segunda-feira, 29 de junho de 2026

Nísia Trindade: “Fui pressionada desde que assumi o Ministério da Saúde”

Ex-ministra relata bastidores da pandemia, critica o negacionismo e defende fortalecimento do SUS

           Nísia Trindade (Foto: Reprodução Youtube)

A ex-ministra da Saúde Nísia Trindade afirmou que sofreu pressões “desde que assumiu” o comando da pasta e associou parte das críticas ao fato de ser mulher à frente de um dos ministérios mais importantes do país. A declaração foi feita em entrevista ao programa Conversas com Hildegard Angel, da TV 247.

Ao comentar sua saída do governo Lula, Nísia disse ter sido alvo de cobranças constantes e, muitas vezes, desrespeitosas. Eu fui exposta desde que assumi o Ministério da Saúde de uma forma muitas vezes desrespeitosa”, afirmou. Segundo ela, havia críticas de que sua gestão seria “muito técnica” e deveria ser “mais política”.

A ex-ministra destacou que o gênero pesou no tratamento recebido. “O fato de eu ser mulher é um fator importantíssimo”, disse. “Muitas vezes, pessoas me criticavam me chamando pelo nome e não como ministra, como aconteceu em audiências na Câmara Federal. Coisa que você não vê em geral em relação a ministro homem.”

Nísia afirmou que trabalhou até o último dia no cargo e que cabia apenas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidir sobre sua permanência. “Trabalharei até o momento em que o presidente da República disser que eu não sou mais ministra. Até lá, estarei trabalhando”, relatou.

Na entrevista, a ex-ministra também fez um balanço da pandemia de Covid-19 e da atuação da Fiocruz durante a crise sanitária. Ela afirmou que a resposta do governo Jair Bolsonaro foi marcada por negacionismo, desinformação e desprezo pela vida. “O que faltou ao Brasil foi que o governo assumisse a importância e a seriedade do que estava acontecendo”, declarou.

Nísia lembrou que o país perdeu cerca de 715 mil vidas para a Covid-19 e afirmou que parte dessas mortes poderia ter sido evitada com coordenação nacional, vacinação acelerada, uso de máscaras e proteção social. “Nós poderíamos ter pelo menos 300 mil vidas salvas com a vacina, mas também com a proteção das máscaras e com ações coordenadas do Ministério da Saúde em todo o Brasil.”

A ex-ministra rejeitou a ideia de que tenha havido um projeto explícito de extermínio, mas afirmou que a política adotada pelo governo Bolsonaro “levou à morte” por irresponsabilidade. “Eu não vi indícios para afirmar um projeto de extermínio, mas houve um total desprezo pela sociedade, pela vida e pelos seres humanos.”

Nísia também ressaltou o papel da Fiocruz e do Instituto Butantã na vacinação contra a Covid-19. Segundo ela, os dois laboratórios públicos foram decisivos para garantir o início da imunização no Brasil. A ex-ministra afirmou que a vacina da Fiocruz, em parceria com Oxford/AstraZeneca, salvou vidas e fortaleceu a soberania nacional em saúde.

A entrevistada criticou ainda a desestruturação do Programa Nacional de Imunizações durante o governo anterior. Em sua avaliação, a retomada da vacinação foi um dos principais resultados de sua gestão. Ela citou a recuperação das coberturas vacinais infantis e a volta do Zé Gotinha como símbolo da reconstrução do Ministério da Saúde.

“Eu consegui recuperar essa capacidade de coordenação junto a todo o Sistema Único de Saúde”, afirmou. “O Programa Nacional de Imunizações foi nosso primeiro grande resultado.”

Nísia também defendeu o fortalecimento da produção nacional e regional de vacinas, medicamentos e insumos, especialmente no Sul Global. Para ela, a pandemia mostrou que a dependência externa pode comprometer a resposta dos países em momentos de crise. “A questão da soberania era um ponto muito sensível”, disse.

A ex-ministra avaliou que o mundo ainda não está suficientemente preparado para novas emergências sanitárias, apesar dos avanços científicos. Ela citou guerras, cortes em programas de saúde e a saída dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde como fatores de preocupação.

Ao comentar o livro Ainda há tempo, Nísia afirmou que a obra nasce de um compromisso com a memória da pandemia e com a defesa da saúde pública. “Ainda há tempo para construirmos juntos um futuro com mais saúde, preparado para enfrentar as emergências do nosso tempo e com democracia.”

No fim da entrevista, Nísia confirmou que é pré-candidata a deputada federal pelo PT do Rio de Janeiro. Filiada ao partido desde março, ela disse que pretende levar ao Congresso a pauta da ciência, da saúde pública, da democracia e da redução das desigualdades.

“Meu compromisso maior é contribuir para a redução das desigualdades sociais no Brasil e pela saúde pública”, afirmou. “Quero somar, me juntar a outras mulheres e homens, mas precisamos ter mais mulheres no Congresso.”

Fonte: Brasil 247

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