Documento técnico detalha uso de servidores, veículos e possível fraude em intervenção exibida nas redes sociais do prefeito de Sorocaba
Um relatório técnico elaborado por servidores do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) de Sorocaba aponta que a suposta criação de um “buraco fake” utilizado como cenário para um vídeo do prefeito Rodrigo Manga custou ao menos R$ 19,7 mil aos cofres públicos. As informações foram reveladas pelo g1 Sorocaba e Jundiaí.
O documento, que será encaminhado ao Ministério Público, detalha a mobilização de uma estrutura considerável para a ação: 15 funcionários da autarquia, sete veículos — incluindo caminhão-pipa, retroescavadeira e caminhão de aterro — além da participação de duas empresas terceirizadas, responsáveis por serviços de drenagem e recomposição do asfalto.Segundo os servidores responsáveis pelo dossiê, há indícios de irregularidades graves na execução do serviço. O material cita possíveis práticas como falsidade ideológica em registros oficiais, emissão de ordens de serviço inconsistentes, prevaricação de gestores, desvio de finalidade e até dano ao erário.
O caso ganhou repercussão após a divulgação de um vídeo nas redes sociais do prefeito, em que ele aparece diante de uma obra pública, com máquinas e equipes do Saae, em um formato típico de prestação de contas. A gravação, com cerca de 19 segundos, ultrapassou milhões de visualizações e reforçou a imagem de Manga como o chamado “prefeito tiktoker”.De acordo com o relatório, a intervenção exibida no vídeo pode não ter correspondido a uma demanda real. Um dos pontos levantados é que não havia sinais prévios de problemas na via, como vazamento de água, esgoto ou afundamento do solo. Imagens registradas antes da obra indicariam que a rua estava em condições normais.
Além disso, o documento aponta inconsistências nos registros oficiais, como o uso de fotos idênticas para ilustrar o “antes” e o “depois” do suposto reparo e divergências quanto à localização da intervenção. Há também registros indicando que o problema relatado não seria de responsabilidade do Saae.Outro aspecto que chamou a atenção foi a rapidez da execução do serviço. Um morador da região relatou estranheza com a situação e afirmou que a equipe permaneceu parada aguardando a chegada do prefeito. “A gente vê uma equipe ficar parada meio período, [...] e não é o procedimento padrão que a gente vê aí do Saae”, disse.
O mesmo morador também questionou a agilidade da intervenção. “Eu tive um problema que eles levaram um mês para resolver. E agora, no mesmo dia virem, abrirem o buraco e fecharem, isso é algo inédito, né?”, afirmou. Servidores da autarquia também levantaram suspeitas sobre a operação. “Não havia absolutamente nada. Foi feito para justificar essa demanda. Se verificar no GPS das equipes, vai ver que nunca estiveram todas as equipes na mesma ocorrência em tão pouco tempo”, declarou um funcionário, sob condição de anonimato.
O relatório ainda menciona riscos envolvidos na intervenção, destacando que o buraco aberto poderia conter esgoto, com potencial de contaminação biológica e presença de gases tóxicos, como metano e sulfeto.Diante das denúncias, a Prefeitura de Sorocaba informou que prestará esclarecimentos ao Ministério Público, caso seja acionada. Em nota, reiterou que a abertura da vala ocorreu para manutenção em rede de esgoto, incluindo a substituição de uma abraçadeira danificada, e que o serviço seguiu os protocolos internos da autarquia.
O Ministério Público do Estado de São Paulo informou que, até o momento, não há atualizações sobre o andamento das denúncias. Já o Ministério Público do Trabalho declarou estar ciente do caso, mas afirmou não ter recebido denúncias formais relacionadas a possíveis irregularidades trabalhistas.O episódio levanta questionamentos sobre o uso de recursos públicos e a eventual utilização de estruturas administrativas para produção de conteúdo voltado às redes sociais, tema que agora passa a ser analisado pelos órgãos de controle.

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