Nascida em Caixa D’Água, bairro periférico de Olinda, em Pernambuco, ao lado de Aguazinhas e Peixinhos, Vitória Genuíno tem 30 anos e sofreu com as enchentes e a pobreza de onde ela veio. Hoje é a primeira mulher negra Secretária Nacional da Juventude.
Formada em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), Vitória afirma que é uma “filha do Fies”, do financiamento estudantil público em instituições privadas, e das políticas públicas dos governos Lula e Dilma. Mãe de menina desde 2022, sua carreira mudou com o envolvimento com os integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, o MTST.
Vitória Genuíno conversou com o DCM de Porto Alegre, durante as atividades com o Ministro-Chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos.
Confira a conversa.
Diário do Centro do Mundo: Como você descobriu o MTST?
Vitória Genuíno: Fiz Direito na Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Na época, a gente estava trabalhando com a possibilidade de desenvolver uma assessoria jurídica popular para trabalhadores informais no Recife.
Venho de um bairro de Olinda que se chama Caixa d’Água. É um local da periferia, assim como outros bairros como Aguazinha, Peixinhos, que sofrem uma série de dificuldades e falta de infraestrutura para os menos favorecidos.
Em Pernambuco, a gente sofre muito com enchente lá. E esses bairros localizados ao redor do território sofrem ainda mais. A minha trajetória de construção da luta em si passa pelo movimento estudantil na universidade.
Minha mãe atuava em sindicato, mas não de uma forma tão direta.
Lá na Universidade Católica é um tipo de universidade que a gente chama de comunitária, mas é uma universidade privada e eu cursei direito através do FIES. Sou uma mulher negra e uma filha do FIES.
Foi na universidade que você fez parte do Movimento Muda?
Isso, o Coletivo Muda é um coletivo de estudantes de direito. Participei, depois de fazer parte de iniciativa de calouros, do Diretório Acadêmico Fernando de Santa Cruz. Isso fez eu me envolver no movimento estudantil e a tocar os debates junto com os companheiros na época.
Outro movimento que você fez parte, além do Muda, foi uma estrutura de nacionalização do MTST que é o Fogo no Pavio. Você pode falar um pouquinho do seu trabalho lá?
No movimento estudantil eu conheço o MTST. Foi assim que eu participei da primeira ocupação no estado do Pernambuco em 2017, a Carolina Maria de Jesus. A partir disso, a gente começa também a articular a juventude do movimento no estado e outras juventudes que existem pelo país.
A gente, enquanto movimento de luta por moradia, entendeu a necessidade e a importância de articular o máximo de todos os grupos de juventude pelo país. A grande parte das pessoas sem teto, ainda hoje, são mulheres e jovens.
Fui destacada dentro do movimento para tocar essa nacionalização. O MTST entende a importância dessa nacionalização da juventude e da luta pela juventude de forma mais concreta.
A gente inicia esse movimento da Fogo no Pavio de forma mais nacionalizada.
Como é que foi essa experiência da UNE? Você, nesse processo todo, conheceu o trabalho do Boulos e o trabalho de outros núcleos do MTST?
Tive alguns contatos com Guilherme Boulos antes, mas ativamente foi dividindo esse espaço de coordenação nacional. No Fogo no Pavio reunimos essa juventude sem teto que estava na universidade privada.
Defendemos a universidade pública, gratuita e universal para todo mundo, mas tem uma realidade de uma gama de jovens trabalhadores que estudam nas universidades privadas. Eles têm o debate em torno de permanência, da qualidade da educação, como você consegue trabalhar e estudar.
Depois da Fogo no Pavio e da UNE, você fez parte da coordenação da Caravana nas Periferias, um projeto da Secretaria Nacional das Periferias do Ministério das Cidades. Lá você encaminhou projetos de preservação de risco em periferias de diversos estados. Queria te perguntar, nesse projeto que envolveu diferentes estados, já no começo de governo Lula, se você atuou na periferia de Olinda e como é que foi um pouco desse trabalho?
Eu tive a honra de acompanhar Guilherme Simões, o primeiro secretário nacional de periferias. Acho que é importante destacar que essa secretaria tem um trabalho muito legal. É uma demanda histórica dos movimentos de luta por moradia, movimentos sociais.
Debatemos a urbanização de favela com a comunidade. Então, o secretário Guilherme, na época, fez a discussão em torno do risco dos mais periféricos.
