Apelo de identidade e desejo de renovação podem abrir caminho para a ministra
A ministra do Planejamento, Simone Tebet, fala em evento na Cidade do México - 27/08/2025 (Foto: REUTERS/Henry Romero)
Uma informação aparentemente simples — o fato de São Paulo nunca ter sido governado por uma mulher — mostrou potencial para alterar o comportamento do eleitorado paulista e introduzir um novo elemento na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes, relata o jornal O Estado de São Paulo. O dado, apresentado a eleitores durante uma pesquisa recente, levou parte dos entrevistados a rever a intenção de voto, abrindo espaço para o crescimento do nome da ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet (MDB).
O levantamento foi conduzido pelo cientista político Jairo Pimentel, da consultoria Quanti.Lab, e indica impactos diretos sobre o atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que já sinalizou a intenção de buscar a reeleição. A pesquisa quantitativa ouviu mil eleitores por telefone entre os dias 22 e 23 de dezembro de 2025 e não foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
De acordo com o estudo, cerca de 40% dos entrevistados desconheciam que o Estado jamais foi comandado por uma mulher. Quando informados sobre esse histórico, aproximadamente um quarto afirmou que o dado influenciaria sua escolha eleitoral. A comparação entre os cenários antes e depois da informação revelou queda no desempenho de Tarcísio e avanço de Tebet, especialmente entre as mulheres, grupo no qual a ministra chega a empatar tecnicamente com o governador. A deputada federal Erika Hilton (Psol) também apresentou crescimento, embora em patamar inferior.
Segundo Jairo Pimentel, a informação funciona como um elemento decisivo no processo de escolha do eleitor. “É uma informação bastante valiosa, um atalho informacional na decisão de voto, especialmente entre as mulheres. Isso pode pesar ao longo da campanha. Se Simone for candidata e se apresentar a partir do fato de que São Paulo nunca teve uma governadora, cria-se um apelo de identidade. Hoje, ela ainda é pouco conhecida pela maior parte do eleitorado, mas esse fator histórico pode gerar tração, sobretudo entre as mulheres”, afirmou.
Paralelamente, um estudo qualitativo coordenado por Nilton Tristão, diretor da GovNet & Opinião Pesquisa, analisou em profundidade a reação do eleitorado a candidaturas fora do espectro tradicional, com foco especial em nomes femininos. Encomendadas por apoiadores de Tebet que preferiram não se identificar, as pesquisas não partiram de iniciativa direta da ministra, que não vem se articulando publicamente para disputar o governo paulista.
Os dados qualitativos mostram que a imagem de Tebet é majoritariamente positiva: 48% dos participantes a avaliaram de forma favorável, 28% disseram ter dificuldade em julgá-la e 24% manifestaram opinião negativa. O resultado sugere baixa rejeição, mas aponta o desconhecimento como principal obstáculo. Quando estimulados a citar mulheres com potencial para governar São Paulo, 65% mencionaram algum nome. Tebet foi lembrada espontaneamente por 15%, seguida pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), com 10%, e pela deputada federal Tabata Amaral (PSB), com 8%.
Nilton Tristão observa que parte dos entrevistados projeta na ministra atributos específicos. Segundo ele, Tebet foi percebida como uma “liderança competente, empática e conciliadora”, associada à mulher que “pensa, organiza e conduz com equilíbrio e decoro os interesses públicos”. No levantamento, 60% afirmaram que aceitariam votar nela para governadora, incluindo eleitores decididos, parcialmente decididos e volúveis.
A eventual candidatura também dialoga com outro dado central da pesquisa quantitativa: a maioria dos eleitores paulistas deseja algum grau de mudança na condução do governo estadual, ainda que de forma parcial e segura. Esse sentimento é mais intenso entre as mulheres, o que, segundo Pimentel, favorece Tebet. “O eleitor paulista quer mudança, mas não uma mudança radical; quer uma mudança segura”, disse o pesquisador, acrescentando que essa noção de segurança está ligada à experiência administrativa.
Para ele, a presença da ministra poderia alterar a dinâmica do pleito. “Tarcísio tem chance de vencer no primeiro turno contra Haddad ou Alckmin porque nenhum dos dois oferece um elemento surpresa. São nomes com alto recall, já conhecidos do eleitor. Para evitar uma vitória no primeiro turno é preciso um candidato que traga informações novas e surpreenda. Tebet surge como essa novidade: atrai um voto diferente, tira votos de Tarcísio e pode ser fundamental para impedir a definição já no primeiro turno”, completou.
A relação de Tebet com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também gera percepções distintas. Para parte do eleitorado, a aliança reflete convergência ética e trajetória política; para outros, especialmente críticos, é vista como oportunismo ou traição. Tristão ressalta que o potencial da ministra depende do arranjo partidário e afirma que uma candidatura formalmente vinculada ao PT elevaria significativamente sua rejeição.
No campo político, apesar de setores do PT defenderem o nome de Tebet, lideranças petistas ainda consideram Fernando Haddad e Geraldo Alckmin os quadros mais consolidados para a disputa em São Paulo. Além disso, uma eventual candidatura exigiria a saída da ministra do MDB, partido que integra a base de apoio de Tarcísio no Estado.
Em entrevista ao Estado de São Paulo, o presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, afirmou que Tebet indicou outro caminho. “Claro que essas especulações acontecem, a gente acompanha. Acho que isso só engrandece o nome da Simone. Mas, conhecendo a Simone como eu conheço, acredito que ela não estaria falando em ser candidata pelo Mato Grosso do Sul se tivesse outra ideia”, disse, ao relatar que a ministra manifestou intenção de disputar o Senado por seu Estado de origem.
Enquanto Tebet evita declarações públicas sobre o futuro político e afirma a aliados que só tomará uma decisão após conversar com Lula, as pesquisas indicam que sua simples presença no debate já é suficiente para introduzir incertezas em uma eleição considerada, até agora, amplamente favorável à reeleição de Tarcísio de Freitas.
Fonte: Brasil 247 com informações do jornal O Estado de S. Paulo
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