheres e evitar que a imagem do ex-presidente Jair Bolsonaro contaminasse a candidatura do filho.
Outro ponto destacado pelo periódico britânico é que a crise ocorre enquanto Jair Bolsonaro tenta reorganizar sua força política para as eleições presidenciais. Para o FT, o episódio também revela uma aparente resistência de Michelle em assumir papel de destaque na campanha do enteado, apesar das pressões internas para que ela participasse mais ativamente da pré-campanha.
O jornal ressalta ainda o peso político conquistado pela ex-primeira-dama ao longo dos últimos anos.
"Embora Jair Bolsonaro continue sendo o líder supremo dos conservadores brasileiros, sua esposa emergiu como uma importante figura política. Michelle lidera a ala feminina do Partido Liberal e é cotada como possível candidata ao Senado. Cristã devota e fluente em Libras, ela conta com forte apoio entre o crescente número de mulheres evangélicas no Brasil", destaca a reportagem.
☉ Pré-campanha vê impacto sobre eleitorado feminino
Segundo O Globo, integrantes da pré-campanha de Flávio Bolsonaro avaliam reservadamente que o episódio atingiu um dos principais eixos da estratégia eleitoral construída desde o início do ano.
Pesquisas internas vinham orientando o senador a ampliar sua presença entre as mulheres, que representam a maioria do eleitorado brasileiro. A pesquisa Genial/Quaest divulgada neste mês apontou Lula com 41% das intenções de voto entre as mulheres, enquanto Flávio aparece com 24%. No cenário geral, a diferença é de 39% para 29%.
Nesse contexto, Michelle Bolsonaro era considerada uma peça importante da campanha por sua influência junto ao eleitorado feminino e evangélico. Desde 2023, ela preside o PL Mulher e percorreu o país fortalecendo diretórios estaduais e formando novas lideranças dentro do partido.
Um aliado ouvido pelo jornal resumiu a preocupação afirmando que o episódio atingiu justamente um eleitorado que Flávio "não pode perder de jeito nenhum".
Além das mulheres, a campanha também monitora o comportamento do segmento evangélico. Na semana passada, o pastor Robson Rodovalho declarou, em entrevista à newsletter Jogo Político, do O Globo, que "o evangélico perdeu a confiança em Flávio por não falar a verdade sobre Vorcaro", em referência aos áudios divulgados envolvendo pedidos de recursos para a produção de um filme sobre Jair Bolsonaro.
☉ Michelle relata desentendimento com Flávio
No vídeo de aproximadamente 27 minutos, Michelle Bolsonaro afirmou que foi desrespeitada pelo senador durante uma conversa telefônica e voltou a criticar o apoio do PL ao ex-ministro Ciro Gomes no Ceará.
"Ele (Flávio) foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou no telefone. Eu não tinha feito nada contra ele. Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política", declarou.
Poucas horas depois, Flávio Bolsonaro respondeu publicamente às acusações e negou ter tratado a madrasta de forma desrespeitosa.
"Casado há 16 anos, pai de duas filhas maravilhosas e nunca desrespeitei, maltratei ou humilhei uma mulher na vida", afirmou o senador.
Segundo aliados citados por O Globo, Flávio ficou irritado com a repercussão do vídeo e alegou ter sido surpreendido pela divulgação. Ainda assim, optou por adotar um discurso conciliador, pedindo desculpas a Michelle e convidando-a para participar de um evento voltado ao público feminino.
Posteriormente, Michelle publicou mensagem nas redes sociais afirmando que "não tem raiva de ninguém" e que "não há briga nem competição", sinalizando disposição para reduzir a tensão pública.
☉ Reações dividem aliados do bolsonarismo
A crise também provocou diferentes reações entre lideranças alinhadas ao bolsonarismo.
O deputado licenciado Eduardo Bolsonaro compartilhou a manifestação da esposa de Flávio, Fernanda Bolsonaro, que descreveu o senador como "um homem leve, carinhoso, restaurado e um pai dedicado às duas filhas".
Já parlamentares como Alexandre Ramagem, Mario Frias e André Fernandes divulgaram o comunicado de Flávio em defesa do senador.
Do lado de Michelle, a senadora Damares Alves afirmou que a ex-primeira-dama foi "verdadeira, firme, serena e esclareceu tudo".
"Ela foi verdadeira, firme, serena e esclareceu tudo. Esperou meses tudo ser resolvido e não deram nenhum passo em direção a ela. Mas acho que agora é possível um diálogo", declarou.
A governadora do Distrito Federal, Celina Leão, também manifestou apoio à ex-primeira-dama nas redes sociais.
O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, informou que pretende conversar pessoalmente com Michelle e Flávio para tentar conter a crise.
"Assim que falar pessoalmente com os dois irei me manifestar publicamente, mas já adianto que admiro a coragem dos que defendem aquilo que acreditam. O PL segue focado em retirar esse governo que está aí e devolver o Brasil aos brasileiros, e nada será capaz de nos tirar desse foco", afirmou em nota.
Fonte: Brasil 247
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