Em Caixa d’Água, de onde eu vim, quando ocorreram as enchentes, o poder público só tira as pessoas do local. Esse debate fica muito a nível municipal, no máximo no estadual. Precisamos tirar o risco do local e não as pessoas do seu território.
Fizemos a caravana das periferias, ideia de rodar todo o país para falar das ações do Ministério das Cidades e para construir as estratégias de diminuição desses riscos para as comunidades e diretamente com os moradores.
Com Guilherme Simões, em Olinda, realizamos três anos de construção com algumas obras que foram iniciadas nas barreiras em torno. A Secretaria Nacional de Periferias atua diretamente com essa prevenção.
Você está com 30 anos. Em 2022 se tornou mãe. Como é que foi conciliar movimento social, atuação política, trabalho, tudo junto?
É um desafio. A maternidade é um desafio por si só. Mas acho que é muito importante. A gente vive um país muito violento, com recorde de feminicídios. Acho que o exemplo que eu quero deixar para a minha filha é a luta que faço pelas nossas vidas.
Sendo mãe de menina, esse é um compromisso que eu tenho. De estar presente, de teimar e de estar presente nas construções sociais.
Você, em 2024, coordenou a campanha da vereadora Jô Cavalcanti, que é a única parlamentar do PSOL na vereança em Recife. Como está a situação ai e como é que foi coordenar uma campanha bem sucedida de uma vereadora que se firmou como parlamentar do PSOL sendo também periférica?
Jô é a única mulher negra vereadora da Câmara Municipal do Recife. Conheço Jô. Ela era trabalhadora informal e vendia capinha de celular na Conte da Boa Vista, que é uma avenida bem importante da cidade do Recife.
E ela se torna a primeira deputada sem teto. Ela foi a nossa primeira parlamentar do movimento social numa chapa coletiva que chamava Juntas Co-deputadas. Ela tem uma trajetória de luta incrível e é uma referência para mim.
Tive essa honra de coordenar a campanha dela para se tornar vereadora e ela saiu vitoriosa. Fui chefe de gabinete durante um ano.
Quando Guilherme Boulos se torna ministro de Lula, ele fez esse convite para dirigir a Secretaria de Juventude como um espaço importantíssimo. Meu trabalho agora precisa ampliar o governo Lula e chegar em jovens que normalmente não acessam política pública de juventude.
Temos objetivo de rodar o país e falar da secretaria e atingir essa juventude que precisa de política pública. O ministro Boulos é uma inspiração, uma referência e sempre foi. E, no cargo, enquanto ministro, traz dinâmica, resistência e força para rodar o país.
A principal ação é estar no território. Estou aqui falando com você do Rio Grande do Sul, porque a gente está com o governo do Brasil na rua aqui. Acho que já chegamos no vigésimo estado em nossas viagens.
Isso demonstra um pouco de como é a articulação do nosso ministro. Há novas políticas que o governo está fazendo junto aos motoboys.
Você acha que o povo está dentro do governo federal? Como é que você enxerga isso enquanto pessoa periférica, enquanto pessoa preta, enquanto pessoa pobre dentro desses espaços de poder?
Quando a gente fala de Jô Cavalcanti, por exemplo, acho que o parlamento é um mau exemplo disso. A única mulher negra na Câmara Municipal do Recife. Sou a primeira secretária mulher negra na Secretaria Nacional de Juventude.
Precisamos ocupar os espaços. Acho que tem muita coisa ainda para melhorar, mas o governo Lula tem essa perspectiva com a criação do Ministério dos Povos Indígenas, o Ministério de Igualdade Racial, vários planos em torno da construção de política para as pessoas negras, para a juventude negra, principalmente.
E é importante conhecer as ações da Secretaria Nacional de Juventude. A gente lançou alguns programas bem legais. Vozes Periféricas é um edital voltado para batalhas de rima, saraus e slams.
E lançamos também o Juventude Solidária. Foi um pedido do presidente Lula e a gente conseguiu colocar na rua que é uma plataforma de voluntariado, conectando organizações, movimentos que produzem ações sociais nos territórios e jovens que queiram se voluntariar.
Tem que conversar com o jovem que hoje nega a política, que está insatisfeito com as instituições. E esse tem sido também o nosso desafio, como chegar nessa juventude.
Fonte: DCM
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